quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Crónica tripeira de Lisboa: os ares do campo e a cidade lazer

Porto » Lisboa » Santo Estêvão, 
27 | 28 | 29 de Outubro



Apanhar boleias pelo Facebook, sites ou até grupos de WhatsApp é relativamente normal para quem faz várias vezes a estrada entre Porto e Lisboa. Esta sexta-feira não é excepção e já tenho a minha viagem marcada, encontro com o desconhecido na estação de Campanhã.

Nestas dinâmicas também já assumi a condução. Não é algo que o faça com muita regularidade, pois o meu Clio não vai para novo. Num Santo António já me avariou, e tive que trazer as boleias num automóvel pago pelo seguro, na volta. Normalmente só o uso quando tenho mesmo que encaixar Lisboa a outro destino qualquer.

Assim aconteceu há pouco tempo, quando, no mesmo dia, tive dois casamentos no Ribatejo. E isso tem muito a ver com a crónica de hoje, pois vou regressar à Mata do Duque, Santo Estêvão. Mas já lá vamos!

Interessa contar 2 episódios de boleias que dei. No primeiro, acordei transportar uma pessoa através de um site. Ia com outras pessoas, um amigo meu inclusive. Este homem pareceu-me uma pessoa interessada: não exigiu que o fosse buscar a lado algum, apareceu à hora marcada e cumpriu com o pagamento. Só tinha um senão: ia completamente bêbado. Por momentos achámos (eu e os restantes), que nos ia abandonar na bomba de serviço. Mas não, ele contou-nos histórias do infinito e mais além, um mundo que dificilmente conseguiríamos alcançar naqueles quilómetros que partilhámos. 

O segundo episódio, talvez mais épico ainda: aceitei dar boleia a três desconhecidas e a um amigo. Mas duas eram mãe e filha, a criança tinha uns 7 anos. Tudo corria bem até que, do nada, o meu carro deu sinal que não tinha água. Encostei-o na área de serviço da Mealhada, saio para ver o que se passa. Mal abro o capô, vejo uma enorme mancha e não está lá a vareta que tapa a saída do óleo. 

Viro-me para o meu amigo e digo: "não stresses, não digas nada, vem comigo". Entrámos na área de serviço e pergunto ao homem se é normal a vareta saltar. Ele diz-me que é impossível, que isso não acontece. Volto ao carro, tentando perceber o que fazer. 

Passou-me várias vezes pela cabeça que ia ficar numa área de serviço, com 3 desconhecidas (entre elas uma criança) e o meu amigo. Mas, descontraidamente, enchi o carro com água e virei-me para ele e disse: "não entres em pânico, vou ali ver se arranjo qualquer coisa e tapo isto - vamos ter que chegar a Lisboa."

Vejo um arbusto, retiro um pau. Encontro uma prata no chão, de um maço de cigarros, e enrolo-a. Dirijo-me ao carro, olho para o cano e simplesmente espeto o pau lá dentro, com a prata. O meu confidente olha-me com alguma estupefacção e, admirado com os meus recentes dotes de MacGyver, disfarça quando lhe digo: "está calado, temos que chegar ao destino."

A viagem rolou normalmente, como se nada tivesse passado. Nesse dia chegámos a Lisboa, tal como hoje. Sou conduzido por uma professora da Póvoa de Varzim. O carro atrasou, estava um trânsito infernal no Porto e a nossa última boleia teve que vir ao nosso alcance, de metro.

A viagem é feita de conversas profundas, toda a gente põe algo de si. Nem sempre se encontram pessoas interessantes, mas, se pensarmos bem, ir de carro é sempre um convite para conversar um pouco. E isso ajuda o tempo a passar.

Chegado a Lisboa, contas feitas, abandonado na Basílica da Estrela, sigo para a Buenos Aires. Lá me espera o jantar, já toda a gente chegou e bebem uns copos. Estão pessoas que frequentam os mesmos espaços, mas, na minha história de vida, surgiram em tempos e situações diferentes. 

Dedico-me mais a matar saudades e a aprofundar conversas. Existem pessoas novas, conheço-as naquilo que posso e que o tempo permite. O jantar evolui sempre muito rápido e lá descem os conquistadores ao Zé Tó, no Cais do Sodré. Já começa a ser hábito ir fechar o estaminé, é quase um trajecto sagrado.

Hoje alguns rapazes e raparigas entram na dicoteca Lust. Dança-se, dança-se mais, canta-se e os olhos acompanham as luzinhas. Perdemo-nos, encontramo-nos, o drama de partir o grupo ameaça e esconde-se a todo o momento. A sorte da noite mede-se mais ou menos assim. 

Saímos já cansados, todos, com os sons bem martelados na cabeça. No meu caso, já só me interessa dormir. Viver la vida loca é muito bonito, mas todas estas viagens saem-me do corpo. Táxi até casa, contar até dez e adormecer. 



Acordo relativamente cedo para quem viveu a noite anterior mais do que o que devia. Estou bem disposto, hoje vamos ao campo.

