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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

a-ver-livros: Livros de cabine, Lisboa

Há dias, no grupo Livros no Facebook, a sala de estar do blogue, prometi que, quando tivesse tempo, passaria pela biblioteca da cabine telefónica da Praça de Londres para vos dar uma ideia do que por lá vai. 

Quando cheguei tinha fechado pouco antes - e não deu ainda para mais do que espreitar. Deixo-vos as fotos possíveis. E também o link da Cabine de Leitura no FB, para saberem mais.

Boas leituras!

Ana Almeida








Para conhecerem o horário a cada semana, já sabem.
Consultar a página da Cabine de Leitura no facebook (link no texto)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

a-ver-livros: 432

Já somos tão pouco
de repente menos ainda
um dia nada
meia dúzia de ossos presos
no tecido com que embrulhámos
a memória
um cheiro vago a terra
estrumada a dias vividos
meio litro de lágrimas
uma flor ou outra

O que fica de ti é isto que sou,
sal, pedra, fogo,
abençoada a nesga de sol
que me escondeu
o olhar

Ana Almeida


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dei por mim a pensar no Natal, vejam lá

Dei por mim a pensar no Natal, vejam lá. 
Espero que não seja grave.
E entretanto, acham interessante? E prático? 

Bem, deve ser óptimo para os dias frios.
Quem quer um põe o dedo no ar. 

http://www.amazon.com/TheUnturnedPage-Clear-Acrylic-Book-Weight/dp/B00KN7ZF1Y


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Como estamos de apetite pela leitura?

Há fomes que só se matam com papel. E o artista polaco Paweł Piotrowski criou um livro sanduíche. Vai uma dentada?

"In 2010, I was 4th grade student at the Academy of Fine Arts in Wroclaw. One of the tasks that I had to do was to create an unusual book. For a long time I thought about it how to create something interesting and show it in unique way. I had few different ideas, but they were not good enough for me. I remember when the idea about sandwich book came to me. It was breakfast time with my girlfriend Irmina. We were making sandwiches and talked about how strange its form will be if it were a book. We always wind up and are inspired to do cool things. The main idea was that the book should look like a sandwich. It was necessary that layers must be different. Sandwich is hand-made book, with jacket. Its size is about 21X15X2,5 cm. Hardcover is “Smeared” by the butter from the inside. Then rewinds several different layers each one made from differing weights, and textures of paper: tomatoes, onions and ham are printed. There are some thick, rough slices of cheese with holes. To make lettuce I used fibrous paper. Each card very carefully crumpled up and then I formed so as to look like leaves of lettuce – that was the biggest challenge. Also there is fried egg I tore it from pieces of paper. I remember that laying it all together and sewing gave me a lot of joy."

Ana Almeida


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

a-ver-livros: voo rápido

A sombra do melro rasgou 
o prédio em voo 
rápido
num 11 setembro das aves
e nós na corda riscada
entre uma nuvem
e outra 
à revelia do medo
a dança que o equilíbrio
permite

Adiante a árvore abraça 
a luz 
e a noite cai, exausta
de tentar lavrar o epitáfio dos jardins
no canteiro minúsculo

Será Janeiro, um dia,
abrirás em flor e eu terei 
morrido

Ana Almeida

* autor desconhecido

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

a-ver-livros: silêncios

Que há no silêncio que te apavora?
Que há na quietude das palavras
que assim te impacienta
e agonia?
Que há no mutismo que não te pacifica 
e antes, subversivo, 
te lança numa cruzada 
letra após letra, ditongos, hiatos,
vagas figuras de estilo,
queixas, clamores,
ironias disfarçadas de humor,
preces, insultos, sentenças e alvitres,
inquirições avulsas sem resposta possível,
sequer necessária, rodeios absurdos, 
tolices obscenas e outros desnortes?

Um dia quererás a quietação, sabes, 
e andará perdida
dentro de ti. 

