segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Adeus, Aldiss

E mais um nome relevante da literatura que se vai.
Tive o prazer de privar com Brian Aldiss em Cascais, nos idos de 96, quando o trouxemos até cá como convidado de honra dos encontros de Ficção Científica organizados pela Simetria - associação cujo nascimento se deu, imaginem, porque um dia, enquanto jornalista e entusiasta da FC, me lembrei de juntar primeiro num artigo e depois à mesma mesa, a maior parte dos escritores de FC portugueses.

Aldiss era um gentleman e senhor de uma escrita e de um humor inesquecíveis.
Hoje, na sua morte, só vos posso dizer: se nunca leram nada dele vão à caça. Vai valer a pena. 

Ana Almeida



* (sim, há algumas coisas em português, graças ao escritor João Barreiros, no seu papel de editor de várias colecções de FC)
* leiam a que creio ser a sua última entrevista aqui, ao The Telegraph, de onde 'roubartilhei' a foto, da autoria de John Lawrence.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os armários da noite, Alice Vieira

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais
e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar
sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca
e que vais voltar
para
a
devolver
- Alice Vieira -
* este poema integra o livro Os Armários da Noite. Portugal: Editora Caminho.
** em vídeo, narração de Penélope Martins.
*** este post segue sob rubrica É do Borogodó!, na ponte de leituras entre Brasil e Portugal. 



domingo, 6 de agosto de 2017

Maria Trigueira, de Ivone Gonçalves

Saiu há pouco tempo um novo livro pela Kalandraka Portugal, de Ivone Gonçalves - Maria Trigueira.

Ivone Gonçalves (Cachopo, 1984): Mudou-se para Lisboa para estudar arquitetura em 2002. Em 2007 ingressou na Universidade IUAV ao abrigo do programa Erasmus e terminou o mestrado de arquitetura na Universidade Lusíada de Lisboa. Estabeleceu-se definitivamente em Lisboa em 2010, onde fundou o atelier ForStudio Arquitectos. Foi vencedora do Prémio Matilde Rosa Araújo, em 2015, na categoria de Ilustração.


Uma menina relata a vida na aldeia - o trabalho, as colheitas, os animais, as tradições. E sonha, com as andorinhas, cruzar os céus e ir ver o mar. Esse sonho torna-se real e ela viaja.

Um livro de ilustrações das nossas aldeias, das nossas infâncias. De traços muito intimistas, carregados dos hábitos portugueses e da nossa vida no campo.



SINOPSE

Maria Trigueira nasceu na serra, cresceu junto às searas de trigo e a cuidar dos animais… Mas, por entre os montes, sempre via ao longe os barcos a navegar. E o desejo de ver o mar crescia nela. Até que um dia decidiu partir e viajar. "Maria Trigueira" de Ivone Gonçalves é um álbum intimista, cujo traçado singelo das ilustrações a uma só cor cria uma atmosfera propícia à narrativa e ao sonho da protagonista a quem empresta o nome.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

sem título


de súbito o clarão
da tua nudez colheu-me
trago a pele
de quando fomos.


Helder Magalhães


Sónia Silva

Por que contar histórias?

Eu tenho me apresentado como narradora de histórias, e algumas pessoas - aqui no Brasil - me perguntam se tem diferença com o termo 'contadora'. O conceito pouco importa se a ação de narrar histórias é algo feito com mente e coração afinados: capacidade de contar uma história, transmitir emoção e lidar com a narrativa como uma força transformadora que poderá agir em outras vidas transformando as relações humanas.

Mas, por que contamos histórias?

*

Eu sou Penélope Martins, filha de uma família portuguesa da Aldeia de Zenisio; trago no baú de histórias muitas misturas, como se faz à brasileira, e um desejo enorme de sermos mais fraternos, mais cidadãos do mundo.

