sábado, 10 de maio de 2014

Assim arranca «Intempérie» de Jesús Carrasco

P.V.P.: 15,00 € 
Data de Edição: 2014
Nº de Páginas: 216
Editora: Marcador

1.

No seu buraco de argila escutou o eco das vozes que o chamavam e, como se de grilos se tratasse, tentou localizar cada homem dentro dos limites do olival. Berros como estevas calcinadas. Deitado de lado, o seu corpo em forma de seta encaixava-se na cova sem deixar espaço para se mover sequer. Os braços envolvendo os joelhos ou servindo de almofada, e apenas um nicho para o bornal dos mantimentos. Havia disposto uma ruma de varas de poda sobre dois ramos grossos que serviam de vigas. Esticou o pescoço e deixou suspensa para poder escutar com maior clareza e, semicerrando os olhos, aguçou o ouvido em busca da voz que o obrigara a fugir. Não a encontrou, tão-pouco distinguiu ladrilhos, e isso aliviou-o porque sabia que só um cão bem ensinado podia descobrir o seu esconderijo. Um perdigueiro ou um bom trufeiro coxo. Quem sabe um sabujo, um desses animais de patas curtas lenhosas e orelhas descaídas que vira uma vez num jornal chegado da capital.

Snobidando: José Jorge Letria e André Letria

Se Eu Fosse um Livro
José Jorge Letria e André Letria

Acompanhe a página da Livraria Snob no Facebook. Abre brevemente, em Guimarães. Pode lá encontrar isto e muito mais.

A Estória do Gato e da Lua

Para quem tem curiosidade de desvendar o segredo da Lua cheia

video
Pedro Serrazina, 1995


"No princípio era o negro absoluto, a imensidão calma da noite. Depois, ela surgiu e tudo mudou. Há muito que deixei de a procurar, agora tudo é mais calmo. Aprendi que o melhor é esperar, ela virá, quando puder ou quiser. Sei que um dia virá ter comigo, se não, porque passaria horas a fio, noites inteiras a observar.me? Nada mais importa, eu espero. 


Mas nem sempre fui assim. Depois de a conhecer, a minha vida mudou. Procurei segui-la. Por ela atravessei mares, corri oceanos, cheguei mesmo a andar à deriva. Tudo fiz para a encontrar e, quando julguei estar perto, estava ainda bem longe. 

Senti-me perdido, sem saber o que fazer, no meio de tanto mar. Mar que tornava-se cada vez mais apertado, o mundo cada vez mais pequeno para toda aquela paixão.

Foi então que mudei de vida. Arranjei  casa e confortavelmente instalado, julguei irrecusável a minha proposta. Mas, de novo, ela fugiu. Desesperado, fui então de telhado em telhado atrás dela, escravo daquele desejo, prisioneiro daquela atracção que pouco a pouco me deixava cada vez mais só.

E o tempo passou. Agora já não corro. Espero apenas. O resto não importa." 

Livro-bicicleta

Book Bike, dessin de Julia Kuo
http://juliakuo.com/

Encontrado na página Improbables Bibliothèques, 
Improbables Librairies. A não perder por nada! 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Poema à noitinha... António Gancho

Noite Luarenta

Noite luarenta
Noite a luarar
Noite tão sangrenta
Noite a dar a dar
Na chaminé da planície
a solidão a cismar
na chaminé da planície
noite luarenta a dar a dar
Noite luarenta
noite de mistério
noite tão sangrenta
solidão cemitério
Na chaminé da planície
o Alentejo a solidar
noite luarenta que o visse
noite luarenta a dar a dar
Noite luarenta
noite luarol
na chaminé da planície
o temor e o tremor
O cavalo a luarar
a lua a fazer meiguice
noite luarenta a luarar
noite luarenta a luarice.