Ana Almeida

* quadro do norte-americano Miles Hyman.
Para saber mais siga o link http://www.mileshyman.com/


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

a-ver-livros: variações de A Leitora, de Fragonard

O quadro "A leitora", de Jean Honoré Fragonard, é um clássico. Surge no século XVIII, quando a "febre de ler" se instala na Europa graças ao advento da tipografia. A jovem dama francesa surge absorta na leitura e alegre na cor do vestido, em contraste com a penumbra que a rodeia. Uma simbologia clássica. 

Original de Jean Honoré Fragonard

Para mim, o que se torna curioso é, na verdade, a influência que este quadro tem em outros artistas - que têm vindo a replicá-lo de formas mais ou menos criativas. Porque hoje é quarta-feira e a poesia tem andado arredia, ofereço-vos outros olhares sobre este quadro, variações de autores vários. Querem pintar também o vosso?

Ana Almeida

de Natasha Koneva
para saber mais: http://www.artwanted.com/artist.cfm?ArtID=22039&Display=Med&SGID=0&Page=0

de Yamila Jorge
de Schigolev Oleg
para saber mais: http://painting-by-schigolev.jimdo.com/
da israelita Hanna Watts
para saber mais: https://www.facebook.com/HannaWattsHnhWts?fref=ts
da boliviana Celina Avril Tito Garrido
para saber mais: http://pintura-ceramica-escultura.artelista.com/en/
de Kamra
para saber mais: http://www.farea.com/artists_createurs/kamra_figuratif/kamra_figuratif.php















de Kamra (2)
de Kamra (3)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

a-ver-outras-coisas: Sá de Miranda em azulejo

Poema de Sá de Miranda em azulejos na Casa do Barreiro, Gemieira, Ponte de Lima. 

* Francisco de Sá de Miranda (Coimbra, 28 de agosto de 1481 - Amares, 15 de março de 1558 (76 anos)) foi um poeta português, introdutor do soneto e do Dolce Stil Nuovo na nossa língua. (...) Para Sá de Miranda, a poesia não é uma ocupação para ócios de intelectual ou de salões, como para os poetas que o antecederam, mas uma missão sagrada. O poeta é como um profeta, deve denunciar os vícios da sociedade.
 in wikipedia


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

a-ver-livros: o colosso

Reergue-se a dor 
como colosso,
sétima maravilha do nada,
e como me queimam a boca as palavras 
que a raiva ainda mal arrancou 
das entranhas

procuro cerrar os olhos
ao sangue
que a mágoa faz jorrar, 
nada dizima mais
que o silêncio

Ana Almeida


Ilustração de Magda  Carella. Saibam mais sobre ela
aqui: http://www.artmajeur.com/it/artist/magdacarella

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

a-ver-outras-coisas: recordar Ruy Belo

Em S. João da Ribeira, concelho de Rio Maior, há dois painéis-poema que nos devolvem Ruy Belo, o poeta que por lá nasceu - e que morreu por Queluz, fez 37 anos este fim-de-semana (8.agosto.1978). 
Foram inaugurados em 2012. Hoje trago-os aqui. 

Ana Almeida

Painéis de azulejo executados pelo artista de Rio Maior Cristiano Neves.
Encontram-se no centro cívico e na esplanada típica junto à igreja matriz.


E tudo era possível 

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


in Homem de Palavra[s], Editorial Presença, 1999

*** # ***

Quero só isso nem isso quero

Quero uma mesa e pão sobre essa mesa
na toalha de linho nódoas de vinho
quero só isso nem isso quero

Quero a casa de terra à minha volta
cães altos na noite a minha mãe mais nova
quero só isso nem isso quero

Quero a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagos
e trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à galinha chocadeira
quero só isso nem isso quero

Quero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no natal me punham no sapatinho
e tirar chouriço e toucinho do guarda-comidas
quero só isso nem isso quero

Quero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintal
ver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de tijolo
quero só isso nem isso quero

Quero uma aldeia umas pedras um rio
umas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedras
quero só isso nem isso quero