Minha publicação no Clube de Leitores faz a ponte de leituras entre Brasil e Portugal, sob rubrica É do Borogodó!



terça-feira, 25 de julho de 2017

caudal


leva-me para a outra margem,
pedi
atravessas todo o meu leito,
murmuraste.


Helder Magalhães




terça-feira, 11 de julho de 2017

terça-feira, 4 de julho de 2017

auréola


fotografo flores
o teu rosto aureolado
de luz amanhece.


Helder Magalhães


Morning Glory - Imogen Cunningham

domingo, 2 de julho de 2017

A Primavera Há-de Chegar, Bandini - John Fante


Bandini entrou na minha vida de leitor e nunca mais fui o mesmo. Fante é um génio!

Neste livro, o primeiro da série "Bandini", temos três personagens centrais - Arturo Bandini, ainda criança, a sua mãe, e Svevo - o pai. O narrador principal é Arturo e é aos olhos dele que a maioria da história se desenrola. Mas também há uma grande parte da narrativa entregue ao pai e aos seus pensamentos, sobretudo quando abandona a casa.

Esta família de raízes italianas vive no Colorado e é muito pobre. A comida é um bem escasso e Svevo refugia-se na bebida para esquecer a vida madrasta. A mãe reza muito e trata da lida da casa, deixando uma conta cada vez maior no merceeiro da rua, enquanto tenta satisfazer a fome dos três filhos. Todos eles são abandonados à sua sorte, sem a certeza da hora de regresso do pai. O trabalho escasseia, as certezas são poucas.

Svevo acaba por sair de casa um dia, naquilo que parece ser um romance com uma mulher endinheirada. Num ataque de ciúmes, a mãe recusa o seu regresso. Arturo Bandini, de início, parece orgulhoso do pai ter arranjado uma amante endinheirada, mas, com o tempo, percebe que o mais importante é a família voltar a ser reunida.

Durante estes momentos conturbados, perde Rosa, a sua primeira grande paixão. Aquele ar de durão, de filho mais velho e principal vigilante da mãe, depressa cai. E volta a ser uma criança, mergulhado na tristeza de perder alguém e na necessidade de voltar a sentir os abraços de mãe.

A primavera há-de chegar um dia, Bandini. Melhores dias virão e todas as dificuldades vão ser uma mera memória.

terça-feira, 27 de junho de 2017

constelação



naquela primeira noite
fulminado da existência que irradias
logo após ires embora
um astro cruzou o céu acima dos meus olhos
as canções ancoradas no peito
nelas eras já o absoluto do fôlego.



Helder Magalhães


Marine Loup

terça-feira, 20 de junho de 2017

ascensão


então veio a noite
a ascensão pelos teus olhos
de céu coalhado.


Helder Magalhães


Ansel Adams

a vida é mais ou menos_ poesia é do borogodó,


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do pre_fácil ao fim



a vida é mais ou menos uma balança
sem pratos, não pende e nem tem
percepção do peso que carrega. a vida é curta 
como um rio que corre por dentro da terra e
não se vê a olho nu porque nossos pés
estão secos. a vida é uma casca de ovo
a embalagem onde nada se compara
ou se pode comparar
de notável perfeição. a vida hoje,
um dia após o outro, o roupão pendurado
na porta do quarto e um corpo de alguém
que não precisa de vestes.
poderia eu ser a vida na tua vida para a vida minha
ter mais vida, mas não percebemos nada
disso. por isso, bebemos
e rimos de bobagens
e somos felizes por um segundo.
se eu fosse poeta, eu me levaria mais a sério.



penélope martins -
* fotografia, curta metragem Meshes of the Afternoon, Maya Deren e Alexander Hammid, 1943.