*António Gancho, in O Ar da Manhã

that's how a heartache begins

Stag Party, de Ken Schles, 1985
Fonte: http://www.kenschles.com/


"O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisto. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido.
É melhor do que morrer. Há coisas, como o álcool e os livros, que continuam boas. A morte é mais aborrecida.
Por que é que fodemos o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. Parece estar mesmo a pedir. De resto, ninguém suporta viver um amor que não esteja pelo menos parcialmente fodido. Tem de haver escombros. Tem de haver esperança. Tem de haver progresso para pior e desejo de regresso a um tempo mais feliz. Um amor só um bocado fodido pode ser a coisa mais bonita deste mundo."

O Amor é Fodido, de Miguel Esteves Cardoso

Vem aí... «Maus» em português!

Estou feliz... «Maus» chega em português, obra e graça da Bertrand.


Sinopse
Maus ("rato", em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polaco sobrevivente de Auschwitz, narrada por si próprio ao filho, o cartoonista Art Spiegelman. O livro é considerado um clássico contemporâneo da BD. Foi publicado em duas partes: a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prémio Pulitzer de literatura.
A obra é um sucesso estrondoso de público e de crítica. Desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas - história, literatura, artes e psicologia. Com uma nova tradução, o livro é agora relançado com as duas partes reunidas num só volume.
Nas tiras, os judeus são desenhados como ratos e os nazis ganham feições de gatos; os polacos não-judeus são porcos e os americanos, cães. Este recurso à imagética da fábula, aliado à ausência de cor, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto. Spiegelman, porém, evita o sentimentalismo e interrompe algumas vezes a narrativa para dar espaço a dúvidas e inquietações.
De vários pontos de vista, uma obra sem equivalente no universo da BD e da literatura em geral, e um relato histórico de valor inestimável.

a-ver-livros: agarra a nuvem que passa

As nuvens passam
céleres
ao colo do vento
não lhes adivinho a pressa
nem suspeito 
o seu destino

Talvez recolham ao peito
de onde o meu medo
as rasgou

Ana Almeida

* para saber mais sobre a pintora americana Carrie Graber
siga o link www.facebook.com/CarrieGraberOfficial

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Poema à noitinha... Geir Nuffer Campos

Se Te Chamarem Flor

Se te chamarem flor
toma cuidado:
vê se não é gente que te quer por
numa redoma – lindo objeto – a vegetar
alheia a tempo e lugar!
Se te chamarem flor,
acorda e toma cuidado:
olha que te levam para o mesmo lado
de tanto destino mal-aventurado!

*Geir Nuffer Campos, in Cantiga de Acordar Mulher

Eu poético... «Conjunção adversativa»

Conjunção adversativa

às vezes vislumbro sorrisos
por entre as tuas lágrimas
de crocodilo
e penso no quão bom seria
voltarmos a celebrar a vida
um
do
outro.

somos dois moribundos
abandonados à solidão,
deixados num deserto
para servir de isco a abutres.

mas...
os meus esforços
em restabelecer a paz
caem por terra.

porém...
a minha força
esgota-se quando ouço
mais
um
não.

todavia...
gostava que fizéssemos
o esforço
para dar um
pequeno
primeiro
passo.

contudo...
sei que também
tenho culpa.

e por isso aceito,
só assim aceito...

que nascemos destinados
a
sofrer
j-u-n-t-o-s.

Rodrigo Ferrão


Foto: Rodrigo Ferrão

«Para onde vão os guarda-chuvas» recebe prémio SPA

foto divulgada no perfil do autor no facebook

Hoje, pelas 18h00, a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai fazer a entrega dos 22 «Prémios Autores 2014», entre os quais está o figueirense Afonso Cruz, numa cerimónia que terá lugar na Câmara Municipal de Lisboa.
Os atores João Perry, no teatro, e Gonçalo Waddington, no cinema, o dramaturgo Abel Neves, os músicos Samuel Úria e David Santos, Noiserv, e o compositor António Pinho Vargas estão entre os 22 vencedores do Prémio Autores, que contemplam diferentes áreas e disciplinas e constituem "um estímulo para que a criatividade dos autores portugueses, mesmo neste ciclo de adversidade e privação, não abrande", lê-se num comunicado da SPA.


O prémio «Melhor Livro de Ficção Narrativa» vai para a obra «Para onde vão os guarda-chuvas», de Afonso Cruz - Edições Alfaguara.

