sábado, 8 de novembro de 2014

Poema à noitinha... Valter Hugo Mãe

nenhum amor escapa impune

deixa-me perguntar se te
pareço tão assustado assim. Não
me sinto deslocado, talvez curioso, mas
nem surpreso. algo em ti me puxa
sempre ao sentimento, mesmo antes de
te conhecer, lembras-te, uma propensão para
te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus
modos, recusar admitir que também eu sou
capaz de crueldades quotidianas e
impunes. queria conversar contigo
sobre o nelson, que foi ver as coisas a
arder fotografando a própria
pele. queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo

queria que soubesses que também eu
poderia ter ardido para o nelson
fotografar. queria que soubesses que
também poderia parar de chorar pela
isabel. queria que soubesses que o faria
exclusivamente
para arruinar o meu coração, se fosse a
tua vontade e com isso te deixasse em
paz. faria qualquer coisa, ainda que
quisesse morrer a seguir, faria qualquer coisa que,
por um instante, te pusesse
a pensar em mim

*valter hugo mãe, in contabilidade

a-ver-livros: ana escreve, rodrigo dá a foto

Sobra-me o arrepio
e meia dúzia de beijos
um fiapo de medo
o rasto de nuvem
que parecia
um navio
um saco de tretas
e mais um beijo
a flor morta
enterrada num livro
e uma elegia para o futuro,
que é melhor escrevê-la
eu

Ana Almeida

foto: Rodrigo Ferrão
 

Porque não tentar um livro?

Foto frase do dia: Sylvia Plath

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Abibliophobia, o que é?

Uma boa prenda no próximo Natal!

Editora PruX Táta: A Jabarda

Depois de ter saído mais um livro póstumo de um autor português, do qual nos recusamos a dizer o nome, podendo apenas dizer que se trata de um dos prémios nóbeis (ou nobéis?), a PruX soube que o autor havia escrito apenas três páginas e alguém levou aquilo à Bimby e, após um intrincado programa, obteve trezentas páginas de livro e um suflê.

Ora, a PruX orgulha-se de estar na linha da frente (apen...as em matérias editoriais; no que toca a rambóias foge sempre do lugar de maquinista) e publica mais um livro póstumo do autor. “A Jabarda” de Josué Saramagate não é de Josué Saramagate. Ou melhor, é. Mas só na essência. 

O que acontece é que o autor, quando ainda era vivo, sentiu-se mal após um jantar de secretos de porco preto e teve que regurgitar. Fê-lo sobre uma blusa de sua mulher e esta esqueceu-se dela no armário, ficando por lavar. Há pouco, voltou a pegar na blusa e reparou que a regurgitação, para além de seca e extremamente sólida, parecia-se muito com uma coisa. Era uma coisa que ela queria que fosse uma ideia para um livro.

Deste modo, reuniu uma comissão em mistérios literários, composta por Dan Brown, José Rodrigues dos Santos e Cláudio Ramos (este último na categoria de “Mistério por ninguém saber como continua a escrever livros”) que decifraram o famoso vómito e fizeram daquilo uma espécie de pasta de papel a que, orgulhosamente, passámos a chamar de livro.

Venha provar mais um petisco literário de Josué!


*Acompanhe a Editora PruX Táta em: https://www.facebook.com/groups/374405188554/
*Acompanhe o blog O Javali de Vladivostok - http://ojavalidevladivostok.blogspot.pt/


Foto frase do dia: Machado de Assis

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

a-ver-livros: como é?

Como é que te explico 
o pesar da ausência
do cheiro da pele 
que já foi minha?
Como é que te abano
e abalo e absorvo 
e retenho
o que resta da sombra
no meu jardim?
Como é que dissipo
o ocre carcomido 
do sangue seco 
que já não tem forças 
para correr nas veias?
Como é que escrevo
o que não queres ler?

Ana Almeida

* para saber mais sobre o pintor americano David Lee Thompson
siga o link http://pixels.com/profiles/david-lee-thompson.html

Gonçalo Viana de Sousa: o Flâneur das Sensações



Hoje Gonçalo presenteia-nos com escritos da sua juventude. O texto de hoje, com o título liberdade, faz parte do ensaio chamado Prospectos de Julho!