Aparecem para nos apanhar, já a meio da tarde, e depois de já ter passado de um sofá para uma cama. Seguimos cinco para Santo Estêvão, Ribatejo profundo.  

A festa de anos é de bons amigos, habituados a fazer bem as coisas e a receber principescamente. Ali juntam-se gerações de pais, filhos, amigos e crianças. A conversa que hoje procuro é com os mais velhos, sobretudo sobre as memórias dos tempos da juventude deles, em Lisboa. Mas também as aventuras de quem, como eu, já viveu no Porto. Assim se percebem os tempos, as raízes, as nossas famílias. 

A pista anima, um DJ português nascido no Reino Unido passa o som. As pessoas usam máscaras, perucas e outros acessórios que sobraram do casamento que quase todos nós vivemos ali no mesmo local, uns meses antes. 

Tiro uma fotografia na casa-de-banho, para a posteridade - "Lembre-se que estamos no campo." Esse é o sentimento que nos faz esquecer a cidade e que me fica nesta noite gravado.

A hora muda e isso faz com que todos ganhem uma nova energia. Largados uma vez mais no Cais do Sodré, junto dois a mais um grupo de perdidos que entretanto se cruza com o nosso bando. A noite não foi mais do que dar umas voltas, celebrar um momento mais no calendário desta cidade, já a lua ia alta. 

Eu e um amigo partilhámos um táxi na volta. Mas antes ainda comemos um hambúrguer, mesmo ali ao pé do Tejo. Falámos um pouco do fim-de-semana, do que cada um leva. 



O sol ilumina a residência e hoje vou almoçar a casa de duas primas e de uma amiga (que não está). Saio lento, óculos escuros aplicados. Cumpro o ritual de croquete e café na Cristal, ignorando as "Tias" de Lisboa. Passo pela Taberna dos novos Tempos, dos bitoques (prego no prato, assim diria no meu Porto) que a Patrícia nos dá à noite, quando decidimos ir lá. 

Entro no meu jardim preferido de Lisboa, o da Estrela. As crianças brincam, as pessoas respiram ar puro, os patos passam alinhados até ao lago, só se vê sorrisos. Sim, aquilo podia ser o Céu ou a personificação do Paraíso, numa ordem cósmica perfeita e muito ajustada, uma confraternização pura. 



Apanho uma amiga minha no Pingo Doce, o do Rato. Comprámos uma entrada e uma sobremesa, depois do café tomado. Ela insiste em apanhar um táxi, temos como destino o Terreiro do Paço. Vou resistindo, vou resistindo; mas ela ganha. Conseguimos um, metros abaixo, descemos até ao destino.

A casa das minhas primas é lá bem no alto, vários lances de escada. A entrada é um pouco sinistra - qualquer comparação com um beco escuro da Idade Média não será certamente exagero. As escadas rangem e nós vamos ficando sem ar. Mas, já no destino, as meninas abraçam-nos e recebem-nos com o melhor sorriso do mundo.

Estas construções são frágeis, cheias de acrescentos bem engenhados por um qualquer portuga desenrascado. Assim é a casa-de-banho, um corredor cheio de pequenas janelas até ao local propriamente dito. Mas depois os olhos cedem perante o casario encavalitado de Lisboa, com a Sé a espreitar, lá ao fundo. 



Do lado oposto, temos o Terreiro do Paço, imponente expressão da Lisboa reconstruída após o terramoto. O almoço vai tomando o seu rumo, entre risadas longas e conversas sobre a vida na capital, os projectos e sonhos de cada um. 

Descemos até ao café cá baixo. Enquanto pedem o meu, resolvo ir à Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha. Com uma brilhante porta Manuelina, destaca-se naquela rua, escondida na sombra alta dos antigos ministérios. 

A Igreja foi reconstruída depois do terramoto, substituindo a primeira Misericórdia do país. O interior denota o estilo Pombalino, decorado com azulejos e estuque trabalhado. O tecto é um verdadeiro acontecimento, registo isso numa fotografia.



Eu e a prima (que sobrevive ao grupo) subimos ao Chiado, rumo ao Largo do Carmo. Cheio de gente, nem parece Domingo. Lisboa celebra o último dia de descanso assim, na rua. Talvez isso no Porto seja diferente, mais caseiro. Aqui vive-se o sol, bebe-se uma cerveja - tudo finge que amanhã não é segunda. Abraço esta ideia, ignorando que ainda faltam trezentos quilómetros até ao meu Norte.

Vamos ao Topo Chiado (primeira foto, acima) e derretemos a tarde à conversa. Sigo pelo Camões, passo a Assembleia e noto que a noite já me abraça. A hora mudou, penso. 

Descarto uma boleia antes de ir apanhar a mala a casa - uma casa não minha, mas que funciona como porto seguro, de onde avisto todas as aventuras que a cidade me esconde. Memórias que insisto viver.