terça-feira, 13 de junho de 2017

por mais escuta, por mais leitores



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Muitas pessoas parecem preocupadas em incentivar e formar leitores. Ficam repetindo palavras de ordem, “LEIAM”, “LEIAM MAIS”, “LER É BOM”, e eu, que sou uma leitora em processo, fico sempre me perguntando de que tipo de leitura estamos falando.
No começo do ano, estive num colégio para falar com educadores do ensino fundamental, primeiro ao nono ano, e minha proposta era discutir o plano de leitura em sala de aula a partir das considerações iniciais de cada professor, discutindo títulos selecionados e a forma que se processa a leitura desde sua escolha. Em um segundo momento, a conversa seguiria pelas dialógicas com o conteúdo dos livros lidos.
Assim que entrei na sala para a exposição de ideias, senti a disposição do espaço como um problema aparente. Tradição na disciplina corretiva, linear, arrochada, enfileirada. Mesa maior para o professor, uma distância entre os corpos.
A proposta de reconfiguração foi recusada… Era mais prático assim.
Segui querendo saber quem gostava de ler, quem lia em casa costumeiramente. Perguntei qual o livro que indicavam para as crianças com mais entusiasmo.
De cara eu me deparei com “LEIO muito para a faculdade, para a pós, para o trabalho…”, sem contar que o livro imediato da lembrança era o pequeno garoto no planetinha com a rosa e o “TU te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Fiz menção à alguns selos editoriais paulistas (para não ir muito longe) que mantêm um ativo catálogo apto ao debate. Nadinha.
Comecei, então, a flutuar pelas histórias da imaginação, pelas brincadeiras da infância, pela memória no cheiro a bolo assando na casa das avós, por tantos joelhos ralados em tombos de bicicleta, caça às pipas. Veio história, veio lágrima, veio riso.
Passamos a inventariar tudo isso como material imprescindível para lermo-nos e, a partir disso, temos material para afetar outros leitores.
Tínhamos, enfim, salvação para nossas leituras, nossas percepções sobre a relevância de provocar reflexões através dos livros que são, sobretudo, instrumentos para futuras conversas (interiores e exteriores).
A sequência da minha intervenção foi para discutir a busca da re-significação da narrativa presente na oralidade, o indivíduo nas relações que permeiam a sua existência e o envolvimento na leitura – com a presença do livro – como brinquedo do sentir.
Parecia que tudo ia muitíssimo bem até que a coordenadora veio ter comigo uma conversa estranha cobrando um plano de trabalho de práticas mais efetivas para a sala de aula, o que fazer para cada criança gostar de ler e sair devorando com apetite inquestionável os títulos que lhe são indicados – uns com mais de 30 anos de história na escola, sem a menor conexão com sua infância…
Tive que repassar tudo o que fiz, ali de pé no corredor. E ficam reverberando para sempre as perguntas: como encantar uma criança a se tornar leitora sem escutá-la, sem saber de sua história, sem brincar com ela conduzindo as narrativas desse brincar? Como pode ser bom subjugar a capacidade de escolha do outro e empurrar atividades goela abaixo para que ele se exprema dentro de si e dê somente o que a gente quer?
Eu me aproximei da leitura pelas rodas de ciranda que brincava com minha avó, mãe e primos. Aqueles cantares ainda são lidos por mim. Minha formação como leitora passa pelos almoços que levavam violão de sobremesa, por canções da música popular, por canções da tradição oral. Meu afeto com a leitura nasceu lá no ponto do tricô escutando atenta a voz da avó falando sobre pereiras, roupas no tanque, casamento, batom vermelho, massa de pão, surra, travessias longas. Só me faz sentido a leitura porque viajei na memória de meu avô muitas e muitas vezes, de terras distantes à uma época que só posso viver na imaginação.
Ler é antes de tudo saber escutar e penetrar na escuta como quem sabe o bulbo ao ver a folha.
Aos educadores eu desejo toda coragem e fé para resgate das crianças que eles foram.
Image result for penelope martins  - Meu nome é Penélope Martins, sou escritora e narradora de histórias, mantenho conexão com o Clube de Leitores a partir do Brasil para alimentar nossa ponte de leituras em língua portuguesa, sob a rubrica É do Borogodó!

terça-feira, 6 de junho de 2017

etérea


em torno de ti
cintilam constelações
és a noite etérea.