"Liberdade"

Que me dizem os impérios que caem sob o esquecimento de noites que são pó e silêncio? Um lamento, longo e líquido, na hora final das bandeiras hasteadas com o orgulho de séculos que, do nada, voltam ao que sempre foram: pó.
Só a liberdade, só a liberdade será capaz de realizar o homem.
Escrevo com a caneta em riste, o papel quase incrustado na minha pele, como se este acto simples, singelo e silencioso, fosse capaz de calar todas as maldades e injustiças do mundo.
Homens e mulheres aprisionados. Crianças com fome e os velhos pedindo uma esmola como quem grita: humanidade. O homem máquina e besta mata o seu semelhante, em nome de Deus e do Diabo e do Estado e da ordem. O cheiro do napalm, o som líquido da morte, altiva e inevitável.
Quem será capaz de se libertar deste tempo malicioso, deste tempo que se cola às paredes da memória e das gentes?
Só a liberdade, só a liberdade há-de restar como bastião de tudo aquilo que é Belo, de tudo aquilo que vale a pena! Acredito na Liberdade como Deusa, Senhora e Musa. Nossa senhora da Liberdade que nunca deixamos de procurar! Vem e consola-nos, mater dolorosa… Vem lavar-nos o rosto ferido pelo tempo e pelo esquecimento.
A minha caneta não escreve, parece antes martelar no papel como se este fosse a pele de um oprimido ou então um mármore a nascer, eterno, branco e livre.
Não serão estes os tempos que irão definir o futuro. Serão, sim, os nossos ideais! Só a luta contra um regime que nos prende famílias inteiras só porque se pensa livremente e se lêem livros e debatem ideias que são vistas como venenosas, como um atentado à ordem e ao bem públicos.
Escarro de bolso em carteiras recheadas com tardes de lanches e bolos e pastelarias à Cesariny! Os pequenos dos burguesinhos, rechonchudos e tão crianças como os que dormem na rua, comem chocolates e pão e bananas e quando ficam doentes tomam caldos e medicamentos. Os petizes que dormem na rua comem os restos de algum cristão de meia leca que deixa os seus restos de um jantar farto.
Burguesia e Igreja: como ambos os estados se acomodaram bem a este Estado sem jeito nenhum!
Só a liberdade poderá levar-nos a outras colinas que não estes de cinza e pó e opressão. Escrevo isto de noite, às escondidas do mundo, deste mundo que vê este pequeno país nação apodrecer aos poucos. E essa Europa sorri e acena, de longe, vendo-nos, pobres, parolos e pitorescos!
Ai liberdade, liberdade, só tu serás a salvação do sol a nascer! Só tu serás a nossa redentora, Turris-Eburnea daqueles que te desejam com quanta fome têm no bolso e na alma.

A arte será essa: a da liberdade e da revolução.

Músicas que são livros: Radiohead

Artist/Song: Radiohead – Dollars & Cents (from 2001’s Amnesiac)

Book: Naomi Klein’s No Logo

Lyric: “We are the dollars and cents/And the pounds and pence/And the mark and the yen/And yeah were gonna crack your little souls.”

 Dollars and Cents

There are better things to talk about
Be constructive
Bear witness
We can use
Be constructive
With your blues

Even when its only warnings,
Even when you’re talking war games.

Oh Why don’t you quiet down?
(Maybe I want peace and honesty)
Why don’t you quiet down?
(Maybe I want to live in the children’s land
And you know maybe, maybe I)
Why don’t you quiet down?
(Maybe I’ll wander the promised land
I want peace and honesty)
Why don’t you quiet down?
(I want to live in the promised land
And maybe wander the children’s land)
Quiet down! (Yeah, and there, there we can free)”

You don’t live in a business world,
you never go out and you never stay in.
We all have goals in a liberal world,
living in times when I can stand it babe.

It’s all over baby’s crying,
its all over baby.
I can see out of here.
All over the planets dead,
all over the planet, so let me out of here.
All over the world.