Texto e fotos: Rodrigo Ferrão

terça-feira, 14 de novembro de 2017

pisaremos as jabuticabas

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Adão segura duas folhas - Carla Diacov


não pisaremos as fronteiras
amor dos ombros meus
pisaremos ladeiras clarinetes e balas de goma
mas não as fronteiras
dê cá tua palma esquerda
não pisaremos aqui e nem aqui
não pisaremos o pescoço
mas pisaremos o dorso
nunca a virilha
mas as pernas
dê cá tua blusa
dê cá tua casa
dê cá teu idioma
dê cá tuas paixões
não pisaremos as páginas mas pisaremos os números
amor dos ombros meus
pisaremos as armadilhas o sexo das sombras
a explosão roxa das jabuticabas
sentimentais
pisaremos as jabuticabas
descalços
as jabuticabas




- Carla Diacov, poeta e artista visual. 

* Conheça mais sobre a poeta: https://doudacorreriablog.wordpress.com/tag/carla-diacov/

  e sobre a artista - https://www.instagram.com/diacovcarla/

** este post integra a série assinada por Penélope Martins, do Brasil para Portugal, sob rubrica é do borogodó!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

o poema e a poeta

A imagem pode conter: texto

No Brasil, lendo para a ponte, com o Clube de Leitores, a poeta portuguesa, Adília Lopes; eu que sou brasileira e portuguesa de nascença.

É do borogodó a poesia e nossa mátria, a língua portuguesa.

Penélope Martins

terça-feira, 31 de outubro de 2017

detraquê




* Cora Coralina no dizer inzoneiro com Penélope Martins para firmar a ponte Brasil - Portugal, é do borogodó! Um vídeo produzido por Sérgio Silva para a página de leitura #mulheresqueleemmulheres - que convida leitoras mulheres a lerem suas autoras favoritas ampliando a discussão sobre o protagonismo feminino nas artes e nas ciências. 


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Crónica tripeira de Lisboa: dias felizes e depois o fogo

Porto » Lisboa,
12 | 13 | 14 de Outubro

Logísticas à sexta-feira: sair do Porto implica sempre um golpe de sorte, uma ténue linha entre o que pode ser uma viagem tranquila e a rápida transformação numa carga de lenha - a transportar às costas, depois de uma semana inteira de trabalho.

Sair do emprego a horas, mala já preparada.
Trânsito da cidade - especiais notas para a VCI e ponte da Arrábida.
Apanhar boleias.
As pessoas serem pontuais, no local combinado.
O carro ter o depósito cheio.
Não apanhar trânsito à chegada de Lisboa.
O condutor deixar-nos num sítio central.


Neste fim-de-semana sabia que não ia ver muitos dos meus habituais. É pura coincidência estar um vazio de amigos na cidade, mas vi nisso uma oportunidade de dias mais calmos. É imperativo passear, é obrigatório encontrar pessoas que nos são especiais e voltar ao ponto de conversa anterior, como se tivéssemos estado juntos ontem mesmo.

Saio rumo à capital com essa consciência, num carro a três. O tempo é passado a desbobinar a minha vida recente; nessa arte consigo ser exímio quando me encontro inspirado. As músicas rolam, entre as mais recentes baladas sul-americanas descobertas pelo condutor.

Depois de fazermos um pequeno pit-stop na casa onde eles ficam, seguimos para o XL, na Calçada da Estrela. Aí ficámos dois e, de cerveja na mão, corro o menu a ver o que há. Depois de uma entrada, escolho um bife com um molho supersónico, o meu amigo vai para outro, mais rústico.

Ambos bem servidos, cheios e satisfeitos, garrafa de vinho traçada. A conversa desdobra-se em mil sonhos, mil diagnósticos e prognósticos, algumas conclusões e (in)certezas. E nisto chega a minha prima, o namorado e o amigo que me vai acolher esta noite em sua casa.

O grupo desfaz-se e partimos três para pousar a mala. A dificuldade em estacionar começa a fazer comichão. Depois de mil voltas na Lapa, conseguimos abandonar a viatura no local possível, de legalidade duvidosa. É só o tempo de deixar as trouxas e partir. O rumo habitual é o Zé Tó, na zona do Cais do Sodré. Uber a chegar, siga.

Este café vira uma mega bica de cerveja à noite e é mesmo isso: não mais do que um sítio para uns finos (sim, não me vendo ao conceito de 'imperial'). É lá que qualquer perdido encontra alguém e, ritual que se repete, assim é comigo - o grupo aumenta sempre, concluo.

A noite não é para levar até tarde. Já com muitas despedidas feitas e algumas pessoas perdidas, abandonámos o local a pé. Eu e o meu amigo pomos a conversa em dia, caminhámos até à sua casa. Cais do Sodré, Santos, subir pela Estrela e finalmente Lapa. Transformámos uma curta viagem de táxi em meia-hora de passo lento.

Acordar na Lapa e não ir à Cristal é quase pecado. Que o digam as tias: figuras míticas do imaginário português, de certas zonas do Porto e Lisboa. A revista ¡HOLA! é a mais presente nas mesas das senhoras de cabelo armado, os senhores apostam no Expresso. Lá vejo a Helena Sacadura Cabral, uma habitué desta rua.

