terça-feira, 16 de outubro de 2012

1º Parágrafo: Os Papéis de Rachel


Chamo-me Charles Highway, embora ninguém pensasse tal coisa ao olhar para mim. É um nome muito escorreito, bem viajado, caralhudo, e, olhando-se para mim, eu não sou nada disso. Para começar uso óculos, e desde os nove anos. e a minha figura de estatura mediana, sem traseiro, sem peito, o tronco enfezado e as pernas arqueadas conjugam-se de maneira a afastar qualquer sugestão de aprumo. (De modo algum, já agora, se deverá confundir este modelo particular com as elásticas compleições tão populares entre os meus contemporâneos. São muito diferentes. Lembro-me que costumava dobrar quase duas vezes as bainhas das minhas calças, e inchar o traseiro com camisas destinadas a homens crescidos. Agora, porém, visto-me mais conscienciosamente, não tanto com gosto mas com intuição.) Mas possuo uma daquelas vozes estridentes que estão na moda, das que têm uma habitual ressonância irónica, excelentes para promover inquietação entre os velhotes. E imagino que haja também algo de estranhamente desencorajador no meu rosto. É anguloso, porém delicado; nariz fino e comprido, boca larga e estreita – e os olhos: ricamente pestanudos, de tom ocre-escuro com um leve matiz de castanho-avermelhado… ah, como estas palavras parecem desadequadas.


* Tradução de Jorge Pereirinha Pires

* Revisão de Pedro Ernesto Ferreira

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