Oh Why don’t you quiet down?
(Maybe I want peace and honesty)
Why don’t you quiet down?
(Maybe I want to live in the children’s land
And you know maybe, maybe I)
Why don’t you quiet down?
(Maybe I’ll wander the promised land
I want peace and honesty)
Why don’t you quiet down?
(I want to live in the promised land
And maybe wander the children’s land)
Quiet down! (Yeah, and there, there we can free)”

we are the DOLLARS & CENTS
and the PoUNDS and Pence
the MARK and the YEN
We are going to crack your little skulls
We are going to crack your little souls

we are the DOLLARS & CENTS
and the PoUNDS and Pence
and the PoUNDS and Pence
We are going to crack your little skulls
We are going to crack your little souls

We are the dollars and cents
*este post é parte do seguinte artigo: 25 songs that reference books 

Foto frase do dia: Patti Smith


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Perguntei... Maria Manuel Viana respondeu


Rodrigo Ferrão: O que achas? "Não ser assediada" é um direito que não é devidamente protegido, pois não?

Maria Manuel Viana: exactamente, Rodrigo. A liberdade de uma mulher andar pela rua, esse direito de o fazer sem ser incomodada, é posto em causa. gostei muito do artigo da Fernanda Câncio ("...o chamado "piropo de rua" é uma forma de agressão e portanto - não tenhamos medo das palavras - de intimidação e dominação das mulheres. De lhes tornar claro que na rua não estão seguras; que a rua não é delas; que se "habilitam". E isto desde meninas, e à bruta, para aprenderem (aprendermos) a lição.

Contra a penalização formal destes comportamentos ridiculariza-se; alega-se o não terem "dignidade penal", ou até a "defesa da liberdade de expressão". Tem piada: é mesmo em nome dessa liberdade total de expressão, verbal e física, que em certos países as mulheres ou ficam em casa ou só saem de burqa.(...)"). E todas nós, mulheres, passámos por situações destas, como as relatadas nos vídeos de Bruxelas e Nova-Iorque. Às vezes, dava voltas enormes para não ter de passar perto de nenhum grupo de homens. O lambia-te toda era das mais usuais, a par com o comia-te ou fodia-te toda. Mas tenho verificado, em conversa com muita e variada gente, que não é nada consensual, esta posição, e nem estou a falar dos homens, que tendem a desvalorizar, provavelmente porque não conseguem imaginar a violência que é ouvir frases destas. Conheço mulheres que acham que isto lhes aumenta a auto-estima, que as valoriza, que as torna desejáveis, como se o piropo as individualizasse e não, pelo contrário, as reduzisse a alguns buracos; outras que reagiam, dizendo: então anda cá, a ver se és capaz. A expressão "mulher séria não tem ouvidos" era um mantra em todas as famílias e, se nos queixássemos, a culpa era nossa, que tínhamos provocado os homens. Em casos extremos, como a violação, vi muitas vezes juízes defenderem que, caso isso a preocupasse, a mulher se vestiria de outra forma, não provocando o desejo legítimo e alheio. E não foi assim há tanto tempo, nos anos 90 peguei-me com um juiz por ele defender isto. E em França, também nos anos 80 ou 90, um violador foi absolvido porque a vítima levava sapatos vermelhos, prova irrefutável de que estava a pedir para ser violada. No fundo, é uma questão de ideologia, da não igualdade, da pertença enquanto objecto a um homem, bem expressa nas metáforas alimentares, no tratamento depreciativo por tu, no direito de dizerem em voz alta o que lhes ocorre e, no limite (porque o piropo, a abordagem alvar, o convite ao sexo não são assim tão distantes de uma violação) a certeza de que, no fundo, no fundo, as mulheres até gostariam de ser violadas por homens como eles, verdadeiros artistas do sexo. As mulheres sozinhas e as dos outros, entenda-se. As deles são sérias e recatadas.

foto de Alfredo Cunha — em Póvoa de Varzim, Correntes d'escritas.

a-ver-livros: à flor do sangue

Arde a pele na agonia da espera
arrebatando devagar
a chama presa
à gana
à garra
que deixa marca 
à flor do sangue
Deflagra a esperança
no peito
exangue
das chamas impetuosas da raiva
e chovem pedras 
lágrimas

Ana Almeida

* para saber mais sobre o pintor búlgaro Dimitri Vojnov
 siga o link http://www.vojnov.de/

Foto frase do dia: Somerset Maugham


Poesia em matéria fria: Cacaso again

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terça-feira, 4 de novembro de 2014

A arte da fome, Antonin Artaud

É do borogodó: leveza

"a
vida
e
a
pena
valem
pela
leveza"

Zhô Bertholini *



* Zhô Bertholini é poeta e artista gráfico, natural de Santo André, SP, cidade onde, desde os anos 70, participa de movimentos culturais, atuando também como editor, ao lado de Jurema Barreto de Souza, da revista listerária A Cigarra.

