sábado, 27 de maio de 2017

Primeiro parágrafo: «A Serpente do Essex», Sarah Perry

Um jovem caminha ao longo das margens do Blackwater à luz fria do luar. Bebera o ano que findava até às borras, até ficar com os olhos a arder e o estômago às voltas, e estava cansado das luzes e do ruído.
- Vou ali a baixo até à água - disse, e beijou o rosto mais próximo. - Volto antes das badaladas.
Olha na direção de oriente, da maré a mudar, do estuário lento e negro, das gaivotas que brilham sobre as vagas.


P.V.P.: 19.90
Data de Edição: 2017
Nº de Páginas: 392
Editora: Minotauro

terça-feira, 23 de maio de 2017

bica


mesmo o calor veio mais cedo
bem o vejo aqui imóvel à sombra
às vezes um súbito rumor
uma aragem cruzando o vale
evoco o frescor do teu nome
lábios abertos para a bica
e logo a sede dos salpicos
se funde em círculos
como dedos afogados à pele.


Helder Magalhães




terça-feira, 16 de maio de 2017

naquela tarde



I.
naquela tarde ela disse que me amava. ela sentou na poltrona, acendeu um cigarro, lia um livro que não sei e foi por cima das páginas que eu ignorava que ela me olhou para piscar e dizer. ela disse assim, descomprometida das consequências: ‘eu te amo, tanto’. depois fez uma pausa, enxugou uma lágrima. tive pena de mim. aquilo doeu como uma abelha fustigando o centro do peito. fui incapaz de responder. meus olhos passeavam por ela como os olhos do menino que fita a folha de papel de seda no ar, um pássaro. depois daquilo, balançando o pé no ar com a perna cruzada, ela terminou a leitura e se fez ausência. o cigarro terminou, a luz do sol tingiu os restos da fumaça de lilás.
II.

choveu o dia seguinte, o outro também. o papel de seda encharcou entre as nuvens do meu querer. envergaram os meus ombros. sufoquei a ilusão com um duro golpe. ela ligou, eu não respondi. ela escreveu, eu não li. ela chamou por mim e eu deixei que ela se fosse, aos poucos, sumindo, desintegrando, desfazendo aquele mal. aos poucos ela desistiria de insistir e eu teria que desistir na desistência dela. por aqueles dias corri ver meu time. convidei alguém para minha cama sofrendo não aspirar naquele novo corpo o mesmo perfume que desenhava minhas utopias. engoli a saudade a palo seco. a palo seco foi a expressão que ela usou quando disse que me diria aquilo que disse numa tarde, sentada na poltrona que resta vazia entre as brumas do meu silêncio.


- Penélope Martins - 

* na ponte de afetos que aproxima leitores daqui do Brasil com os de lá ou daí de Portugal... com rubrica 'é do borogodó!', algo pra lá de batucada.

terça-feira, 9 de maio de 2017

cais


o vento roçando
ao de leve pelo eterno
ondular em ti.


Helder Magalhães


La Jetée - Chris Marker

terça-feira, 2 de maio de 2017

teia



ao início das tardes soalheiras
levavas-me pela mão
fazíamos o caminho lado a lado
as sombras uma teia
tecendo-nos como os dias
em crescendo
ensinaste-me a arejar uma casa
o sol vinha à janela
rindo a toda a extensão da pele
e as plantas
que me dizias para regar
talvez continuem
a crescer na água dos gestos.


Helder Magalhães


Ineke Kamps Art

maçã mal cabida, um poema de Carla Diacov com o borogodó necessário e absoluto

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faz já dois candelabros que ela não olha para trás uma mulher de olhar para trás mas então agora é o prato chinês os ossinhos do pato no canto perto da mão esquerda o garfo com seus dentes virados para o quadro onde um cavalo e sobre ele uma garotinha forçando o rosto num raio de sol muito mal pintado num tom de maçã mal cabida ali pobre pobre beleza pobre mal cabido ali faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás metodologia de sondar sem ver uma faca no assoalho de cupins uma vaca bordada no guardanapo novo uma mulher e um homem e uma roda de tortura uma vaca bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada uma vaca bordada na cara dela e se ela se botasse a cantar e se se ela botasse a querer lamber um peito marinho e se ela se botasse a pensar num estupro supracoreografado uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não ela usa um terno cinco tamanhos maiores faz treze luas que ela não faz treze náuseas que ela não olha para trás uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali se ela se bota a voltar a olhar para trás se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar se ela se bota a criar uma boa superstição com taças já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não [olha para trás se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa se ela se bota a entortar o quadro uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura uma carcaça bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus onde o homem se ela se bota a cruzar os ossos essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas se ela se bota a pentear a franja com o garfo se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal faz já onze moscas que ela não olha para trás