Ignoro-as copiosamente, estou mais focado no café (recuso usar o termo 'bica', mas também parece disparate aplicar ali um 'cimbalino') e nos croquetes. Este é o manjar possível quando a manhã vai longa - a dose certa de energia para me fazer à estrada.

Caminho a passo largo pelo jardim da Estrela, há muito que quero ir à Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, mesmo ali ao lado do Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras, que ainda não conheço. Depois de cruzar o Rato, subo até lá cima e dou uma volta ao jardim, zona por explorar. Potencial não falta: o aqueduto, a maravilhosa capela de Nossa Senhora de Monserrate, encaixada num dos seus arcos. Tudo sítios de uma singela harmonia.


A colecção do museu impressiona-me, anoto nomes. Podia passar horas a falar de tudo o que vi, mas hoje deixo apenas uma referência: Susumu Shingu. Toda a obra de Arpád Szenes e Vieira da Silva é apaixonante, isso já sabia. Mas o museu dá-nos muitos mais artistas, trabalha o nosso imaginário de uma forma difícil de expressar. Só vendo.

Shingu foi o nome que trouxe para casa. Talvez por sair completamente fora daquilo que já vi ou pensei sequer ser objecto de arte. Como não imaginar um futuro em harmonia com a natureza? Talvez eu seja um pessimista crónico e este japonês um visionário!


Desço ao Príncipe Real, hoje é dia de feira e mercado biológico. Observo o corrupio de gente, antes de decidir parar num café de esquina, onde mato uma sande de panado. O meu próximo destino é o Convento dos Cardaes.

Uma voluntária chega para me cobrar os 5 euros do bilhete e me prometer uma visita guiada. E que bem valeu a curta espera, o Convento e a Igreja são absolutamente imperdíveis, um dos sítios mais surpreendentes que Lisboa guarda.

Fundado por Luísa de Távora para alojar religiosas da Ordem das Carmelitas Descalças, o quinto desta ordem em Portugal, todo o espaço é arte. A pedra do túmulo da fundadora está intocada, mesmo depois de movido o processo dos Távoras, por Dom José e o Marquês de Pombal, já no século XVIII. Na verdade, todos os brasões desta família foram picados e destruídos no reino, mas não se sabia que Luísa estava sepultada neste convento, porque estamos dentro de uma ordem de clausura.


Aqui contemplei o estilo maioritariamente barroco da Igreja, mesmo que tenha alguma pintura maneirista. A senhora explicou-me a diferença surpreendente entre os azulejos holandeses da capela (que destacam mais o branco do que o cobalto, com menos preenchimento do espaço) dos azulejos portugueses. A arte da azulejaria portuguesa, posterior, usa mais o cobalto que o branco e ocupa o espaço. Isso é bem visível aqui, um bom exemplo de comparação.

Vejo as colecções que as freiras (geralmente senhoras da nobreza que se convertiam) trouxeram como dote, a riqueza da colecção é formidável. Surpreendente a organização do refeitório, com as mesas próximas das paredes e um grande corredor central. Por fim, os pátios interiores a fazer lembrar alguma influência árabe, com árvores de fruto e água a correr para o centro.

Desço ao Chiado, encontro agora uma amiga. Parámos na Kaffeehaus e gastámos toda a conversa que a distância não consegue resolver e pôr em dia. Passadas umas horas, vamos lentamente em direcção à Assembleia, subindo novamente à Lapa.

De volta a casa, está na hora de ir ao supermercado e organizar o jantar. Duas pessoas trouxeram amigos, alguns trazem cerveja e vinho, umas sobremesas e, de repente, somos dezasseis. Nestes encontros aleatórios aparece sempre alguém que conhecemos de outras bandas e, surpresa minha, o sobrinho de uma professora amiga, de Sacavém, entra em casa com uma guitarra à mão. Ele e o amigo vão-nos dar música, mal o jantar de alho francês à brás termina.

Conversa puxa conversa, risadas altas, alguns pontos de ruído espalhados pela casa. O sarau dura até à última gota de vinho branco e até à última mini guardada no frigorífico.

O destino é novamente o Zé Tó, no cais: a história repete-se. Fazem uma Insta story de mim e publicam, enquanto estou distraído. Só no dia seguinte percebo que me transformaram em coelho.

A noite estica um pouco mais, terminámos num bar da rua cor-de-rosa. Mas a vontade de voltar a casa é maior e seguimos quatro num táxi.

Enquanto a massa de atum se auto-cozinha, vamos tendo conversas metafísicas, mega profundas, com o seu toque espiritual. Durante a cena cinematográfica, o telemóvel passa música, um corpo jaz no sofá, três mosqueteiros aguardam o pitéu. Cenário ajustado para os primeiros raios de sol, assim se cumpre.

Metade do grupo acaba por ir embora e eu, cheio de sono, deito-me por volta das 6.

Domingo arruma-se rápido, há sempre pressa para planear a volta. Desço à Cristal, hoje troco o café por um sumo e aposto em dois croquetes. Já em casa, voltámos a sair para o supermercado. Cozinhámos um belo bife de atum, começámos a preparar as coisas para partir.

Passam algumas horas, aparece um primo num lusco-fusco, para um abraço. Depois apanham-me na Estrela.