Sinopse

O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso.
Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.
Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.
Entre os 5.000 exemplares da primeira edição, existem 2 que são completamente diferentes: um é a versão diurna do romance, outro a sua versão nocturna. Os leitores estão convidados a descobrir se o seu exemplar é um dos livros especiais.

Excerto

– A minha mãe, Sr. Elahi, interrogava-se para onde vão os guarda-chuvas. Sempre que ela saía à rua, perdia um. E durante toda a sua vida nunca encontrou nenhum. Para onde iriam os guarda-chuvas?
Eu ouvia-a interrogar-se tantas vezes, que aquele mistério, tão insondável, teria de ser explicado. Quando era jovem pensei que haveria um país, talvez um monte sagrado, para onde iam os guarda-chuvas todos. E os pares perdidos de meias e de luvas. E a nossa infância e os nossos antepassados. E também os brinquedos de lata com que brincávamos.
E os nossos amigos que desapareceram debaixo das bombas. Haveriam de estar todos num país distante, cheio de objectos perdidos. Então, nessa altura da minha vida, era ainda um adolescente, decidi ser padre. Precisava de saber para onde vão os guarda-chuvas.
– E já sabe? – perguntou Fazal Elahi.
– Não faço a mais pequena ideia, mas tenho fé de encontrar um dia a minha mãe, cheia de guarda-chuvas à sua volta.

À atenção dos poetas não publicados!


Anuário de Poesia de autores não publicados 2015

REGULAMENTO


1. Do âmbito

a) O Anuário de Poesia de autores não publicados tem por objectivo incentivar a produção poética em língua portuguesa e pretende constituir-se como uma plataforma válida para a publicação e divulgação de autores que ainda não tenham publicado qualquer livro de poesia.
b)  O Anuário de Poesia de autores não publicados é uma publicação anual que, a partir de 2015, será distribuída a 21 de Março, o Dia Mundial da Poesia.


2. Da constituição e soberania do júri

a) O júri do Anuário de Poesia de autores não publicados 2015 será constituído por Manuel Alberto Valente e Vasco David, em representação da editora, e por três personalidades convidadas, os escritores Almeida Faria, Armando Silva Carvalho e Golgona Anghel.
b) Dos poemas enviados, o júri do Anuário de Poesia de autores não publicadosescolherá aqueles que considerar dignos de publicação, até um máximo de três poemas por autor.
c)  A decisão do júri é soberana e inapelável.


3. Dos procedimentos, requisitos e prazos para a candidatura

a) Como indicado no título do Anuário, só poderão concorrer autores que ainda não tenham publicado qualquer livro de poesia. Todos aqueles que tenham já publicado livros que não de poesia, ou que tenham publicado poemas seus em revistas, blogues ou antologias, serão admitidos a concurso.
b) Os interessados deverão enviar até um máximo de 10 poemas originais de sua autoria para o endereço electrónico anuario@assirio.pt, em conjunto com uma breve apresentação biográfica, morada e contacto telefónico.
c) Os poemas deverão ser enviados em formato PDF ou Word.
d) As candidaturas podem ser enviadas até ao dia 3 de Outubro de 2014. Todas aquelas que chegarem em data posterior serão liminarmente rejeitadas.
e) A Assírio & Alvim só contactará os candidatos para obter esclarecimentos que julgue necessários ou para lhes anunciar a sua entrada no Anuário.


4. Outras disposições

a) A publicação no Anuário de Poesia de autores não publicados é o prémio que distinguirá aqueles autores e poemas que, no universo das candidaturas recebidas, sejam considerados pelo júri como os melhores.
b) Ao enviarem os seus poemas a concurso, os candidatos concordam expressamente com a publicação do seu trabalho no Anuário de Poesia de autores não publicados, não podendo exigir à editora qualquer ressarcimento por essa publicação.
c) Caso o júri entenda que, no universo das candidaturas recebidas, não existem poemas em quantidade e qualidade suficientes para justificar a publicação doAnuário de Poesia de autores não publicados, a mesma poderá não ocorrer.
d) Caso suceda o previsto na alínea anterior, a Assírio & Alvim compromete-se a disso dar conhecimento público, pelos meios correntes.