***


* no vídeo, maçã mal cabida, poema de Carla Diacov na voz de Penélope Martins.

** este post é mais uma publicação para nossa ponte de afetos, Brasil e Portugal, sob rubrica É DO BOROGODÓ, dirigida por Penélope Martins.

*** livros de Carla Diacov estão presentes no catálogo Douda: https://doudacorreriablog.wordpress.com/





terça-feira, 25 de abril de 2017

nidificar


os pássaros vieram
na tarde que nos feria o peito
nidificando o voo
debaixo da pele do abraço.


Helder Magalhães


Laura Makabresku

quarta-feira, 19 de abril de 2017

no verde da folha, amarelo-ouro - história que é do BOROGODÓ!




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Toquinho e Rolando Boldrin, Som Brasil, Rede Globo, 1981.


Cá no Brasil, um apresentador de televisão, desde muito, muito tempo, tem um programa feito inteirinho pra dizer poesia, contar histórias e cantar música popular brasileira. Um programa sobretudo destinado a mapear a oralidade do país, as diversas composições da mesma língua portuguesa em expressões singulares de cada lugar, cada cultura (dentro da cultura) desse país com geografia de continente.

Rolando Boldrin passou por diversas emissoras e atualmente se mantém na TV Cultura, com seu recanto Senhor Brasil. Ele, que nasceu na Cidade de São Joaquim da Barra, interior do Estado de São Paulo. Pequenino, aos 7 anos, já foi ao rádio com sua dupla caipira formada com o irmão (12 anos); eram eles "Boy e Formiga".

Foi sapateiro, frentista, carregador, serviu mesas e atendeu balcão em farmácia. Depois foi firmando teimosia na música, e na década de 50 ingressou a TV Tupi, que não mais existe, ao lado de grandes atores da dramaturgia brasileira.

No vídeo selecionado, Boldrin não está só. Começa por apresentar a poeta Cora Coralina com um texto muito revelador sobre o Brasil. Depois, apresenta as irmãs Alzira e Tetê Espíndola, ambas compositoras e cantoras, figuras imprescindíveis para compreensão da cena musical brasileira... Mas isto rende outra publicação para este blog, que eu farei, em outro momento, com prazer ímpar de quem conhece essa gente espectacular.

Eu sou Penélope Martins, escritora e narradora de histórias, e contribuo para o Blog Clube de Leitores, construindo essa ponte de leituras nossas na força na língua que nos une, porque a palavra é do BOROGODÓ!


terça-feira, 18 de abril de 2017

revelação


assim surges
rosto sobre o fotograma
inundado de luz

em revelação
transcendendo-me.


Helder Magalhães

Sónia Silva

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Passatempo Minotauro - "Rapariga em Guerra", Sara Novic


Passatempo Minotauro - "Rapariga em Guerra", um livro de Sara Novic

Para se habilitarem a ganhar um livro, basta fazerem like (ou já terem feito) na página da Minotaurono Facebook. Devem também identificar o nome de dois amigos (que possam querer ganhar o livro) na caixa de comentários do grupo LIVROS NO FACEBOOK. As restantes regras são as seguintes:

- O passatempo termina às 23h59 do dia 23 de Abril
- Só é aceite uma participação por pessoa
- Só serão aceites participações de Portugal

O vencedor é escolhido através do random.org e será contactado via mensagem.