Na despedida prometo voltar, como sempre.

Autoestrada rumo a norte e somos obrigados a sair. Já tínhamos passado por um incêndio, mas sabíamos que havia muitos mais. Sem perceber totalmente a dimensão de tudo, mas entendendo a gravidade da situação, chego mais tarde do que habitual ao Porto.

E é então que consigo começar a processar aquilo que vivi. Deixo uma nota no Facebook, no dia seguinte:

Ontem fiquei assustado com a ideia de me desviar de uma autoestrada, sair para a Nacional 1 e ver tudo parado. Perceber que ao fundo havia mais fogos. Acho que perdi a conta por quantos passámos, a certa altura parecia o Inferno de Dante, um clima de bafo apocalíptico.

Parados na saída da Pampilhosa, cortar por estradas secundárias, passar pela Mealhada e ver trânsito de hora de ponta de uma grande cidade. O GPS enviar-nos para Cantanhede, outro incêndio. Passar pela A17 e perceber hoje que há um vídeo que mostra um condutor cercado de chamas em Vagos, por onde passámos antes.

A minha viagem esticada nunca foi de pânico, mas sentia-se um nervoso. O volume de carros era impressionante. Hoje acordei e pensei que atiçar mais uns quantos fogos, ali perto da estrada, podia significar uma tragédia de proporções nunca vistas. A juntar à tragédia que me parece que já estamos a assistir.

Pensar que grande parte destes mortos são pessoas que nunca tiveram nada, que trabalharam uma vida toda. Pensar também nas pessoas que assistiram e sobreviveram: perderam tudo. Sentir que vão ter que ter coragem para continuar.

Tudo isto me dói.

A minha irmã está sem comunicações a espaços, ontem chegou a casa e tinha um manto de cinza na mesa da varanda. Um amigo meu não sabia se ia ficar sem a sua casa de família.

São tantas e tantas histórias nossas a juntar às que nunca saberemos.

Estes são os nossos atentados, basta destes terroristas. É preciso haver responsáveis, é preciso deixar de se assobiar para canto. O mundo e o nosso país continuam a ter mais calor. Não vamos mudar estas notícias se não começarmos nós próprios a mudar alguma coisa.

Texto e fotos: Rodrigo Ferrão

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Cântico dos Cânticos

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" Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales. 
Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha amada entre as filhas.
Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento, e o seu fruto é doce ao meu paladar.
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Levou-me à sala do banquete, e o seu estandarte sobre mim era o amor.
Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor.
A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas corças e cervas do campo, que não acordeis nem desperteis o meu amor, até que ele o queira."
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* Texto: versículos do capítulo 2, Cânticos de Salomão.
** Imagens do Livro O Cântico dos Cânticos, de Angela Lago. 
Essa grande artista brasileira,  em Belo Horizonte (Minas Gerais),  manteve dedicação imensa para produzir narrativas para crianças, com produção de textos e imagens. Seus experimentos com o livro não cessaram durante toda sua carreira, incluindo uma exploração ampla dos recursos digitais. Seu talento foi e é reconhecido dentro do território brasileiro e em outros países. Pessoalmente, Angela Lago combinava inteligência com elegância numa delicadeza que nada tinha de permissiva, uma vez que era uma mulher atuante na manifestação de seu pensamento filosófico e político. No domingo passado, Angela partiu desse mundo deixando amigos e admiradores com saudades pra sempre.





quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eu poético: As lágrimas

AS LÁGRIMAS

Naquele dia de manhã
soltas as amarras dos lençóis,
chegas à janela e sentes o calor abrasador.
Esticas as pernas com força para sentir cada músculo
e avistas a cidade ainda serena, também ela a acordar devagarinho.
Pões música enquanto as torradas dançam
e o cheiro do café te entra pelo corpo adentro.
Distraído com as horas, deixas o tempo passar
porque lá fora o futuro espera sempre,
com a ingratidão fria e distante
de nunca aguardar um segundo por ti.
Ouves na rua o amolador, o som do metro cresce e trepa as paredes do quarto.
As gaivotas, num voo nervoso, furam os céus.
Consegues perceber a rotina mágica dos dias,
um a suceder ao outro sem repetir a mesma história.
Vita brevis, ars longa - o teu lugar pequeno na lógica cósmica.

E depois dizem-te que o mundo ardeu
e com ele levou homens, mulheres, crianças.
Ceifou casas, fábricas, carros e jardins.
Animais domésticos e selvagens, campos de trigo, árvores.
Esperanças e vidas de trabalho,
sonhos simples e modestos,
o pouco dinheiro de uma vida,
a subsistência,
o pão do dia-a-dia,
a fé numa outra vida melhor que esta.
A Deolinda, o Joaquim, a Dona Gertrudes,
o pequeno Samuel e a doce Helena.

Apocalipse.
Inferno de Dante.
Terra árida,
sol de cinza.
Portugal.