*este post é cópia do blogue da editora Assírio & Alvim - http://assirioealvim.blogspot.pt/2014/04/anuario-de-poesia-de-autores-nao.html

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Poema à noitinha... Judith Teixeira

Saudade

Segue-me noite e dia o teu desejo!...
Oiço a tua voz rúbida e cantante
Suplicar-me a carícia do meu beijo,
numa teima exigente e perturbante!

E o meu corpo vencido, dominado,
vai tombar doloroso, inconsciente,
sobre a lembrança morna do passado
- e fica-se a sonhar... perdidamente!

*Judith Teixeira, in Antologia Poética

Gonçalo Viana de Sousa: O Flâneur das Sensações

A Arte é tudo. E tudo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo. (Eça de Queirós)

Eis mais um conto de Gonçalo Viana de Sousa. Cerebral, cerebral, cerebral!


Foi a primeira vez que morri.
Tinha acordado de um sonho estranho, negro e azul: meditabundo. Chovera toda a noite, pois o jardim do hospital soltava um cheiro fresco e húmido a terra molhada, a jasmim, trevo e rosmaninho. (Talvez não exista hospital nenhum com jardim e com estes odores, mas, desculpa leitor, aqui precisamos da chuva e dos perfumes. Desculpa-nos.)
A enfermeira entrou no quarto com uma pequena refeição e um copo com umas quantas pílulas coloridas, para os nervos e para a cabeça.
Bom dia, senhor Sousa, diz a pobre enfermeira mais doente e maluca que eu. (Sim, porque eu não estou doente nem algo do género, simplesmente consigo ver personagens de livros a vaguear pelos jardins e pelas avenidas. E por conta disso, chamam-me maluco! Feliz: é a definição apropriada. Mas será a felicidade loucura? Será o dia-a-dia de horas sem sol e luz a realidade de toda a gente, transeuntes esquecidos do coração? Não sei, nem interessa. Para quê?)
A enfermeira espera até que eu tome a refeição e as pílulas. (Para não acontecer o que aconteceu a Julieta, e essa era bem mais louca que eu. Amor.)
Bernardo Soares parece estar sentado num banco do jardim, enquanto ao seu lado, um leitor é assassinado por uma personagem do romance que está ler. Cortázar?
Os pássaros voam alto e coloridos. Cézanne pinta e Monet chora. E tudo isto acontece no jardim daquele hospital. Tomei as pílulas. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis. A enfermeira sai. Até mais logo, senhor Sousa. Até, respondo-lhe.
As janelas do quarto têm grades, contudo, a realidade continua igual, impávida, inconsciente, indiferente. À cabeceira, um romance grosso. Talvez Os Trabalhadores do Mar, não interessa. No meio do livro, uma pílula negra. Engulo a pílula negra, fecho os olhos e estou no jardim. Caminho ao lado de Bernardo Soares que sorri muito, muito, muito. Do céu vem um ruído estranho. Qualquer coisa a tocar. Parece um despertador. Despertador. Despertador. DespertaDor. Abro os olhos. Chove torrencialmente. Levanto-me e enfrento a realidade. Hoje vou enterrar a minha mãe.


Foto frase do dia: Pessoa

Da Fragilidade

Da Fragilidade

Da fragilidade
Só sei dizer que mora em minha casa.
E nunca ninguém se incomodou.
Pelo contrário, levou mais abraços.   
Fragilidade: só dentro. Assusta.
E as pessoas desabituam-se dos abraços.
A (dar) braços.
Arrepios: só dentro. A maresia nos olhos: só dentro.
Rumorejar: só dentro. Borboletar: só dentro.
Só dentro. Só dentro dos avessos.
Que de frágil só de bonito conhece. E acolhe.
Traz quente para dentro. Quente por dentro.
Dentro dos avessos.
Que os vidros quebram.
Quebramos nós, cobertos de vidro.
Do vidro de quem se encosta.
Antes o ombro, de quem se encosta.
E que se encoste frágil. Para sermos ombros.