Helder Magalhães


Marine Loup

terça-feira, 30 de maio de 2017

mão


pegando na tua mão
os dedos tecem auréolas
como feixes de sol
numa manhã de nevoeiro


Helder Magalhães




sábado, 27 de maio de 2017

Primeiro parágrafo: «A Serpente do Essex», Sarah Perry

Um jovem caminha ao longo das margens do Blackwater à luz fria do luar. Bebera o ano que findava até às borras, até ficar com os olhos a arder e o estômago às voltas, e estava cansado das luzes e do ruído.
- Vou ali a baixo até à água - disse, e beijou o rosto mais próximo. - Volto antes das badaladas.
Olha na direção de oriente, da maré a mudar, do estuário lento e negro, das gaivotas que brilham sobre as vagas.


P.V.P.: 19.90
Data de Edição: 2017
Nº de Páginas: 392
Editora: Minotauro

terça-feira, 23 de maio de 2017

bica


mesmo o calor veio mais cedo
bem o vejo aqui imóvel à sombra
às vezes um súbito rumor
uma aragem cruzando o vale
evoco o frescor do teu nome
lábios abertos para a bica
e logo a sede dos salpicos
se funde em círculos
como dedos afogados à pele.


Helder Magalhães




terça-feira, 16 de maio de 2017

naquela tarde



I.
naquela tarde ela disse que me amava. ela sentou na poltrona, acendeu um cigarro, lia um livro que não sei e foi por cima das páginas que eu ignorava que ela me olhou para piscar e dizer. ela disse assim, descomprometida das consequências: ‘eu te amo, tanto’. depois fez uma pausa, enxugou uma lágrima. tive pena de mim. aquilo doeu como uma abelha fustigando o centro do peito. fui incapaz de responder. meus olhos passeavam por ela como os olhos do menino que fita a folha de papel de seda no ar, um pássaro. depois daquilo, balançando o pé no ar com a perna cruzada, ela terminou a leitura e se fez ausência. o cigarro terminou, a luz do sol tingiu os restos da fumaça de lilás.
II.

choveu o dia seguinte, o outro também. o papel de seda encharcou entre as nuvens do meu querer. envergaram os meus ombros. sufoquei a ilusão com um duro golpe. ela ligou, eu não respondi. ela escreveu, eu não li. ela chamou por mim e eu deixei que ela se fosse, aos poucos, sumindo, desintegrando, desfazendo aquele mal. aos poucos ela desistiria de insistir e eu teria que desistir na desistência dela. por aqueles dias corri ver meu time. convidei alguém para minha cama sofrendo não aspirar naquele novo corpo o mesmo perfume que desenhava minhas utopias. engoli a saudade a palo seco. a palo seco foi a expressão que ela usou quando disse que me diria aquilo que disse numa tarde, sentada na poltrona que resta vazia entre as brumas do meu silêncio.


- Penélope Martins - 

* na ponte de afetos que aproxima leitores daqui do Brasil com os de lá ou daí de Portugal... com rubrica 'é do borogodó!', algo pra lá de batucada.

terça-feira, 9 de maio de 2017

cais


o vento roçando
ao de leve pelo eterno
ondular em ti.


Helder Magalhães


La Jetée - Chris Marker

terça-feira, 2 de maio de 2017

teia



ao início das tardes soalheiras
levavas-me pela mão
fazíamos o caminho lado a lado
as sombras uma teia
tecendo-nos como os dias
em crescendo
ensinaste-me a arejar uma casa
o sol vinha à janela
rindo a toda a extensão da pele
e as plantas
que me dizias para regar
talvez continuem
a crescer na água dos gestos.


