sábado, 18 de outubro de 2014

Ana Catarina Gil Campos: «A Segunda Pele da Acácia Mimosa»

video

Sinopse:

A Sara, uma mulher determinada e ambiciosa, no pico da sua carreira como arquiteta sente um grande vazio interior, uma frustração que a consome apesar de ter uma vida aparentemente perfeita. Assim, desloca-se perturbada a Vieira do Minho, a sua terra natal no norte de Portugal, para procurar ajuda da única pessoa que a pode ajudar, a sua alma gémea. A Sara quer desaparecer da sua vida sem que ninguém perceba! De regresso a Lisboa, vê-se nos meandros da maçonaria feminina onde ser apercebe, em pânico, estar envolvida num caso de corrupção com uma ministra do governo português. O seu casamento também se encontra em crise pois vive de aparências. O casal vive como dois estranhos dentro de casa, completamente desligados um do outro onde a tensão é constante. O Pedro, o seu marido que também é arquiteto, aceita o compromisso de trabalhar em São Paulo e faz-lhe um ultimato: ou vai viver com ele para o Brasil ou o casamento está definitivamente terminado. Desesperada e sem saber o que fazer relativamente à maçonaria, ao seu envolvimento no caso de corrupção e ao próprio casamento, resolve fugir para Barcelona, onde se refugia na casa do seu amigo Barden, alto membro da maçonaria espanhola. Durante estas semanas em Barcelona vai descobrir o verdadeiro segredo maçónico e tomar as decisões mais importantes e determinantes da sua vida.

Biografia

Ana Gil Campos, bracarense que divide o seu tempo entre o Porto e São Paulo, escreve o primeiro romance, A Segunda Pele da Acácia Mimosa. Colaborou com a revista Exame de 2011 a 2013 e escreveu para o Expresso de 2009 a 2014. Mestre em Engenharia Biomédica pela Universidade do Porto, afirma que não escolheu ser escritora mas que foi a escrita que lhe exigiu atenção desde muito cedo como uma necessidade irrequieta e vital. Para si viver é entregar-se de forma nua e sequiosa à escrita. Atualmente escreve o seu segundo romance e dedica-se com regularidade ao seu blog (www.anagilcampos.blogspot.com)

Foto frase do dia: António Lobo Antunes

Pawel Kuczynski: book


Primeiro parágrafo: «O Pintassilgo»

P.V.P.: 28.80 €
Data de Edição: 2014
Nº de Páginas: 896
Editora: Editorial Presença

CAPÍTULO UM
RAPAZ COM CAVEIRA
i.

Enquanto eu ainda me encontrava em Amesterdão, sonhei com a minha mãe pela primeira vez em anos. Já estava fechado no meu quarto de hotel há mais de uma semana, com medo de telefonar fosse a quem fosse ou de sair; e o meu coração batia descompassado até mesmo ao ouvir os sons mais inocentes: a campainha do elevador, o chocalhar do carrinho do minibar, até os relógios das igrejas a darem as horas, de Westertoren, Krijtberg, um toque escuro no clangor, um sentido entretecido de tragédia de conto de fadas. Durante o dia, sentava-me aos pés da cama a tentar compreender as notícias em língua holandesa na televisão, o que era inútil, já que eu não sabia uma palavra de holandês, e, quando desistia, sentava-me à janela a olhar lá para fora, para o canal, com o meu casaco de pelo de camelo por cima da roupa - porque parti de Nova Iorque à pressa e as coisas que tinha trazido não eram suficientemente quentes, nem mesmo dentro de casa.

*in «O Pintassilgo», Donna Tartt

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Meu AMOR


Meu amor traz-me lírios do campo
Lírios do campo
Alecrim aos molhos
Se por sua culpa, chorarem meus olhos.

Meu amor traz-me uma lua cheia
Uma lua cheia
Um sol de Inverno
Que me aquece o corpo quando não está.

Meu amor traz-me peixes do mar
Peixes do mar
Sonhos presos nas redes
Que deixa voar quando eu abro a porta.

Meu amor traz-me beijos nas mãos
Beijos nas mãos
Estrelas que brilham
E que pendura no tecto do quarto.

Meu amor traz o sopro do vento
O sopro do vento
O canto da chuva
Com que me embala o sono dos dias.