Marta Antunes


Na fotografia pode ver-se Steve Jr., filho de Steve Sipek, conhecido por ter vivido décadas com tigres.
A imagem foi cedida pela família, tirada em 1970, na sua casa na Flórida.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Poema à noitinha... António Manuel Couto Viana

Dezasseis Anos, Talvez

Dezasseis anos, talvez.
Vejo-a, no café, cada manhã,
A folhear, atenta, um compêndio de inglês,
Com um perfume a Escola e a maçã.

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha
(Um velho!), num desvio de atenção,
E logo volta a folha,
Enquanto molha
o bolo no «galão».

Eu saio, com pesar, bebida a «bica».
Ela é a minha manhã,
Tão natural, tão clara... que ali fica.

- Que saudades da Escola! Que fome de maçã!

*António Manuel Couto Viana, in Café de Subúrbio

É do borogodó: A xícara de chá, reconto de lenda budista

Conta uma lenda que havia um Mosteiro no alto de uma Montanha onde vivia um Grande Mestre Zen cuja sabedoria alcançava os segredos para iluminação da mente humana.
Muitos procuravam pelo Grande Mestre, mas suas mentes não estavam preparadas para receber todo conhecimento. Eles deveriam persistir e persistir, mas isto demoraria muito e os homens não tinham tempo para dispor.

Um dia, do outro lado do continente, um homem que dedicava sua vida à busca de revelar a verdade, soube da existência do Grande Mestre Zen e resolveu procurá-lo para debater com ele os mistérios da existência humana.
O homem viajou durante dias e noites. Durante a viagem, pensava e anotava em seu caderno questões a debater; dentro de sua mente, o homem crescia em convicções e se sentia pronto para confrontar o Grande Mestre qual fosse o assunto que tratassem.
Chegando na Cidade, faltava subir a imensa montanha para chegar ao Mosteiro. Durante toda caminhada, o homem não podia anotar coisas em seu caderno, mas falava consigo em alta voz, repetindo suas máximas verdades.

Ao chegar ao Mosteiro, o próprio Grande Mestre o recebeu na porta.
- Mas que lugar é esse onde o Grande Mestre serve para atender à porta? – Perguntou o homem, indignado com a cena.
- Deve estar cansado por causa da viagem. Entre para uma xícara de chá. – Respondeu o Grande Mestre.
O homem desatou a falar tudo que sabia, mas Grande Mestre insistiu que primeiro tomariam o chá. O homem estava tão ansioso que, enquanto o Mestre colocava em suas mãos a xícara, ele falava, falava, falava.

O Grande Mestre começou a  servir o chá continuamente. O homem falando e falando, afirmando todas as suas certezas. O líquido começou a cair sobre o próprio homem, também o tapete e o assoalho já estavam molhados.
- Basta! – Disse o homem. – Não vê que está me molhando com seu chá? Que tipo de Mestre estúpido não consegue servir um chá!

Foi então que o Grande Mestre interrompeu o despejamento de chá e respondeu calmamente ao homem que lhe falava:
- Assim como essa xícara, sua mente está cheia de certezas e nada que eu possa lhe transmitir será capaz de fazer diferença para sua vida.  Agora vá embora, faça sua jornada de volta e esvazie sua xícara. Quando sua mente estiver vazia, retorne e nós conversaremos.

Penélope Martins


Caroline Nunes - o talento descoberto por Pedro Guilherme-Moreira


O poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, dito espontaneamente por Caroline Nunes, uma adolescente brasileira, num jardim de uma cidade de Minas Gerais, Poços de Caldas, depois de ter encantado o grupo de cinco portugueses e um espanhol com os seus próprios poemas, que o quis ouvir dito por nós com sotaque do português europeu. Entre nós estava Miguel Roza, o sobrinho do próprio Pessoa, que se comoveu ao ouvi-la. E nós como ele. Dito à moda de Maria Betânia, mas impreparada e sem qualquer planeamente prévio. Comove principalmente pensar no que se pode encontrar numa praça de uma cidade pequena a 8000 quilómetros de distância. O grupo de escritores era constituído por Eric Frattini, Pedro Guilherme-Moreira, Miguel Roza e Joel Neto. As protagonistas são Caroline Nunes, a dizeur a que chamámos a Sylvia Plath, e Lívia, a actriz.