Boa sorte!

terça-feira, 11 de abril de 2017

Hombres necios, de Juana Inés


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Hombres necios que acusáis a la mujer, sin razón, sin ver que sois la ocasión de lo mismo que culpáis; si con ansia sin igual solicitáis su desdén, por qué queréis que obren bien si las incitáis al mal? Combatís su resistencia y luego, con gravedad, decís que fue liviandad lo que hizo la diligencia. Parecer quiere el denuedo de vuestro parecer loco, al niño que pone el coco y luego le tiene miedo. Queréis, con presunción necia, hallar a la que buscáis para prentendida, Thais, y en la posesión, Lucrecia. ¿Qué humor puede ser más raro que el que, falto de consejo, él mismo empaña el espejo y siente que no esté claro? Con el favor y el desdén tenéis condición igual, quejándoos, si os tratan mal, burlándoos, si os quieren bien. Opinión, ninguna gana, pues la que más se recata, si no os admite, es ingrata, y si os admite, es liviana. Siempre tan necios andáis que, con desigual nivel, a una culpáis por cruel y a otra por fácil culpáis. ¿Pues como ha de estar templada la que vuestro amor pretende?, ¿si la que es ingrata ofende, y la que es fácil enfada? Mas, entre el enfado y la pena que vuestro gusto refiere, bien haya la que no os quiere y quejaos en hora buena. Dan vuestras amantes penas a sus libertades alas, y después de hacerlas malas las queréis hallar muy buenas. ¿Cuál mayor culpa ha tenido en una pasión errada: la que cae de rogada, o el que ruega de caído? ¿O cuál es de más culpar, aunque cualquiera mal haga; la que peca por la paga o el que paga por pecar? ¿Pues, para qué os espantáis de la culpa que tenéis? Queredlas cual las hacéis o hacedlas cual las buscáis. Dejad de solicitar, y después, con más razón, acusaréis la afición de la que os fuere a rogar. Bien con muchas armas fundo que lidia vuestra arrogancia, pues en promesa e instancia juntáis diablo, carne y mundo.

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- Juana Inés de la Cruz (1561 - 1695)

#mulheresqueleemmulheres


imagem


para lá da imagem
a magnólia murchou
fica a pele rente.


Helder Magalhães



terça-feira, 4 de abril de 2017

esperança


a árvore continua a florescer
na memória do fruto à varanda
fulminado de sol e esperança.


Helder Magalhães


Marine Loup

Música & Poesia - É do Borogodó!

Socorro Lira, compositora e cantora da Música Popular Brasileira, musicou um poema meuzinho, e para ampliar nosso coração, em tardes frias e manhãs geladas onde o desejo é sufocado pelo correr do tempo no mundo, coloco aqui essa janela melódica... como se fosse uma cortina a correr no espaço que busca o pensamento.
Uma prenda para a nossa ponte de leituras nossas, Brasil e Portugal, porque a palavra é um instrumento com muito borogodó.
Penélope Martins -


 **

“Na tarde em que te beijei
Botei colibri no peito
Cresceu meu maior desejo
O que na boca calei.
Silêncio, olhos cerrados
Olhando por dentro de mim
Cheiro de mel e jasmim
Minha alma tinha tomado.
Um beijo mais fundo chorei
Sem pensar no que sentia
Sua boca tomando minha sina
Sua boca me assina, me ensina
O que já sei.

Amor, são meus olhos de chuva n’ocê
A principitar do céu a gentileza
De apagar essa brasa acesa
sem ter nem pra quê.
Amor são meus olhos chovendo manso
Brotar da terra entre nós
Rio passando vale, serra
Pedra da minha canção.

terça-feira, 28 de março de 2017

vazio


a dor como mesa
vazia à espera de dar
rebentos em flor.


Helder Magalhães



Rosinha do Brasil com borogodó da música popular

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Uma mulher violinista de primeira qualidade, concertista e cantora, nascida no Rio de Janeiro, que se tornou um dos mais importantes nomes da música popular brasileira. Quem não conhece Rosinha de Valença?

Desde criança, interessada em tocar violão, Rosinha estudou só e já aos 12 anos tocava na rádio com técnica primorosa. Deixou os estudos na escola para estudar a música e, mais tarde, ao lado de Baden Powell, deu novo rumo à bossa nova brasileira. Depois de sucessivas viagens com apresentações por Israel, Itália, Suíça, Portugal, Rosinha retornou ao Brasil engajada em movimentos de valorização da música instrumental. 