Meu amor traz as malas nas mãos
As malas nas mãos
A roupa do corpo
Que despe e arruma no armário do quarto.

Nicolás de Staël, Barcos, 1955

Ana Catarina Gil Campos: Reflexão sobre a leitura…

Desenho da autoria de Ana Catarina Gil “Trazer a voz interior para a própria vida”

Reflexão sobre a leitura…

Para se poder ler é necessário aprender a ler. Este é o primeiro passo que não é acessível a todos e quem o tem esquece-se do seu valor. Ler é um direito que nos entrega dignidade e é um dever que nos leva à liberdade. Depois de se aprender a ler é necessário ler muito para sabermos distinguir sozinhos o bom do menos bom, o muito bom do bom. Depois de termos esta capacidade crítica, de uma forma muito pessoal, podemos aprofundar os nossos conhecimentos naquilo que nos cativa, que nos suscita curiosidade, com que nos identificamos e que nos permite evoluir. Por isso, ler é evoluir, passo a passo através da leitura.
Para além da leitura nos fornecer conhecimento, permite-nos sentir através das mãos dos outros, ver através de outros olhos, sentir por outros lábios, escutar sons que ainda não conhecemos, conhecermos ou revisitarmos lugares através de histórias que não são nossas, sentirmos contextos e emoções através dos passos das personagens, reagirmos com eles ou contra eles. Ler permite-nos conhecer estes seres tão complicados que somos cada um de nós, observar o comportamento dos outros com outra atenção, antecipar comportamentos, ver a nossa vida aqui e ali, refletir noutras opções e perspetivas que ainda não conhecíamos. Ler permite-nos viver infinitas vidas dentro da nossa própria vida, uma oportunidade que só tem quem conhece este segredo tão óbvio que a leitura fornece. Aquilo que parece fazer-nos viver vidas paralelas e irreais, faz-nos conhecer a realidade na sua forma mais extensa, permitindo-nos viver realmente a nossa vida. Ler potencia-nos os sentidos e o raciocínio.

*Ana Catarina Gil Campos

Foto frase do dia: Miguel Sousa Tavares


Poesia em matéria fria: Casimiro de Brito

Siga a página no facebook: https://www.facebook.com/poesiaemmateriafria

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Para o Alexandre O'Neill


Chegou o Verão
De avião
Cheio de pressa
Parece atrasado
Porque ainda chove
No chão molhado.

As negras asas
Assim pintadas
Tão pouco aladas
São só e apenas,
para fazer inveja às
primaveris andorinhas.


Ana Catarina Gil Campos: Alguns poemas da minha autoria...

Balanço amor perfeito

Balanço amor perfeito
que num ímpeto de madeira maciça
ora se agita
ora se endireita
ora se perde num balanço sem jeito.
Assento de dois lugares
balanço de dois assentos
qual deles o perfeito?
Aparece um passarinho
que não foi aqui chamado.
Impertinente, salta de um só pulo
para o doce assento tão sossegado.
Um pulo sem balanço,
um quase que não chega a ser,
um tanto que é mais do que é,
e, um pouco menos, não seria tanto.

Saudade
Som gritante em silêncio,
ânsia por se ter o que não se tem numa
urgência que arranha por dentro.
Desejo não escolhido,
angustia que se escreve na alma,
dor que aperta sem se ver
e não ter força para a conter.

A peça caiu

C
   a
      i
        u

Ouvi o barulho
de cacos p a r t i d o s no chão.
                        os cacos
                     i
                  e
              t
          n
       a
    v
  e
L

juntei os pe-da-ços
colei-os pela ordem que tinha de ser.
A peça apareceu
igual ao início
partida entre os cacos unidos.
               c
                    a
                        i
A peça               u.

*Ana Catarina Gil Campos

Desenho da autoria de Ana Catarina Gil Campos: “Guardamos poemas só nossos”

a-ver-livros: código da estrada

Estaciono a vida em segunda fila
tenho pressa
de demorar-me 
na sombra dos teus braços
Suspendo a corrida
cesso a disputa
entre a luz e o som
há um lugar vazio
apinhado 
de beijos
sem multa


Ana Almeida

*

Já temos vencedores! Passatempo «Brasil», de Neill Lochery

P.V.P.: 19,90 € 
Data de Edição: 2014
Nº de Páginas: 432
Editora: Editorial Presença

Parabéns Diogo Fernandes, Ana Paula Oliveira e André Silva, são os vencedores do passatempo «Brasil». Cada um vai receber 1 exemplar do livro!