Penélope Martins

A livreira mais famosa de sempre

*Acompanhe a página Book Porn - https://www.facebook.com/pages/Book-Porn/371969449495192

While Barbara Gordon and Cassandra Cain have both been the subject of academic analysis regarding the portrayal of women in comics, commentary on Barbara Gordon's Batgirl has focused on her character's connection to the Women's liberation movement, doctoral degree and career as a librarian, while analysis of Cassandra Cain's Batgirl has focused on the character's double minority status as a woman and a person of color. Since her debut in DC Comics publication, and fueled by her adaptation into the Batman television series in 1967, Barbara Gordon's Batgirl has been listed among fictional characters that are regarded as cultural icons. Author Brian Cronin, in Was Superman A Spy?: And Other Comic Book Legends Revealed (2009) notes that following her 1967 debut, "Batgirl was soon popular enough to appear regularly over the next two decades and Yvonne Craig certainly made an impression on many viewers with her one season portraying young Ms. Gordon." In 2011, IGN ranked Barbara Gordon 17th in the Top 100 Comic Books Heroes. Cassandra Cain's Batgirl has become one of the most prominent Asian characters to appear in American comic books, and her understated sexuality is notable as being contrary to the common sexual objectification of female characters, especially those of Asian descent.

Representation for librarians

In The Image and Role of the Librarian (2002), Wendi Arant and Candace R. Benefiel argue that Batgirl's portrayal as a librarian is considered to be significant to the profession, in that it is represented as a valuable and honorable career. Even in light of the fact that the character abandons it in order to run for United States Congress, Barbara Gordon is seen as being given a "career switch that even most librarians would consider a step up." In the essay "Librarians, Professionalism and Image: Stereotype and Reality" (2007), Abigail Luthmann views the character less favorably, stating that "[t]he unassuming role of librarian is used as a low-visibility disguise for her crime-fighting alter-ego, and while her information-locating skills may have been useful to her extra-curricular activities no direct examples are given."

Músicas que são livros: David Bowie


"1984" is a song by David Bowie, from his 1974 album Diamond Dogs. Written in late 1973, it was inspired by George Orwell's Nineteen Eighty-Four and, like much of its parent album, originally intended for a never-produced stage musical based on the novel.

Artist/Song: David Bowie – 1984, (from 1974’s Diamond Dogs)

Book: George Orwell’s 1984

Lyric: “They’ll split your pretty cranium and fill it full of air/And tell that you’re eighty, but brother, you won’t care/Beware the savage jaw of 1984.”

Also: Other tracks on Diamond Dogs feature other Orwell references including the song titles Big Brother and We Are The Dead (Winston Smith’s final words before being captured by the thought police in the book). Bowie was intending to do a 1984 musical, though the project was killed off when Orwell’s widow objected.



"1984"
Someday they won't let you, so now you must agree
The times they are a-telling,
and the changing isn't free
You've read it in the tea leaves, and the tracks are on TV
Beware the savage jaw
Of 1984

They'll split your pretty cranium, and fill it full of air
And tell that you're eighty, but brother, you won't care
You'll be shooting up on anything, tomorrow's neverthere
Beware the savage jaw
Of 1984

[CHORUS]
Come see, come see, remember me?

We played out an all night movie role

You said it would last, but I guess we enrolled

In 1984 (who could ask for more)
1984 (who could ask for mor-or-or-or-ore)
(Mor-or-or-or-ore)

I'm looking for a vehicle, I'm looking for a ride
I'm looking for a party, I'm looking for a side

I'm looking for the treason that I knew in '65

Beware the savage jaw
Of 1984

[CHORUS]

1984 [ad lib]

*este post é parte do seguinte artigo: 25 songs that reference books 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

domingo, 2 de novembro de 2014

Os livros de Helder Magalhães

 
 fotos: Rodrigo Ferrão
 
Helder Magalhães escreve e produz todos os seus livros. São encadernados e escritos à mão. E levam sempre a natureza na capa! A não perder.

À venda na
Livraria Snob

Librarian Hell

A infância


"A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
(...)
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
(...)"

Ruy Belo in Homem de Palavra(s)


Biscoto, Akvile Magicdust

Apanhei-te a ler... dia 25

Sophia Loren