Aproveitem!


* Eu sou Penélope Martins, escrevo do Brasil para o Clube de Leitores de Portugal com a rubrica É do BOROGODÓ!, para estreitar os laços da nossa lingua mátria e manter límpida a ponte de amizade entre nossos leitores. 

terça-feira, 21 de março de 2017

macieira


no jardim da casa
onde morei até aos dez anos
havia uma macieira
dava pequenas e verdes maçãs
assim que via
as maçãs pequenas e verdes
por entre a folhagem
que era ainda mais verde
corria a colhê-las
e a comê-las
eram agras e sumarentas
porquanto
não deixava amadurecer
as pequenas e verdes maçãs
hoje já não existe
a pequena macieira no jardim
da casa em que cresci até aos dez anos
ficou a poesia
de correr até ao pé dela
apanhando braçados
de maçãs pequenas e verdes.


Helder Magalhães


Sónia Silva

Eunice Arruda, pra sempre, é do borogodó!



A poesia permanecerá.
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Em homenagem à poeta Eunice Arruda,
neste triste dia de seu falecimento...



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terça-feira, 14 de março de 2017

Carolina de Jesus é do Borogodó!

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Carolina Maria de Jesus nasceu na zona rural de Minas Gerais, estudou até o segundo ano primário, foi católica devota embora sua mãe tivesse sido banida da Igreja por conta de parir filhos ilegítimos. Adulta, foi parar em São Paulo, trabalhando como catadora de recicláveis. Moradora da comunidade do Canindé, zona norte paulista, Carolina registrava o cotidiano das pessoas em seu diário, o que viria a formar seu primeiro livro e a obra consagrada de uma das primeiras escritoras negras do Brasil. 

Mudou-se para a capital paulista em 1947, num momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade, e apesar do pouco estudo, escreveu mais de vinte cadernos com testemunhos sobre a favela. Seu livro, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, publicado em 1960, teve mais de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. No entanto, Carolina de Jesus morreu em 1977, aos 62 anos,  pobre e esquecida.

* Eu sou Penélope Martins, escrevo do Brasil para a ponte com o Blog Clube de Leitores unindo lusófonos na leitura, porque LER é do borogodó.

poesia


perguntam-me sobre a poesia
e eu digo que aterra e adentra a carne
como o reclamo na montra do talho
anunciando baixou asas.


Helder Magalhães


Katia Chausheva Photography

segunda-feira, 13 de março de 2017

Acaba de chegar: As Bifurcações da Ordem, Boaventura de Sousa Santos



Acaba de chegar às livrarias portuguesas a terceira obra de uma coleção de cinco títulos sobre a sociologia crítica do direito: “As Bifurcações da Ordem: Revolução, Cidade, Campo e Indignação”, de Boaventura de Sousa Santos. Tal como nas obras publicadas anteriormente - “O Direito dos Oprimidos” (2014) e “A Justiça Popular em Cabo Verde” (2015) - este livro é publicado sem se ter efetuado uma atualização de dados ou de bibliografia, e sem a intervenção nas análises feitas ao tempo em que os textos foram escritos.

Porém, ao contrário das obras anteriores, esta contém textos relativos a um período situado entre 1979 e 2016 e é, por isso, um volume particularmente revelador da trajetória científica do professor Boaventura de Sousa Santos na área da sociologia crítica do direito.

Neste livro, e entre outras coisas, o autor dedica-se a analisar a forma como os diferentes e complexos modos como a ordem jurídica, o direito e os tribunais, refletem os processos de transformação social e, simultaneamente, os influenciam.

“As Bifurcações da Ordem: Revolução, Cidade, Campo e Indignação” encontra-se disponível nas livrarias Almedina.

Sobre a autor
:

Boaventura de Sousa Santos é Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick. É igualmente Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

terça-feira, 7 de março de 2017

prunus


lembro-me de em puto
haver comprado meio quilo de ameixas
a uma senhora na banca do mercado
tínhamos ido à praia
ir à água dá fome
quanto mais a do mar salgada
e comi o meio quilo de ameixas
longe de saber
que uns anos mais tarde
inclinar-me-ia sobre os teus lábios
com similar avidez
e assim estou
em contínua primavera à espera
que voltes um dia
trazendo o verão carmim
das ameixas.