O que têm que fazer agora? Contactar o blog para sabermos a vossa morada! Procurem-nos no facebook (na página ou no grupoou enviem email para: blogueclubedeleitores@gmail.com

O que se pedia era relativamente simples, responder ao seguinte - O que mais gosta no Brasil? Porquê?

E estas são as respostas vencedoras, com grande mérito. Parabéns!

Diogo Fernandes

O que mais gosto no Brasil são as pessoas. A vida. A descontracção. A despreocupação. A alegria de viver. Todos estes ingredientes fazem da população brasileira a mais carinhosa, amável e prazerosa de se conviver. Impossível não sorrir com um brasileiro. Impossível ficar triste junto de um brasileiro. De uma forma sempre "bacana" e "legal", os dias passam mas a mentalidade não regride. O povo brasileiro continua jovem, vivo e "bem lá no alto". Com os brasileiros aprendemos a viver a vida como deve ser vivida: com vida.

Ana Paula Oliveira

Sob o céu azul, estendem-se quilómetros de areia branca, abraçada pelo mar e por frondosa mata, que conduzem à pequena e formosa vila piscatória cujos restaurantes, lojas e feiras de artesanato maravilham os turistas com o seu toque de rusticidade sofisticada. Biodiversidade, beleza natural e encanto moram na Praia do Forte.
O mar, que acorda nervoso, vai relaxando ao longo do dia. Ao final da tarde, completamente calmo, alonga-se, lânguido, e mostra todo o seu esplendor. 
Este é o local certo para fugir ao ruído e à confusão. Onde silêncio, calma e paz rimam com calor, boa disposição e festa. E, para alimentar a festa, apenas a 60Km, a cidade de S. Salvador da Bahia, de flagrantes contrastes e cheia de História, envolve quem lá chega. Logo nos deixamos seduzir pelo ritmo dos berimbaus e pela alegria da capoeira, pelo odor e sabor da fruta, pela cor das baianas e das paletas dos pintores, pela música saída dos sinos das inúmeras igrejas. Mas a maior emoção é o encontro com Jorge Amado cuja presença se sente e se toca e se respira.
- Sorria, você está na Bahia – dizem-nos.
E é impossível não sorrir, não dançar, não conversar, não beber uma agradável caipirinha, não saborear um delicioso sorvete de frutas exóticas, não encher a alma com tanto que este cantinho do paraíso tem para oferecer.
Não conheço outros lugares cariocas, mas Brasil é isto. Sinto-o. 
(texto adaptado de um que escrevi em 2011 e publicado na revista Fugas)

André Silva

Adoro no povo brasileiro a sua vivacidade,
E a sua alegria é de alucinar,
E já desde tenra idade,
Que esta cultura quero experienciar!

No Brasil adoro o clima e o seu calor,
E no seu povo a sua boa disposição,
Um dia quando lá for vou percorrer com fervor,
Os seus recantos de manhã ao serão!

E esta obra quero muito ter,
Para os meus conhecimentos do Brasil preservar,
E aqui prometo que se vencer,
Corro de Paredes até Ovar!

*O vencedor terá que enviar-nos a sua morada. Em caso de não o fizer, o Clube atribuirá o livro a outro(a) finalista. Fique atento!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Os teus OlhOs



Os teus olhos
lembram-me tardes
de solidão,
com sóis laranja,
morrendo encarnados,
corpos cremados,
cinzas ao vento
e o vento bordado
forno, morno.

Tardes
de águas calmas,
poços de lágrimas,
que deixaram nos meus lábios
o sabor a maresia,
a malvasia,
à viagem à Turquia
que nunca fizemos.

Solitários,
os meus lábios em ferida
que entretenho a whisky,
a cigarros
ao chá de hortelã que bebias,
duas no cravo,
uma na amargura,
lembram um cacto,
dois cactos,
três cactos,
a murchar,
à tua espera.

Anda, volta e traz teus olhos
impede o tempo de me envelhecer.