Tu, cidadão do trânsito,
levas um murro.
Sentes então que há dias e dias,
há imagens que ficam,
há rostos que partem.
Percebes que desaparece tudo,
que os pedaços de chão se apagam,
que o canto madrugador dos melros se silencia
e que fica mais só quem só sempre se sentiu.

Que a chuva nos lave estas memórias.
Que Deus verta, por fim, todas as lágrimas.

Rodrigo Ferrão

Foto: Jornal Público

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Eu poético: Espelho

ESPELHO

Disseste-me para ver no espelho aquilo que sou.
Vi um homem de cabelo forte, nariz grande e olheiras bem fundas.
Seguro e inseguro, carente e preenchido, completo e com lacunas, intenso e distraído, especial e banal, com certezas muito certas ou apanhado em contradição no minuto seguinte.
Ser neste manto de humanidade, simplesmente sem respostas, procurando as várias significâncias de uma vida tão rápida, tão desprovida de lógicas e onde a paz interior é um projecto futuro de alcance duvidoso.

Depois analisei quem dizes ser.
Somos um por dois, um sonho uno que não sabemos o que é.
E mesmo que isso seja uma quimera em constante mutação,
acredito no amor assim.
Talvez seja um crente sem destinos delineados,
talvez deposite em ti várias coisas que não sou,
talvez me deixe enganar pelo teu feitiço e acredite, quando penso baixinho, que és a melhor pessoa que podia ter pedido.

E mesmo que tu representes exactamente o contrário daquilo que me fazes ver,
apanhamos o barco para atravessar este rio de tormentas.
De manhã eu sou o Douro e tu o Tejo,
mas ao pôr-do-sol desaguamos no mesmo mar.

Conto-te um segredo: não quebres este espelho.
Juro-te que um dia vamos até à América.

Rodrigo Ferrão
Foto: Rodrigo Ferrão

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

António de Macedo, até sempre

Esta semana está um verdadeiro cais de partida.

Luís Andrade de Sá e Maria Helena Ferreira, jornalistas da Lusa. Fernando Diogo, do Expresso e Diário de Notícias. Foi-se também o Jorge Listopad, escritor e realizador e mais, que até fazia anos no mesmo dia que eu. E agora, assim sem aviso, partiu também o António de Macedo, cineasta e prolífico escritor, apaixonado pela Ficção Científica e Fantástico.

Foi precisamente a FC que nos juntou. Ele um nome firmado, eu uma miúda a dar passos iniciais no jornalismo, teimando num artigo em que juntasse os vários autores nacionais de FC, um género que nos anos 90 vivia um momento extraordinário por cá. Falei com todos, entre eles o João Barreiros, o Luis Filipe Silva, a Maria de Menezes, o Tércio, o António, e a peça saiu. 

Percebi então que, apesar de navegarem as mesmas águas, alguns até na mesma editora, não se conheciam uns aos outros. Sempre tive a mania de fazer acontecer, não é de agora. E juntei-os à mesma mesa.Os jantares tornaram-se regulares, recheados de entusiasmo e projectos em grupo. 

Demos à luz a Simetria, associação dedicada à FC e ao Fantástico. E daí nasceram os Encontros que levaram à Cascais dos anos 90 tantos nomes da FC internacional. O escritor britânico Brian Aldiss foi um deles. Morreu há 15 dias.


Imagino que o Brian e o António - que me tratava sempre por "magna mater" da FC - estejam a esta hora algures lá pelo outro mundo a comentar os dias extraordinários vividos então. E "heroína", António? Um exagero teu. Talvez se tivesse conseguido manter o grupo unido quando as vidas de cada um nos afastaram. Boa viagem, meu caro.

Ana Almeida

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Adeus, Aldiss

E mais um nome relevante da literatura que se vai.
Tive o prazer de privar com Brian Aldiss em Cascais, nos idos de 96, quando o trouxemos até cá como convidado de honra dos encontros de Ficção Científica organizados pela Simetria - associação cujo nascimento se deu, imaginem, porque um dia, enquanto jornalista e entusiasta da FC, me lembrei de juntar primeiro num artigo e depois à mesma mesa, a maior parte dos escritores de FC portugueses.

Aldiss era um gentleman e senhor de uma escrita e de um humor inesquecíveis.
Hoje, na sua morte, só vos posso dizer: se nunca leram nada dele vão à caça. Vai valer a pena. 

Ana Almeida



* (sim, há algumas coisas em português, graças ao escritor João Barreiros, no seu papel de editor de várias colecções de FC)
* leiam a que creio ser a sua última entrevista aqui, ao The Telegraph, de onde 'roubartilhei' a foto, da autoria de John Lawrence.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os armários da noite, Alice Vieira

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais
e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar
sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca
e que vais voltar
para
a
devolver
- Alice Vieira -
* este poema integra o livro Os Armários da Noite. Portugal: Editora Caminho.
** em vídeo, narração de Penélope Martins.
*** este post segue sob rubrica É do Borogodó!, na ponte de leituras entre Brasil e Portugal. 



domingo, 6 de agosto de 2017

Maria Trigueira, de Ivone Gonçalves

Saiu há pouco tempo um novo livro pela Kalandraka Portugal, de Ivone Gonçalves - Maria Trigueira.