Helder Magalhães


Marine Loup

é do borogodó!

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Ouvir histórias, é do borogodó!

O Clube de Leitura Quindim me convidou para contar histórias e eu, é claro, aceitei! O conto escolhido está na obra Sete Histórias para Sacudir o Esqueleto, de Angela Lago, com selo da Companhia das Letrinhas.

Eu sou Penélope Martins e estou por aqui fazendo a ponte de leitura entre Brasil e Portugal na nossa seção É do Borogodó!

Corram chamar as crianças para ouvir histórias com som de Brasil.

Divirtam-se!!




quinta-feira, 2 de março de 2017

Balea, Federico Fernández & Germán González


Inspirado, quem sabe, por Moby Dick, este livro é uma enorme ilustração com dois lados distintos - um deles é quem vê por fora uma baleia, perdida no oceano, seguida por vários animais do mar. O outro lado, dentro, uma alegre e colorida teia de histórias, naquilo que aparenta ser um grande submarino, cheio de compartimentos e divisões.

Criatividade e talento não faltam a estes ilustradores, na qualidade já reconhecida da Kalandraka. Vai valer a pena oferecer este livro e, quem sabe, pendurá-lo em qualquer lugar.


*Visite a Kalandraka Editora Portugal

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

árvore


ao alto da colina silenciosa
a árvore ausculta os tremores
que fluem pelas nossas mãos
como veios subterrâneos
entrámos em casa cintilando
esquadrinhados de azul.


Helder Magalhães




os hóspedes

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nós,
os hóspedes,
estrangeiros na vida;;
a viagem não passa
de um sonho esquecido
no seio de um deus que flutua
sobre um rio de estrelas;;
logo o sol
- com toda fúria e máxima ternura -
acenderá nossos olhos
e acordaremos.
- penélope martins -




*daqui do Brasil para os amigos leitores de Portugal, tecendo o fio da amizade com a comunidade lusófona porque poesia em língua portuguesa é do borogodó!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

gente



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tem gente que vale a pena.
tem gente que vale
muito a pena.
tem gente que nem pena vale.
tem gente que é um vale
verde, ensolarado, de carícias plenas
e poucas penas.
gente a penas.


- penélope martins* -



* um poema que envio com afeto, na ponte Brasil e Portugal, que une nossas leituras de mundo.

** poesia é do BOROGODÓ!

*** a fotografia que ilustra o poema foi obtida na net e, até o momento, é desconhecida sua autoria.

amor


ao canto dos galos na madrugada
já o amor era aurora
no espaço entre os vidros embaciados
pela humidade em que o solo
se revolve e fecunda
lançando ao mundo o germe
saliva suor sémen
essa aliteração onde nos sabíamos
o fim de novo começo.


Helder Magalhães


Laura Zalenga Photography

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

From the Cayman com amor 6

"My Father, Frank Lloyd Wright", de John Lloyd Wright. Depois de uma ida a Chicago para ver várias obras de arte de um dos meus arquitectos preferidos, não podia perder a oportunidade de comprar o livro que um dos seus filhos, John, escreveu acerca do pai.” (Dover Publications, INC., New York)



Foto e legenda: Sofia Reis, portuguesa, jornalista e fotógrafa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A flecha certeira de Millôr




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Millôr Fernandes foi desenhista, humorista, escritor e jornalista brasileiro. Carioca, nasceu em 16 de agosto de 1923, e, em seus mais de 70 anos de carreira, deixou sua marca na história da imprensa participando do Cruzeiro, Jornal do Brasil, O Pasquim, Revista Veja... Millôr assinou inúmeras peças de teatro, conquistou admiradores pelo estilo da escrita e na expressão de seus traços. 

Morreu aos 88 anos intensamente vividos, aos 27 de março de 2012, mas será sempre atual, atemporal e imprescindível para a compreensão da história da política brasileira.


*Eu sou Penélope Martins, escrevo do Brasil para Portugal, nesta ponte que É do Borogodó!


rasto


a bordo o céu
é muitos azuis
um corpo
à janela sustém
a mão da respiração
no rasto da viagem
ramagem a sós
por sobre
a cartografia
da saudade.