Gonçalo Viana de Sousa - o Flâneur das Sensações



Meu querido José

Escrevo-lhe hoje,pois amanhã partimos até Bordéus, como lhe prometi.
Faça o que quiser com mais esta impressão dos Cadernos de Nicosia.
O anonimato, só isto lhe peço, como sempre.
E como sempre, 

Muito seu e até breve

Gonçalo V. de Sousa.

"Sonhos suaves"

Que me interessa possuir um grande tesouro em dinheiro se nada substitui este perfume de um doce azul? Não adianto o meu passo para abraçar riquezas ou glórias, todas elas vãs, apetecíveis sim, mas efémeras. Talvez para um jantar, como Carlos e Ega, seja capaz de apressar o passo, mas para a glória de estante, feita de pó e corroída pelo esquecimento, não. Devo ser assim, anónimo, viajando com um vagar ligeiro, como um turista que conhece as coisas e o mundo. Se por fora ou por dentro, isso não interessa.
Grandes capitais europeias, todas elas, Paris, Berlim, Londres, Viena, Roma, Amesterdão, Moscovo e todas as cidades países, parecem, vistas daqui, da varanda do meu quarto de hotel, tão pequenas como aqueles jacintos brancos e azuis. Sim, o mundo é um campo de flores, de lírios e rosas e jacintos e gerberas e girassóis e malmequeres e bemequeres.
Consegues sentir-te nesse mundo de flores, Efraim? Fecha os olhos, amigo. Fecha os olhos e vem comigo.
O vento sopra suavemente, como uma carícia leve e doce, enquanto as mãos parecem embalar os campos coloridos de flores perfumadas e frescas. Mais à frente ouve-se o respigar do trigo, como um lamento seco ao sol, colhido pelas tardes de um Abril que só existe para quem acredita nas coisas belas. Acreditas nas coisas belas? Acredito eu nas coisas belas?

Acreditamos nós nas coisas belas?

Nesse mundo onde é sempre Abril ou Março ou Maio, Efraim, não há necessidade de contar a sucessão dos dias, dos meses, dos anos. O tempo não existe ou, se existe, é de uma forma diferente, sentida através do toque natural das coisas, no cheiro líquido de céus claros e redentores.
Haverá pequenas aldeias, com certeza. E cal nas paredes rústicas onde se guardam as sementes e os rebanhos. A máquina existe de uma forma verdadeiramente necessária, ou seja, para aquecer a água, para nos proteger do frio, para conservar a comida, pouco mais. O mundo existe dentro deste mundo que por vezes teimo em visitar, Efraim.
Sei que tudo isto são sonhos suaves, sonhos sonhados em noites de ócio em varandas de hotéis cosmopolitas que bafejam o mundo com o ar quente e industrializado deste século XX desiludidoSomos o século da desilusão. Da mesma forma que o meu pai me dizia que este século XX era o da desilusão, o meu bisavô disse a meu pai que o século dele fora o do Progresso e da Igualdade. Bem vistas as coisas, foram dois séculos de desilusão, que tinham tudo para ser os maiores e os melhores séculos na história da humanidade. Não por causa do avanço tecnológico, mas sim pelo crescimento e florescimento da nossa consciência de seres com direitos inalienáveis, fundamentais, inevitáveis.
A semente caiu em terra seca. Vieram as revoluções, as comunas em Paris e os levantamentos pela Grécia, Itália, Polónia, Irlanda, Prússia e tantos outros lugares. Vieram os pessimistas e os niilistas. Veio a Guerra em escala industrialmente capitalista, por duas vezes. E a humanidade não cresceu nem regou a semente que caíra da árvore da Liberdade, que parecera nascer já podre. Ganhara a ciência e a humanidade perdera, sempre.
Mas nada disto me faz sorrir com aquele esgar doce e redentor que se tem quando fechamos os olhos e voltamos àquele campo de flores, escutando a dança do vento. Sonhos suaves. Ao longe, uma mulher de cabelos negros, soltos, de vestido também florido, como se o mundo fosse um prolongamento dos seus braços, dos seus olhos, do seus lábios carmim. Leva uma cesta com cravos no braço esquerdo e parece dançar e saltar com a voz do vento que a parece conhecer desde o início dos tempos. Sonhos suaves. Caminho ao encontro daqueles cabelos, daqueles braços, daqueles olhos, daqueles lábios.
Já sinto o odor daquela pele que são mil fragrâncias desconhecidas pelos mundanos que vivem com os olhos de fora. Ela dança com seres invisíveis que a compreendem melhor do que qualquer poeta ou músico. Tudo isto são sonhos suaves.
Ela olha-me até sempre e sorri.