Helder Magalhães


Ineke Kamps Art

maçã mal cabida, um poema de Carla Diacov com o borogodó necessário e absoluto

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faz já dois candelabros que ela não olha para trás uma mulher de olhar para trás mas então agora é o prato chinês os ossinhos do pato no canto perto da mão esquerda o garfo com seus dentes virados para o quadro onde um cavalo e sobre ele uma garotinha forçando o rosto num raio de sol muito mal pintado num tom de maçã mal cabida ali pobre pobre beleza pobre mal cabido ali faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás metodologia de sondar sem ver uma faca no assoalho de cupins uma vaca bordada no guardanapo novo uma mulher e um homem e uma roda de tortura uma vaca bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada uma vaca bordada na cara dela e se ela se botasse a cantar e se se ela botasse a querer lamber um peito marinho e se ela se botasse a pensar num estupro supracoreografado uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não ela usa um terno cinco tamanhos maiores faz treze luas que ela não faz treze náuseas que ela não olha para trás uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali se ela se bota a voltar a olhar para trás se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar se ela se bota a criar uma boa superstição com taças já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não [olha para trás se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa se ela se bota a entortar o quadro uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura uma carcaça bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus onde o homem se ela se bota a cruzar os ossos essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas se ela se bota a pentear a franja com o garfo se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal faz já onze moscas que ela não olha para trás

***


* no vídeo, maçã mal cabida, poema de Carla Diacov na voz de Penélope Martins.

** este post é mais uma publicação para nossa ponte de afetos, Brasil e Portugal, sob rubrica É DO BOROGODÓ, dirigida por Penélope Martins.

*** livros de Carla Diacov estão presentes no catálogo Douda: https://doudacorreriablog.wordpress.com/





terça-feira, 25 de abril de 2017

nidificar


os pássaros vieram
na tarde que nos feria o peito
nidificando o voo
debaixo da pele do abraço.


Helder Magalhães


Laura Makabresku

quarta-feira, 19 de abril de 2017

no verde da folha, amarelo-ouro - história que é do BOROGODÓ!




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Toquinho e Rolando Boldrin, Som Brasil, Rede Globo, 1981.


Cá no Brasil, um apresentador de televisão, desde muito, muito tempo, tem um programa feito inteirinho pra dizer poesia, contar histórias e cantar música popular brasileira. Um programa sobretudo destinado a mapear a oralidade do país, as diversas composições da mesma língua portuguesa em expressões singulares de cada lugar, cada cultura (dentro da cultura) desse país com geografia de continente.

Rolando Boldrin passou por diversas emissoras e atualmente se mantém na TV Cultura, com seu recanto Senhor Brasil. Ele, que nasceu na Cidade de São Joaquim da Barra, interior do Estado de São Paulo. Pequenino, aos 7 anos, já foi ao rádio com sua dupla caipira formada com o irmão (12 anos); eram eles "Boy e Formiga".

Foi sapateiro, frentista, carregador, serviu mesas e atendeu balcão em farmácia. Depois foi firmando teimosia na música, e na década de 50 ingressou a TV Tupi, que não mais existe, ao lado de grandes atores da dramaturgia brasileira.

No vídeo selecionado, Boldrin não está só. Começa por apresentar a poeta Cora Coralina com um texto muito revelador sobre o Brasil. Depois, apresenta as irmãs Alzira e Tetê Espíndola, ambas compositoras e cantoras, figuras imprescindíveis para compreensão da cena musical brasileira... Mas isto rende outra publicação para este blog, que eu farei, em outro momento, com prazer ímpar de quem conhece essa gente espectacular.

Eu sou Penélope Martins, escritora e narradora de histórias, e contribuo para o Blog Clube de Leitores, construindo essa ponte de leituras nossas na força na língua que nos une, porque a palavra é do BOROGODÓ!


terça-feira, 18 de abril de 2017

revelação


assim surges
rosto sobre o fotograma
inundado de luz

em revelação
transcendendo-me.