Quero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito anos
rasgar essas cartas deixá-las pra sempre dentro do tronco oco da oliveira
quero só isso nem isso quero

Quero umas cabras um pastor rico um pastor pobre
o leite quente na teta o cabrito morto soprado e esfolado
quero só isso nem isso quero

Quero a courela as perdizes no ovo a baba do cuco
laranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvore
quero só isso nem isso quero

Quero dois montes e um paul de malmequeres a cheia na primavera
a asma o ruído dos ralos as pernas sombrias das raparigas
quero só isso nem isso quero

Quero os espargos os pinheiros bravos o primeiro pôr-do-sol
as noites de baile no carnaval as bandeiras da safra
quero só isso nem isso quero

Quero que voltem os que morreram os que emigraram
matar com eles o bicho com aguardente pela manhã antes da pega
quero só isso nem isso quero

Quero ver ao vento o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentos
saber pelos papéis dos registos o tempo da prenhez palavra misteriosa
quero só isso nem isso quero

Quero um páteo meu e da sombra e galinhas pedreses e árvores
uma mina de avencas uma horta uma sebe de cana umas casas caídas
quero só isso nem isso quero

Quero uma enxada uma gadanha calos nas mãos cuspo nos calos
a cava mais funda da vinha o capataz a fazer o vinho correr
quero só isso nem isso quero

Quero ajudar na rega do fim da tarde calcar os buracos das toupeiras
e dirigir com o sacho a água morna nos pés até aos regos do feijão
quero só isso nem isso quero

Quero em dezembro o varejo final da azeitona o búzio a tocar
a azeitona a cair dos ramos nos panos de serapilheira
quero só isso nem isso quero

Quero o meu pai de chapéu de chuva aberto nos dias de sol
o meu pai de manhãzinha a lavar-se e a explicar-nos latim e história
quero só isso nem isso quero

Quero nu em pelota entre todos tomar os banhos no marachão
os ninhos dos pássaros as andorinhas de asas escuras no céu azul
quero só isso nem isso quero

Quero o pátio da escola a roda das raparigas a cantar à volta do plátano
o primeiro sonho de amor as primeiras palavras gaguejadas trocadas com uma rapariga
quero só isso nem isso quero

Quero as feridas nos pés para poder sair à rua descalço
o pão com conduto entre os meninos pobres no recreio
quero só isso nem isso quero

Quero ir ao vale barco a malaquejo à marmeleira
roubar melões jogar ao murro ver nas festas o fogo preso
quero só isso nem isso quero

Que quero tanto que quero um mundo ou nem tanto só agora reparo
quero morder para sempre a almofada quente e densa da terra
quero só isso nem isso quero



De Toda a Terra (1976) in Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, Editorial Presença, 1990


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

a-ver-livros: rol



Rosas amarelas
e figos
as tuas pegadas quentes
no sabor da meloa doce
brincos de cerejas
e papel de escrever
o barulho da chuva miúda
e pêssegos maduros

um rol improvável
na probabilidade
dos nossos dias

Ana Almeida


foto de Paulette Tavormina

quinta-feira, 30 de julho de 2015

a-ver-livros: farrapos

São farrapos de lábios
os que te sorriem
Farrapos de olhos
Farrapos de lágrimas
Farrapos de cartas de amor
que não chegaram ao papel 
São farrapos de ódio
Farrapos de medo
Farrapos de entrega
Farrapos de mim
Postas restantes da canção
que não chegámos a cantar
Farrapos de corpo
Farrapos de pele
Farrapos de dores
que não escolhemos
Farrapos de lábios
os que ainda te beijam

Ana Almeida


* escultura/instalação de Donald Lipski

quinta-feira, 23 de julho de 2015

a-ver-livros: Saramago em azulejos

«Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão
prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo. Para começar
o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra.
»
 
                                                                 José Saramago

Uma citação do Nobel português que fui encontrar num blog sobre azulejaria, junto com as fotos e a informação que tomo a liberdade de partilhar também. A frase encontra-se no livro 'O ano de 1993' e foi parar a este painel elaborado pelos alunos da Escola Secundária de Monserrate, em Viana do Castelo. Uma forma diferente de ver livros.