Eu acordo.

Sabemos bem quem era ela, Efraim…


Agora, desliga a música, basta de Träume por hoje, e talvez para sempre.

Ana Catarina Gil Campos: Sobre o ofício de ser escritor…

Sobre o ofício de ser escritor…

Há vários tipos de escritores e, dentro de cada tipo, cada escritor vive a escrita à sua maneira, por isso, vou escrever o que é, para mim, ser escritora. Fui educada para tirar um curso superior que me possibilitasse ter um emprego estruturado e isso fez com que nunca tivesse visto a escrita como uma possibilidade de ser a minha atividade profissional. Contudo, sempre escrevi mesmo antes de saber escrever quando brincava com as letras. Juntava aleatoriamente algumas letras escrevendo-as num papel e perguntava aos meus pais se aquela palavra existia no mundo dos adultos. Por vezes tinha sorte, noutras nem tanto. Depois de aprender a escrever, a brincadeira de juntar letras passou a ser a minha verdadeira e libertadora forma de me expressar, diariamente, em folhas soltas de papel que guardava só para mim. Foi em Agosto de 2010 que comecei a pensar seriamente no sentido da minha vida, numa crise saudável de existencialismo, e percebi aquilo que era tão óbvio: não há nada na vida que me realiza mais do que escrever. Foi a partir dessa iluminação que me permitiu ver como sou, que me assumi socialmente como escritora e nunca me senti tão genuína como a partir desse momento, como se tivesse regressado a mim. Esta pura forma de respirar permitiu-me sentir-me, ver-me e mostrar-me como realmente sou. Por isso, para mim a escrita não é um ofício, não foi algo que escolhi para mim, apenas escolhi aceitar aquilo que me escolheu. Todos os meus sentidos estão ligados à escrita, voluntariamente e involuntariamente, como se fosse um órgão vital tal como o coração, os rins ou o fígado. A escrita para mim é uma paixão, uma entrega, uma necessidade.

 Desenho da autoria de Ana Catarina Gil Campos - “Sentir é querer ser"

a-ver-Alice: nos armários da noite

Hoje é dia de ir dar um beijo à Alice Vieira. 
E dizer-lhe que tem um armário só dela na casa do meu peito.

O lançamento do livro de poesia "Armários da Noite", o terceiro do seu rol, é daqui a pouco, 18h30, na livraria Bucholz, em Lisboa. O livro já está nas livrarias por aí. Agarrem-no sem medo. 

Ana Almeida

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Alice Vieira, Sintra 2011
foto: Ana Almeida
"esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos e
um telefone se debruça de
uma qualquer janela

sinto que ainda ficou uma
palavra minha esquecida na
tua boca e que
vais voltar
para
a
devolver
"


Alice Vieira
in "Os Armários da Noite"



Alice Vieira nasceu em 1943 em Lisboa. Desde 1979 tem vindo a publicar regularmente livros tendo, editados na Caminho, mais de cinco dezenas de títulos. Recebeu em 1979, o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança com Rosa, Minha Irmã Rosa; em 1994, o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra. Foi indicada, por duas vezes, como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen (o mais importante prémio internacional no campo da literatura para crianças e jovens). Alice Vieira é uma das mais importantes escritoras portuguesas para jovens, tendo ganho grande projeção nacional e internacional. Foi igualmente apresentada por duas vezes, como candidata ao ALMA (Astrid Lindgren Memorial Award). (in http://www.caminho.leya.com/pt/literatura/poesia/os-armarios-da-noite/ )

Rui e Cláudia mostram-nos que «É possível»

"É possível" é um livro de 108 páginas, que relata episódios verídicos, mais ou menos caricatos, de um percurso de vida, desde o nascimento até aos dias de hoje. O livro partilha a alegria e a tristeza.
A personagem principal é Rui Bernardino. Dotado de uma personalidade fortíssima, embora por vezes ingénuo, Rui revela a forma muito própria como vem lidando com uma vida condicionada pela cadeira de rodas. O livro destaca os pilares principais deste percurso: o tio Tó, também portador de ataxia de Frierdeich e a principal referência do Rui, Miguel Abrantes, o melhor e fiel amigo até aos dias de hoje, e a esposa Michelly Abreu. "Como os últimos são os primeiros", ela é sem dúvida a sua maior força. Este livro é inspirador. Ele mostra que ser feliz só depende da nossa atitude, além de motivar todos os leitores a encontrarem o que de melhor têm para dar aos outros.