Helder Magalhães

Sónia Silva

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Passatempo Minotauro - "Rapariga em Guerra", Sara Novic


Passatempo Minotauro - "Rapariga em Guerra", um livro de Sara Novic

Para se habilitarem a ganhar um livro, basta fazerem like (ou já terem feito) na página da Minotaurono Facebook. Devem também identificar o nome de dois amigos (que possam querer ganhar o livro) na caixa de comentários do grupo LIVROS NO FACEBOOK. As restantes regras são as seguintes:

- O passatempo termina às 23h59 do dia 23 de Abril
- Só é aceite uma participação por pessoa
- Só serão aceites participações de Portugal

O vencedor é escolhido através do random.org e será contactado via mensagem.

Boa sorte!

terça-feira, 11 de abril de 2017

Hombres necios, de Juana Inés


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Hombres necios que acusáis a la mujer, sin razón, sin ver que sois la ocasión de lo mismo que culpáis; si con ansia sin igual solicitáis su desdén, por qué queréis que obren bien si las incitáis al mal? Combatís su resistencia y luego, con gravedad, decís que fue liviandad lo que hizo la diligencia. Parecer quiere el denuedo de vuestro parecer loco, al niño que pone el coco y luego le tiene miedo. Queréis, con presunción necia, hallar a la que buscáis para prentendida, Thais, y en la posesión, Lucrecia. ¿Qué humor puede ser más raro que el que, falto de consejo, él mismo empaña el espejo y siente que no esté claro? Con el favor y el desdén tenéis condición igual, quejándoos, si os tratan mal, burlándoos, si os quieren bien. Opinión, ninguna gana, pues la que más se recata, si no os admite, es ingrata, y si os admite, es liviana. Siempre tan necios andáis que, con desigual nivel, a una culpáis por cruel y a otra por fácil culpáis. ¿Pues como ha de estar templada la que vuestro amor pretende?, ¿si la que es ingrata ofende, y la que es fácil enfada? Mas, entre el enfado y la pena que vuestro gusto refiere, bien haya la que no os quiere y quejaos en hora buena. Dan vuestras amantes penas a sus libertades alas, y después de hacerlas malas las queréis hallar muy buenas. ¿Cuál mayor culpa ha tenido en una pasión errada: la que cae de rogada, o el que ruega de caído? ¿O cuál es de más culpar, aunque cualquiera mal haga; la que peca por la paga o el que paga por pecar? ¿Pues, para qué os espantáis de la culpa que tenéis? Queredlas cual las hacéis o hacedlas cual las buscáis. Dejad de solicitar, y después, con más razón, acusaréis la afición de la que os fuere a rogar. Bien con muchas armas fundo que lidia vuestra arrogancia, pues en promesa e instancia juntáis diablo, carne y mundo.

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- Juana Inés de la Cruz (1561 - 1695)

#mulheresqueleemmulheres


imagem


para lá da imagem
a magnólia murchou
fica a pele rente.


Helder Magalhães



terça-feira, 4 de abril de 2017

esperança


a árvore continua a florescer
na memória do fruto à varanda
fulminado de sol e esperança.


Helder Magalhães


Marine Loup

Música & Poesia - É do Borogodó!

Socorro Lira, compositora e cantora da Música Popular Brasileira, musicou um poema meuzinho, e para ampliar nosso coração, em tardes frias e manhãs geladas onde o desejo é sufocado pelo correr do tempo no mundo, coloco aqui essa janela melódica... como se fosse uma cortina a correr no espaço que busca o pensamento.
Uma prenda para a nossa ponte de leituras nossas, Brasil e Portugal, porque a palavra é um instrumento com muito borogodó.
Penélope Martins -


 **

“Na tarde em que te beijei
Botei colibri no peito
Cresceu meu maior desejo
O que na boca calei.
Silêncio, olhos cerrados
Olhando por dentro de mim
Cheiro de mel e jasmim
Minha alma tinha tomado.
Um beijo mais fundo chorei
Sem pensar no que sentia
Sua boca tomando minha sina
Sua boca me assina, me ensina
O que já sei.