Ana Almeida




Imagens trazidas do blog Azulejos da Minha Terra
http://azulejosnaminhaterra.blogs.sapo.pt/505393.html



quinta-feira, 16 de julho de 2015

a-ver-livros: in-subtil

Não há subtileza
no adeus
agror só e um cheiro 
fétido
a ermo, a pesar
a vazio onde a erva
é daninha
e nem a chuva vai lavar
os cestos da vindima dos dias

Não há aprumo
na despedida
por mais que a queiramos desenhar
assim
a direito

Não há finura
ou perspicácia
engenho ou ardil
que sopre na ferida que arde 
incêndio descontrolado
na estrada que segue
outra direcção

Ana Almeida


quarta-feira, 15 de julho de 2015

a-ver-outras-coisas: David Grossman disse

"Há um milhão de pessoas a ler o mesmo jornal numa sexta-feira à noite e aquele jornal fá-los pensar e parecer iguais; mas quando mil pessoas estão a ler o mesmo livro, se for um bom livro, é lido por cada uma delas de um modo diferente. Um bom livro permite o acesso a diferentes partículas da alma."

David Grossman
in Público - numa entrevista da Isabel Lucas que vale muito a pena ler.
Basta seguir o link http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/como-esquecer-sem-matar-e-como-lembrar-sem-morrer-1701515


Foto de

quinta-feira, 9 de julho de 2015

a-ver-outras-coisas: felicidade é...

A felicidade é também fazer um blog, sim. Este, por exemplo. 

Ana Almeida

felicidário by Júlio Dolbeth Illustration

quarta-feira, 8 de julho de 2015

a-ver-livros: do cansaço

Há no cansaço uma poesia
estranha
um sentir vagaroso
um tempo sem tempo que se arrasta
pela pele
pelo peito

Sobra fadiga no gesto que a mão
não completa
na palavra que os lábios
apenas suspeitam
no beijo que ficou por dar
à sombra da figueira

Escorre lassidão pela nuca
e nem o medo da morte
desperta

Ana Almeida


domingo, 5 de julho de 2015

a-ver-outras-coisas: a poesia dos números 6, Francisco José Craveiro de Carvalho



"Com a ironia fina habitual agradeceu
os parabéns e lembrou-me ser a última vez
que os seus anos eram perfeitos."

Francisco José Craveiro de Carvalho

Um homem da Matemática Aplicada e da Geometria, professor catedrático aposentado, tradutor, entregou-se aos tercetos. Da magia dos números à poesia dos números.Do seu livro "As Sapatilhas de Usain Bolt & Outros Tercetos".

* escolhido por Ana Almeida

sábado, 4 de julho de 2015

a-ver-outras-coisas: a poesia dos números 5, Francisco José Craveiro de Carvalho

"Dezassete dezoito
andorinhas no fio telefónico
não espera dezanove vinte."

Francisco José Craveiro de Carvalho

Um homem da Matemática Aplicada e da Geometria, professor catedrático aposentado, tradutor, entregou-se aos tercetos. Da magia dos números à poesia dos números.Do seu livro "As Sapatilhas de Usain Bolt & Outros Tercetos".

* escolhido por Ana Almeida


sexta-feira, 3 de julho de 2015

a-ver-outras-coisas: a poesia dos números 4, Francisco José Craveiro de Carvalho

"Os dígitos rebelaram-se. 
Papel quadriculado nunca mais. 
Nenhum deles cabia nas quadrículas."

Francisco José Craveiro de Carvalho



Um homem da Matemática Aplicada e da Geometria, professor catedrático aposentado, tradutor, entregou-se aos tercetos. Da magia dos números à poesia dos números.Do seu livro "As Sapatilhas de Usain Bolt & Outros Tercetos".

* escolhido por Ana Almeida