Helder Magalhães



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

inverno


no meio do sonho
adormecido
a boca de uma fonte
aguarda o jorro
da água
aos teus lábios

beija-me
sob o inverno das cerejeiras
coalhadas de céu.


Helder Magalhães


Sónia Silva




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

imaculada


no outono passado
os jarros não chegaram
a abrir na memória
a correnteza do silêncio
floresce imaculada
de brancura e do pólen
do teu sorriso.


Helder Magalhães



Marine Loup

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

L'Éclat de la lumière (O fulgor da luz) - conversas com Vieira da Silva e Arpad Szenes


Um livro de Anne Philipe, numa tradução feita por Luiza Neto Jorge, de uma longa entrevista a Vieira da Silva e Arpad Szenes.

A conversa parece desenrolar-se a um ritmo de pintura de um quadro, muito serenamente. Além do espírito dos pintores, sente-se o amor que ambos têm um pelo outro, num exercício interessante sobre a pintura, o mundo, a inspiração que os conduz e as vidas que levam.

Impossível parar de admirar o que dizem, o que sentem, como as suas vidas se entrelaçaram numa feliz união, apesar de virem de zonas tão diferentes da Europa. 

E depois existe o próprio pensamento artístico, a visão da arte, os exemplos de outros; aprende-se muito sobre o que era Paris nos tempos em que ambos se cruzaram e conheceram.

A ler!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Mata Branca

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Com a Mata Branca aprendi, vivendo,
a sobreviver à aridez da terra
meu coração verve e, verde, se esperança
na vida escondida sob a folha seca
ou que a vista alcança no topo da serra

O seu céu azula o meu olhar triste
e pinta de alegre a alma acinzentada
com as cores vivas do desejo quente
e com a força bruta dos sonhos da gente
pequena semente no barro plantada


- Socorro Lira -


**

Socorro Lira, é poeta, compositora, cantora, paraibana, mulher da Mata Branca, do Brejo da Cruz, do Estado da Paraíba, do Nordeste Brasileiro, da arte, da luta.

Conheci Socorro com a música. Foi cantando com ela que eu cozinhei a ceia de Natal de 2016, depois os quitutes pra virada de ano novo. Chorei, ri, dancei.

Digo que conheci, mas foi no sentido de saber da existência dela, não de ficar frente a frente.

Uns dias depois das festas de final de ano, minha amiga também poeta, Alice Ruiz, me chamou para um fuzuê (uma festinha, uma reunião) só com mulheres. Sorte a minha: tava lá Socorro, essa mulher (en) cantadora que bota na voz o Brasil em todas suas cores.

Por convicção, eu só acredito na partilha, por isso, compartilho com os amigos de Portugal, leitores do que está escrito e do que é falado, um pouco da poesia e da música e da voz dessa grande artista.

No álbum abaixo, sexto inédito de sua carreira e primeiro não autoral, Socorro Lira se junta a Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Sandra Belê, Vanja Orico e Zé Paulo Medeiros para render homenagem ao grande compositor paraibano Zé do Norte, em função do centenário de seu nascimento. O disco foi o quarto volume do projeto Memória Musical da Paraíba.

Divirtam-se, queridos!

Aqui, como de costume, quem fala é Penélope Martins, fazendo a ponte Brasil e Portugal, com muito som e borogodó!


inaugurando


a neve irrompendo
à janela de um aniversário
anos atrás
flocos nimbando
assentando vida no corpo
da paisagem
como palavras
inaugurando um tempo.


Helder Magalhães


Sónia Silva


domingo, 15 de janeiro de 2017

Uma cova é para escavar, Ruth Krauss & Maurice Sendak



Publicado pela Kalandraka, este livro reforça uma mensagem positiva sobre várias funções das coisas, ilustrando situações e para que servem. 

Com desenhos de outro grande génio, Maurice Sendak, Ruth Krauss conta as 'primeiras explicações' de tudo, para as crianças. Percebemos para que serve uma cova, um irmão, o puré de batata e, por fim, para que servem os livros. 