Amor, são meus olhos de chuva n’ocê
A principitar do céu a gentileza
De apagar essa brasa acesa
sem ter nem pra quê.
Amor são meus olhos chovendo manso
Brotar da terra entre nós
Rio passando vale, serra
Pedra da minha canção.

terça-feira, 28 de março de 2017

vazio


a dor como mesa
vazia à espera de dar
rebentos em flor.


Helder Magalhães



Rosinha do Brasil com borogodó da música popular

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Uma mulher violinista de primeira qualidade, concertista e cantora, nascida no Rio de Janeiro, que se tornou um dos mais importantes nomes da música popular brasileira. Quem não conhece Rosinha de Valença?

Desde criança, interessada em tocar violão, Rosinha estudou só e já aos 12 anos tocava na rádio com técnica primorosa. Deixou os estudos na escola para estudar a música e, mais tarde, ao lado de Baden Powell, deu novo rumo à bossa nova brasileira. Depois de sucessivas viagens com apresentações por Israel, Itália, Suíça, Portugal, Rosinha retornou ao Brasil engajada em movimentos de valorização da música instrumental. 

Aproveitem!


* Eu sou Penélope Martins, escrevo do Brasil para o Clube de Leitores de Portugal com a rubrica É do BOROGODÓ!, para estreitar os laços da nossa lingua mátria e manter límpida a ponte de amizade entre nossos leitores. 

terça-feira, 21 de março de 2017

macieira


no jardim da casa
onde morei até aos dez anos
havia uma macieira
dava pequenas e verdes maçãs
assim que via
as maçãs pequenas e verdes
por entre a folhagem
que era ainda mais verde
corria a colhê-las
e a comê-las
eram agras e sumarentas
porquanto
não deixava amadurecer
as pequenas e verdes maçãs
hoje já não existe
a pequena macieira no jardim
da casa em que cresci até aos dez anos
ficou a poesia
de correr até ao pé dela
apanhando braçados
de maçãs pequenas e verdes.


Helder Magalhães


Sónia Silva

Eunice Arruda, pra sempre, é do borogodó!



A poesia permanecerá.
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Em homenagem à poeta Eunice Arruda,
neste triste dia de seu falecimento...



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terça-feira, 14 de março de 2017

Carolina de Jesus é do Borogodó!

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Carolina Maria de Jesus nasceu na zona rural de Minas Gerais, estudou até o segundo ano primário, foi católica devota embora sua mãe tivesse sido banida da Igreja por conta de parir filhos ilegítimos. Adulta, foi parar em São Paulo, trabalhando como catadora de recicláveis. Moradora da comunidade do Canindé, zona norte paulista, Carolina registrava o cotidiano das pessoas em seu diário, o que viria a formar seu primeiro livro e a obra consagrada de uma das primeiras escritoras negras do Brasil. 

Mudou-se para a capital paulista em 1947, num momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade, e apesar do pouco estudo, escreveu mais de vinte cadernos com testemunhos sobre a favela. Seu livro, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960, teve mais de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. No entanto, Carolina de Jesus morreu em 1977, aos 62 anos,  pobre e esquecida.

* Eu sou Penélope Martins, escrevo do Brasil para a ponte com o Blog Clube de Leitores unindo lusófonos na leitura, porque LER é do borogodó.

poesia


perguntam-me sobre a poesia
e eu digo que aterra e adentra a carne
como o reclamo na montra do talho
anunciando baixou asas.


Helder Magalhães


Katia Chausheva Photography

segunda-feira, 13 de março de 2017

Acaba de chegar: As Bifurcações da Ordem, Boaventura de Sousa Santos



Acaba de chegar às livrarias portuguesas a terceira obra de uma coleção de cinco títulos sobre a sociologia crítica do direito: “As Bifurcações da Ordem: Revolução, Cidade, Campo e Indignação”, de Boaventura de Sousa Santos. Tal como nas obras publicadas anteriormente - “O Direito dos Oprimidos” (2014) e “A Justiça Popular em Cabo Verde” (2015) - este livro é publicado sem se ter efetuado uma atualização de dados ou de bibliografia, e sem a intervenção nas análises feitas ao tempo em que os textos foram escritos.