*descoberto e partilhado por Pedro Guilherme-Moreira. O texto também é dele.

a-ver-livros: vulcão

Dentro de mim 
dorme o vulcão
sono sobressalto
magma ânsia
chama cinza rock

pequeno inferno
em lume branco
titã aprisionado
súplica 
em forma de pássaro
pousado nos lábios

até ao derrame
explosão
apetite saciado

Ana Almeida

* para saber sobre o pintor e vulcanólogo mexicano Gerardo Murillo,
também conhecido por Dr. Atl, sigam o link www.museoblaisten.com

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Poema à noitinha... Alberto de Lacerda

Como é Belo Seu Rosto Matutino

Como é belo seu rosto matutino
Sua plácida sombra quando anda

Lembra florestas e lembra o mar
O mar o sol a pique sobre o mar

Não tive amigo assim na minha infância
Não é isso que busco quando o vejo
Alheio como a brisa
Não busco nada
Sei apenas que passa quando passa
Seu rosto matutino
Um som de queda de água
Uma promessa inumana
Uma ilha uma ilha
Que só vento habita
E os pássaros azuis

*Alberto de Lacerda, in Exílio

Hoje o Clube faz quatro anos...


Hoje acordei sem uma ideia clara do que dizer ou exprimir perante mais um aniversário. Ainda pensei recorrer a filosofias passadas ou pensamentos tidos nas últimas comemorações, mas achei melhor pousar de lado. É que o que sinto hoje é diferente das aventuras que me fizeram lançar este espaço, as pessoas também foram entrando e saindo, há rubricas que passaram e outras que deram início há um par de semanas.

E são estes pensamentos que me deixam super tranquilo. De repente constato que isto cresceu, passo em revista as dezenas de pessoas que me deram os parabéns, que conheci, que (con)vivi, que me comoveram, que emprestaram o seu tempo a comentar, que levaram palavras daqui consigo. Do trabalho louco que é estar à frente deste blog, do ter que me desdobrar em vários para responder a esta pessoa, àquele comentário, àquela proposta, àquela dúvida... E como há "poucos" que por escassas vezes me tiram do sério - também os há, nada de ilusões.

Penso no bom que seria tirar umas férias. Ou se me recusasse a publicar depois de um dia mais cheio no trabalho. Ou até se não contrariasse os dias tristes para levar alguma coisa à casa das pessoas... E como talvez fosse saudável fazê-lo. Porque não fazê-lo? Tenho saudades de algumas coisas, tenho saudades de fechar o computador por vários dias e não dar nada ao mundo!

Mas o blog já não sou eu. Sou eu e o outro. Os outros que estiveram comigo. E os que estão. E todos juntos fazemos uma grande comunidade, como não há igual. Tudo isso é um grande motivo de orgulho, de celebrações atrás de celebrações. De algum sacrifício, trabalho e muita dedicação. Muitas e muitas horas lendo, muitas horas de pesquisa, muitas horas a escrever...

Dancemos! É isso que me apetece agora. Dancemos neste e em muitos mais aniversários. Porque valerá sempre a pena fazermos caminhos juntos.

Parabéns Clube de Leitores!

Rodrigo Ferrão 

Foto frase do dia: Mario Benedetti


a-ver-livros: arrumações

Arruma aí 
os romances de cordel
no sexto galho
a contar da pêra
e vê se ainda cabem
os hemingways 
no tronco do meio
onde o gaio canta 
entre bicadas no pomo

Os saramagos vão
para os ramos altos
se faz favor
que os quero solares 
e intensos
maduros
e deixa no chão
onde as folhas hão-de tombar
um cantinho para germinar
os ainda 
por escrever

Ana Almeida


* para saber mais sobre Lim Heng Swee
siga o link /www.ilovedoodle.com/

domingo, 4 de maio de 2014

Poema à noitinha... Marly de Oliveira

Pousa em Mim os Teus Olhos Vagarosos

Pousa em mim os teus olhos vagarosos,
sobre o meu dorso livre, água tranquila,
deslizando comigo até o nada.
Que se sabe da vida?