Um livro carregado de pequenos pensamentos muito positivos, com vários momentos de humor (dados pelo texto e pelo desenho) e alguns toques de ternura.

Vale a pena agarrar esta história!

---

«O puré de batata é para chegar para todos. / Uma cara é para fazer caretas. / Uma cara é o que está à frente do teu nariz. / Os cães são para dar beijos às pessoas. / As mãos dão-se umas às outras. /

Levantas o braço quando queres falar(...)». "Uma cova é para escavar" ou "O livro das primeiras explicações", escrito por Ruth Krauss e ilustrado por Maurice Sendak, é uma coleção de aforismos, simples só na aparência. A profundidade dos sentidos e a leveza do humor convidam os leitores, miúdos e graúdos, a interpretar o que os rodeia e a interagir com os outros e com o mundo. Um livro divertido e cheio de sabedoria, porque, afinal, "O sol é para que o dia seja fantástico" e "Um livro é para ser lido". O puré de batata é para chegar para todos. Uma cara é para fazer caretas. Uma cara é o que está à frente do teu nariz.

Os cães são para dar beijos às pessoas. As mãos dão-se umas às outras. Levantas o braço quando queres falar. Uma cova é para escavar. "O livro das primeiras explicações" é uma coleção de aforismos, simples só na aparência. A profundidade dos sentidos e a leveza do humor convidam os leitores, miúdos e graúdos, a interpretar o que os rodeia e a interagir com os outros e com o mundo. Um livro divertido e cheio de sabedoria, porque, afinal, "O sol é para que o dia seja fantástico" e "Um livro é para ser lido".


História do Novo Nome, Elena Ferrante


Valeu a pena ler este 2.º volume, penso que a história cresce e a acção se torna mais rica. 

Elena e Lila seguem caminhos totalmente diferentes: Lila casa com um homem rico do bairro, Elena vence os seus medos e afirma-se nos estudos.

Pelo meio, Lila rouba a paixão de Elena, num verão de praia. Inicialmente podemos achar que Elena vai abandonar para sempre a amiga, mas a ligação umbilical que as duas têm é muito difícil de quebrar. Muitas divergências, caminhos opostos, perspectivas de felicidade (ou serão viciadas, à sua maneira, em frustrações?); ao mesmo tempo, um forte fascínio pelo outro lado, um regresso aos tempos da primária, quando as duas raparigas disputavam a atenção e interesse da professora, na sala de aula.

Ambas vivem transições muito tempestuosas para a fase adulta. Elena tenta vencer os seus medos e angústias, a tendência para achar que a vida é uma representação daquilo que não é. Sai de Nápoles rumo a Pisa, forma-se e vê um livro publicado. 

Lila abandona a casa do marido, com o filho que não é dele, é do amante que a abandonou. Desce vários degraus na vida, indo parar a uma fábrica, onde desmancha carnes o dia todo. Mas nunca deixa de treinar o filho para ser o melhor, para conseguir tudo aquilo que ela não tem.

Vamos ver o que nos esperam os próximos volumes!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A bailarina

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A profissão de bufarinheiro está regulamentada; contudo, ninguém mais a exerce, por falta de bufarinhas. Passaram a vender sorvetes e sucos de fruta, e são conhecidos como ambulantes. 

Conheci o último bufarinheiro de verdade, e comprei dele um espelhinho que tinha no lado oposto uma bailarina nua. Que mulher! Sorria para mim como prometendo coisas, mas eu era pequeno, e não sabia que coisas fossem. Perturbava-me. 

Um dia quebrei o espelho, mas a bailarina ficou intacta. Só que não sorria mais para mim. Era um cromo como outro qualquer. Procurei o bufarinheiro, que não estava mais na cidade, e provavelmente teria mudado de profissão. Até hoje não sei qual era o mágico: se o bufarinheiro, se o espelho.



- Carlos Drummond de Andrade - 



* este texto está publicado em Conversa de Morango e outros textos cheios de graça, com ilustrações de Fido Nesti, selo da Editora Companhia das Letrinhas, de São Paulo, Brasil.



** esta publicação é uma contribuição semanal de Penélope Martins, direto do Brasil para a ponte com os irmãos portugueses, na rubrica É do Borogodó!

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