Todo o caminho do Rui é cheio de "coisas" diferentes. Hoje com um grau de incapacidade de 95%, sente as suas forças renovadas pela filha e pelos "ares" da cidade. O melhor ainda está, certamente, por vir!

Bem hajam pela sua leitura."

*Rui Bernardino


Visite a página do livro em: https://www.facebook.com/livro.epossivel

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Precisava


Precisava de um lugar
para dormir esta noite.
Precisava de inventar o silêncio
entre o terror e eu própria,
fechar a porta
ou abrir a porta,
insultar a lua, ultrajá-la,
puta velha em que todos confiamos,
que finge que nos ouve, para adormecermos tranquilos,
que desaparece antes de acordarmos,
mas volta,
como voltam a tristeza,
cada vez mais triste
e sem paciência para lágrimas.
Mas volta,
como voltam os amantes,
que nos fazem infelizes.


Ana Catarina Gil Campos: Poema de que gosto muito…

Foto de Ana Catarina Gil Campos: técnica de sobreposição em que na
fotografia de fundo aparece o edifício Copan de Oscar Niemeyer

Invernáculo

Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quando o sentido caminha,
a palavra permanece.
Quem sabe mal digo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é a minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialecto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

*Paulo Leminski

a-ver-livros: memória

Três palavras 
apenas.
Poema.
Mil almas
unidas.
Poesia.
O som vago
da tua voz. 
Memória.

Ana Almeida

* para saber mais sobre o pintor venezuelano Armando Barrios
siga o link wiki_artevenezolano/index.php/Barrios,_Armando

Primeiro Parágrafo: «Brasil», de Neill Lochery

P.V.P.: 19,90 € 
Data de Edição: 2014
Nº de Páginas: 432
Editora: Editorial Presença

CAPÍTULO I
A GÉNESE

Alzira Vargas do Amaral Peixoto era detentora de uma beleza tão natural e de uma tão forte vitalidade que quase todos os homens com quem se cruzava sentiam por ela uma atração sexual. À semelhança do pai, não era alta, mas as maçãs do rosto delicadamente esculpidas, o elegante bico de cabelo na testa, os sensuais lábios carnudos e os penetrantes olhos escuros eram atributos mais do que suficientes para compensar a estatura baixa. No entanto, era o sorriso de Alzira que desarmava a maior parte dos homens. Era um sorriso que se desenhava tanto nos olhos como na boca, iluminando os espaços onde entrava e animando os espíritos mesmo dos mais imperturbáveis homens do Exército e da polícia - da nação brasileira e daqueles que eram oriundos de outros países. Quando estava bem-disposto, Getúlio Vargas, o pai, retribuía-lhe o sorriso com a expressão de absoluto júbilo que os pais reservam ao filho predileto.

*in «Brasil - a segunda guerra mundial e a construção do Brasil moderno», de Neill Lochery

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Aves de incêndio

Fui o Verão por que esperavas
a cada Inverno,
as tardes infinitas,
os passeios de mãos dadas,
uma só a sombra no chão.

Lábios que não sabiam beijar,
que aprendiam a beijar
que beijavam por tudo e por nada.

Sofregamente
por tudo e por nada.

O corpo a arder,
os pés descalços,
o chão em chamas.

Era Verão,
a estação dos incêndios,
os fogos por apagar,
as flores na pele a queimar.
É sempre Verão
quando os corpos
se despem assim.

As noites insones.
As luas enormes.

Nocturna,
dançavas comigo,
até ao romper da aurora.
Dizias sempre bela aurora,
como a canção
e não gostavas de dançar,
porém comigo,
por mim,
dançavas.

E a dançar
chegou a tarde no nosso adeus,
uma tarde igual a todas as tardes
sem nuvens no céu ou ameaças de chuva,
apenas levemente mais fria,
porque já Outono
e nós aves de uma só estação,
aves de incêndio.