Nada há que se compare ao grande susto
do mútuo descobrir-se e de sua dor.
Vivamos a verdade deste sonho.
Que se sabe do amor?

*Marly de Oliveira in A Vida Natural

Parabéns às vencedoras do concurso «4 anos do Clube de Leitores»!

P.V.P.: 15,90 € 
Data de Edição: 2014
Nº de Páginas: 264
Editora: Editorial Presença

Parabéns Barbara Tomé, Sara Maia e Helena Ribeiro. Cada uma destas concorrentes vai levar para casa os livros Uma história de amor eterno - de Sebastian Cole e Guia para um final feliz, de Matthew Quick  - uma cortesia da Editorial Presença.

O que têm que fazer agora? Contactar o blog para sabermos a vossa morada! Procurem-nos no facebook (na página ou no grupoou enviem email para: blogueclubedeleitores@gmail.com

O que se pedia era relativamente simples, responder à seguinte questão -  Se fosse um livro, qual gostaria de ser?

E estas são as frases vencedoras, com grande mérito. Parabéns!

~~__~~

Bárbara Tomé 
Gostaria de ser um livro que ao passar de mão em mão fosse incluindo as histórias de quem o fosse lendo.

Helena Ribeiro
Sem duvida, "A insustentável leveza do ser". Pelo cenário, pela cidade, pela trama de amores e desamores numa cidade mágica, num tempo que parece tão longínquo, mas ao mesmo tempo tão recente. Pela maneira como se pode apostar uma vida na mera possibilidade de se encontrar um grande amor. Kundera, sempre Kundera!

Sofia Maia
Se eu fosse um livro gostava de ser como o "O conto da Ilha Desconhecida" de José Saramago, pois assim, deixaria um sorriso na face de quem o lê, e uma brisa de respostas a questões que nos colocamos todos os dias.

P.V.P.: 16,60 € 
Data de Edição: 2013
Nº de Páginas: 288
Editora: Editorial Presença

*O vencedor terá que enviar-nos a sua morada. Em caso de não o fizer, o Clube atribuirá o pack a outro(a) finalista. Fique atento!
Porque Mãe rima com poesia

“(…) elas são as Mães.
(…) Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz.”

Excerto do texto de Eugénio de Andrade, As Mães


Ackvile Magicdust, Skin


E com magia:

Gosto da minha mãe porque ela é linda, também é fofa, é quentinha.
Gosto da minha mãe porque fazemos gargalhadas, jogamos à bola e a mãe dá-me beijinhos e gostamos dos abraços um do outro.
Gosto da minha mãe porque a minha mãe compra-me histórias e traz para minha casa muitas histórias.
Gosto da minha mãe porque a mãe é minha amiga, brinca comigo, corre comigo, lavamos os dentes juntas e ficamos nas mesmas cadeiras.
Gosto da minha mãe porque é a minha mãe.
(Respostas de crianças de 5 anos)

Emílio Miranda, dia 21

Fica bem dedicares um poema a uma pessoa importante
Mesmo que não te conheça
Sobretudo se não te conhecer
É uma boa forma de te apresentares
Se tiveres arte. Um poema dedicado é um passou bem
Um aperto de mão caloroso e sorridente
Mas, confessemos, um oportunismo inconveniente!

Fica bem dizer certas coisas; fica mal não as dizer…
A igualdade entre todos os homens
É uma presunção agradável
De que muitos discordam
Com razão! Códigos genéticos são um erro crasso:
É igual, a mão que mata,
À que convida
E o braço que abraça
Ao que empurra,
Mas não o desejo e a vontade!

Emílio Miranda 

Foto: Cláudia Miranda