Ivone Gonçalves (Cachopo, 1984): Mudou-se para Lisboa para estudar arquitetura em 2002. Em 2007 ingressou na Universidade IUAV ao abrigo do programa Erasmus e terminou o mestrado de arquitetura na Universidade Lusíada de Lisboa. Estabeleceu-se definitivamente em Lisboa em 2010, onde fundou o atelier ForStudio Arquitectos. Foi vencedora do Prémio Matilde Rosa Araújo, em 2015, na categoria de Ilustração.


Uma menina relata a vida na aldeia - o trabalho, as colheitas, os animais, as tradições. E sonha, com as andorinhas, cruzar os céus e ir ver o mar. Esse sonho torna-se real e ela viaja.

Um livro de ilustrações das nossas aldeias, das nossas infâncias. De traços muito intimistas, carregados dos hábitos portugueses e da nossa vida no campo.



SINOPSE

Maria Trigueira nasceu na serra, cresceu junto às searas de trigo e a cuidar dos animais… Mas, por entre os montes, sempre via ao longe os barcos a navegar. E o desejo de ver o mar crescia nela. Até que um dia decidiu partir e viajar. "Maria Trigueira" de Ivone Gonçalves é um álbum intimista, cujo traçado singelo das ilustrações a uma só cor cria uma atmosfera propícia à narrativa e ao sonho da protagonista a quem empresta o nome.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

sem título


de súbito o clarão
da tua nudez colheu-me
trago a pele
de quando fomos.


Helder Magalhães


Sónia Silva

Por que contar histórias?

Eu tenho me apresentado como narradora de histórias, e algumas pessoas - aqui no Brasil - me perguntam se tem diferença com o termo 'contadora'. O conceito pouco importa se a ação de narrar histórias é algo feito com mente e coração afinados: capacidade de contar uma história, transmitir emoção e lidar com a narrativa como uma força transformadora que poderá agir em outras vidas transformando as relações humanas.

Mas, por que contamos histórias?

*

Eu sou Penélope Martins, filha de uma família portuguesa da Aldeia de Zenisio; trago no baú de histórias muitas misturas, como se faz à brasileira, e um desejo enorme de sermos mais fraternos, mais cidadãos do mundo.

Minha publicação no Clube de Leitores faz a ponte de leituras entre Brasil e Portugal, sob rubrica É do Borogodó!



terça-feira, 25 de julho de 2017

caudal


leva-me para a outra margem,
pedi
atravessas todo o meu leito,
murmuraste.


Helder Magalhães




terça-feira, 11 de julho de 2017

terça-feira, 4 de julho de 2017

auréola


fotografo flores
o teu rosto aureolado
de luz amanhece.


Helder Magalhães


Morning Glory - Imogen Cunningham

domingo, 2 de julho de 2017

A Primavera Há-de Chegar, Bandini - John Fante


Bandini entrou na minha vida de leitor e nunca mais fui o mesmo. Fante é um génio!

Neste livro, o primeiro da série "Bandini", temos três personagens centrais - Arturo Bandini, ainda criança, a sua mãe, e Svevo - o pai. O narrador principal é Arturo e é aos olhos dele que a maioria da história se desenrola. Mas também há uma grande parte da narrativa entregue ao pai e aos seus pensamentos, sobretudo quando abandona a casa.

Esta família de raízes italianas vive no Colorado e é muito pobre. A comida é um bem escasso e Svevo refugia-se na bebida para esquecer a vida madrasta. A mãe reza muito e trata da lida da casa, deixando uma conta cada vez maior no merceeiro da rua, enquanto tenta satisfazer a fome dos três filhos. Todos eles são abandonados à sua sorte, sem a certeza da hora de regresso do pai. O trabalho escasseia, as certezas são poucas.

Svevo acaba por sair de casa um dia, naquilo que parece ser um romance com uma mulher endinheirada. Num ataque de ciúmes, a mãe recusa o seu regresso. Arturo Bandini, de início, parece orgulhoso do pai ter arranjado uma amante endinheirada, mas, com o tempo, percebe que o mais importante é a família voltar a ser reunida.

Durante estes momentos conturbados, perde Rosa, a sua primeira grande paixão. Aquele ar de durão, de filho mais velho e principal vigilante da mãe, depressa cai. E volta a ser uma criança, mergulhado na tristeza de perder alguém e na necessidade de voltar a sentir os abraços de mãe.

A primavera há-de chegar um dia, Bandini. Melhores dias virão e todas as dificuldades vão ser uma mera memória.

terça-feira, 27 de junho de 2017

constelação



naquela primeira noite
fulminado da existência que irradias
logo após ires embora
um astro cruzou o céu acima dos meus olhos
as canções ancoradas no peito
nelas eras já o absoluto do fôlego.



Helder Magalhães


Marine Loup

terça-feira, 20 de junho de 2017

ascensão


então veio a noite
a ascensão pelos teus olhos
de céu coalhado.