Porém, ao contrário das obras anteriores, esta contém textos relativos a um período situado entre 1979 e 2016 e é, por isso, um volume particularmente revelador da trajetória científica do professor Boaventura de Sousa Santos na área da sociologia crítica do direito.

Neste livro, e entre outras coisas, o autor dedica-se a analisar a forma como os diferentes e complexos modos como a ordem jurídica, o direito e os tribunais, refletem os processos de transformação social e, simultaneamente, os influenciam.

“As Bifurcações da Ordem: Revolução, Cidade, Campo e Indignação” encontra-se disponível nas livrarias Almedina.

Sobre a autor
:

Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

terça-feira, 7 de março de 2017

prunus


lembro-me de em puto
haver comprado meio quilo de ameixas
a uma senhora na banca do mercado
tínhamos ido à praia
ir à água dá fome
quanto mais a do mar salgada
e comi o meio quilo de ameixas
longe de saber
que uns anos mais tarde
inclinar-me-ia sobre os teus lábios
com similar avidez
e assim estou
em contínua primavera à espera
que voltes um dia
trazendo o verão carmim
das ameixas.


Helder Magalhães


Marine Loup

é do borogodó!

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Ouvir histórias, é do borogodó!

O Clube de Leitura Quindim me convidou para contar histórias e eu, é claro, aceitei! O conto escolhido está na obra Sete Histórias para Sacudir o Esqueleto, de Angela Lago, com selo da Companhia das Letrinhas.

Eu sou Penélope Martins e estou por aqui fazendo a ponte de leitura entre Brasil e Portugal na nossa seção É do Borogodó!

Corram chamar as crianças para ouvir histórias com som de Brasil.

Divirtam-se!!




quinta-feira, 2 de março de 2017

Balea, Federico Fernández & Germán González


Inspirado, quem sabe, por Moby Dick, este livro é uma enorme ilustração com dois lados distintos - um deles é quem vê por fora uma baleia, perdida no oceano, seguida por vários animais do mar. O outro lado, dentro, uma alegre e colorida teia de histórias, naquilo que aparenta ser um grande submarino, cheio de compartimentos e divisões.

Criatividade e talento não faltam a estes ilustradores, na qualidade já reconhecida da Kalandraka. Vai valer a pena oferecer este livro e, quem sabe, pendurá-lo em qualquer lugar.


*Visite a Kalandraka Editora Portugal

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

árvore


ao alto da colina silenciosa
a árvore ausculta os tremores
que fluem pelas nossas mãos
como veios subterrâneos
entrámos em casa cintilando
esquadrinhados de azul.


Helder Magalhães




os hóspedes

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nós,
os hóspedes,
estrangeiros na vida;;
a viagem não passa
de um sonho esquecido
no seio de um deus que flutua
sobre um rio de estrelas;;
logo o sol
- com toda fúria e máxima ternura -
acenderá nossos olhos
e acordaremos.
- penélope martins -




*daqui do Brasil para os amigos leitores de Portugal, tecendo o fio da amizade com a comunidade lusófona porque poesia em língua portuguesa é do borogodó!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

gente



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tem gente que vale a pena.
tem gente que vale
muito a pena.
tem gente que nem pena vale.
tem gente que é um vale
verde, ensolarado, de carícias plenas
e poucas penas.
gente a penas.


- penélope martins* -



* um poema que envio com afeto, na ponte Brasil e Portugal, que une nossas leituras de mundo.

** poesia é do BOROGODÓ!

*** a fotografia que ilustra o poema foi obtida na net e, até o momento, é desconhecida sua autoria.