Helder Magalhães


Ansel Adams

a vida é mais ou menos_ poesia é do borogodó,


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do pre_fácil ao fim



a vida é mais ou menos uma balança
sem pratos, não pende e nem tem
percepção do peso que carrega. a vida é curta 
como um rio que corre por dentro da terra e
não se vê a olho nu porque nossos pés
estão secos. a vida é uma casca de ovo
a embalagem onde nada se compara
ou se pode comparar
de notável perfeição. a vida hoje,
um dia após o outro, o roupão pendurado
na porta do quarto e um corpo de alguém
que não precisa de vestes.
poderia eu ser a vida na tua vida para a vida minha
ter mais vida, mas não percebemos nada
disso. por isso, bebemos
e rimos de bobagens
e somos felizes por um segundo.
se eu fosse poeta, eu me levaria mais a sério.



penélope martins -
* fotografia, curta metragem Meshes of the Afternoon, Maya Deren e Alexander Hammid, 1943.




terça-feira, 13 de junho de 2017

por mais escuta, por mais leitores



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Muitas pessoas parecem preocupadas em incentivar e formar leitores. Ficam repetindo palavras de ordem, “LEIAM”, “LEIAM MAIS”, “LER É BOM”, e eu, que sou uma leitora em processo, fico sempre me perguntando de que tipo de leitura estamos falando.
No começo do ano, estive num colégio para falar com educadores do ensino fundamental, primeiro ao nono ano, e minha proposta era discutir o plano de leitura em sala de aula a partir das considerações iniciais de cada professor, discutindo títulos selecionados e a forma que se processa a leitura desde sua escolha. Em um segundo momento, a conversa seguiria pelas dialógicas com o conteúdo dos livros lidos.
Assim que entrei na sala para a exposição de ideias, senti a disposição do espaço como um problema aparente. Tradição na disciplina corretiva, linear, arrochada, enfileirada. Mesa maior para o professor, uma distância entre os corpos.
A proposta de reconfiguração foi recusada… Era mais prático assim.
Segui querendo saber quem gostava de ler, quem lia em casa costumeiramente. Perguntei qual o livro que indicavam para as crianças com mais entusiasmo.
De cara eu me deparei com “LEIO muito para a faculdade, para a pós, para o trabalho…”, sem contar que o livro imediato da lembrança era o pequeno garoto no planetinha com a rosa e o “TU te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Fiz menção à alguns selos editoriais paulistas (para não ir muito longe) que mantêm um ativo catálogo apto ao debate. Nadinha.
Comecei, então, a flutuar pelas histórias da imaginação, pelas brincadeiras da infância, pela memória no cheiro a bolo assando na casa das avós, por tantos joelhos ralados em tombos de bicicleta, caça às pipas. Veio história, veio lágrima, veio riso.
Passamos a inventariar tudo isso como material imprescindível para lermo-nos e, a partir disso, temos material para afetar outros leitores.
Tínhamos, enfim, salvação para nossas leituras, nossas percepções sobre a relevância de provocar reflexões através dos livros que são, sobretudo, instrumentos para futuras conversas (interiores e exteriores).
A sequência da minha intervenção foi para discutir a busca da re-significação da narrativa presente na oralidade, o indivíduo nas relações que permeiam a sua existência e o envolvimento na leitura – com a presença do livro – como brinquedo do sentir.
Parecia que tudo ia muitíssimo bem até que a coordenadora veio ter comigo uma conversa estranha cobrando um plano de trabalho de práticas mais efetivas para a sala de aula, o que fazer para cada criança gostar de ler e sair devorando com apetite inquestionável os títulos que lhe são indicados – uns com mais de 30 anos de história na escola, sem a menor conexão com sua infância…
Tive que repassar tudo o que fiz, ali de pé no corredor. E ficam reverberando para sempre as perguntas: como encantar uma criança a se tornar leitora sem escutá-la, sem saber de sua história, sem brincar com ela conduzindo as narrativas desse brincar? Como pode ser bom subjugar a capacidade de escolha do outro e empurrar atividades goela abaixo para que ele se exprema dentro de si e dê somente o que a gente quer?
Eu me aproximei da leitura pelas rodas de ciranda que brincava com minha avó, mãe e primos. Aqueles cantares ainda são lidos por mim. Minha formação como leitora passa pelos almoços que levavam violão de sobremesa, por canções da música popular, por canções da tradição oral. Meu afeto com a leitura nasceu lá no ponto do tricô escutando atenta a voz da avó falando sobre pereiras, roupas no tanque, casamento, batom vermelho, massa de pão, surra, travessias longas. Só me faz sentido a leitura porque viajei na memória de meu avô muitas e muitas vezes, de terras distantes à uma época que só posso viver na imaginação.
Ler é antes de tudo saber escutar e penetrar na escuta como quem sabe o bulbo ao ver a folha.
Aos educadores eu desejo toda coragem e fé para resgate das crianças que eles foram.
Image result for penelope martins  - Meu nome é Penélope Martins, sou escritora e narradora de histórias, mantenho conexão com o Clube de Leitores a partir do Brasil para alimentar nossa ponte de leituras em língua portuguesa, sob a rubrica É do Borogodó!