sábado, 20 de junho de 2015

sexta-feira, 19 de junho de 2015

a-ver-livros: no princípio era o riso



Suave o som do riso
na distância, à sombra do tempo
fértil

fruído no abraço terno
do embate de karmas
do conflito entre lágrimas
e voos roubados às aves
da contenda grito versus versos
do medo que o gesto
embote
o que resta da ilusão de ser ainda
o antes do que somos hoje
o princípio
 
Ana Almeida

* para conhecer mais do trabalho da pintora australiana Lori Penini
siga o link loripensini.com

O poema abraço de Murilo Mendes


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações




Meu querido José


Escrevo-lhe a bordo de um cruzeiro que zarpa o vento e os céus até Malta. Sinto-me um Álvaro de Campos do Opiário, veja lá, jovem frenético! Escrevo-lhe numa das “pracetas” do cruzeiro. (Este barco mais parece uma cidade náutica, anfíbia, pois imenso é o luxo e o conforto. Por vezes nem me apercebo que me encontro num navio, pois a oscilação do mar não existe. Só temos a sensação, infinita e líquida, do céu e do mar, azuis e racionalmente labirínticos. Efraim adora estas viagens a bordo. Eu vou bebendo o que tenho para beber. Não fumo, como sabe. Nunca acreditei na estética do charuto ou do cigarro. Esse “habano” que tanto glorifica pelos seus poderes feéricos são para mim veleidades. Não preciso deles para criar o meu efeito, para ter as minhas gratificações interiores. Além do mais, o álcool deixa-nos mais perto dos deuses. O tabaco engana-os, pois estes vêm descendo de mansinho, pensando que estão a ser ofertados e louvados quando, na verdade, estão a ser ludibriados e esquecidos. Distantes vão os tempos da mirra e do incenso e das ervas das montanhas. Presente é a era dos “oásis de inutilidades” não somente ruidosas, mas também hedonistas e pseudo-tudo e nada.
Quando receber esta missiva estaremos a chegar a Malta, no dia em que o sonho napoleónico acabou. Sei que tem uma certa predilecção pelo pequeno sujeito que chegou a grande líder. Olhe que essa sua posição, na sua idade, pode ser problemática, pois tanto será visto como megalómano, por um lado, e pseudo-intelectual, por outro. Mas, como o conheço, isso pouco lhe interessa. Junte-se ao clube. (Mas deixe o “habano” de lado, pois não aguento com esse colonial odor!).
Desta vez pensei em enviar-lhe mais um sonho literário que tive, a bordo, na noite passada, enquanto o navio dormitava nas praias da Sardenha. Mas ficará para outro momento. Posso adiantar-lhe que era um sonho de bigodes e monóculos e cigarros. Muitos e pensativos. Penso que já descortinou de quem falo.
Pois bem, volto a um pensamento anterior. Dizia-lhe que havia de receber esta missiva no futuro da minha escrita, que será o passado da sua leitura. Note bem: escrevo num presente que é só meu pois somente a mim mo é permitido viver para que o José o possa ler num futuro que será só seu. Deste modo, passado, presente e futuro não se conjugam, não são um só. Apresentam-se simultaneamente, mas não correlativos, mas não em simultâneo. Talvez sobrepostos.
É interessante toda esta problemática do tempo, jovem dos ideais luminosos e frescos.
E quando ler estas palavras (re)criará todo o meu passado a escrever, sentado numa das “pracetas” deste cruzeiro, assim como eu o imagino, de antemão, concebendo todos estes gestos, os meus e os seus, sobrepostos no tempo, no espaço e na vida.
O sol aperta e as tardes têm a justiça de um calor filho de algum dragão wagneriano.
Assim, quem estará mais próximo da verdade? Eu, que escrevo no seu passado, no meu presente e que o imaginarei no futuro? Ou o José que me lerá no seu futuro que será o meu passado que jamais seria o seu presente? Demasiada filosofia! Ainda para mais a bordo de um paquete tão chic!
Efraim já gastou mais do que devia nos jogos de casino. A sorte dos semitas é que o dinheiro é para eles como a terra prometida: um lugar fértil onde jorram e gorgolejam a farinha e o mel dos rochedos.
Hei-de visitar a Grécia, essa Hellas esplêndida como uma rocha granítica. A Democracia há-de triunfar, meu caro. A Europa abrirá os olhos, como sempre, tarde demais. Mas a Grécia prevalecerá. (Assim como o dinheiro e a usura).
Teremos de visitar, com uma obrigação à la Kant, que é como quem fala de imperativos categóricos!, o templo de Delphoi, caro jovem dos mitos “post-românticos”: Terminei há dias a leitura daquele seu conto a propósito de Anteu. (…) É o que lhe digo sempre. Continue e apareça mais vezes!
Bom, a missiva vai longa e devo procurar o formidável Efraim, pois hoje é noite de jantar italiano.
Beba, (deixe os habanos), viaje e ame.
Deste seu


Gonçalo V. de Sousa.

Eu poético: «Palavra»

PALAVRA

encontrei a palavra que não nos caracteriza,
que não nos faz justiça,
que há muito não nos acompanha.

procurei, procurei bem fundo.
               -----
               ----
               ---
               --
               -
tentava perceber se era de mim,
se a chama brotava mais coxa,
se o dia tinha mais horas de escuridão
do
que
de
luz
++++
++ (e desejos infinitos de sol)
++++
+

mas só me guiavam as imagens do sorriso que fomos,
da mão dada no cinema,
do copo de vinho naquele primeiro dia.
lembras-te daquele barquinho no meio do lago?
(quando lançávamos pão aos patos e às gaivotas)
recordas o longo beijo no meio da multidão?
(...)
~~~~~~~~
~~~ perguntas atiradas ao vento ~~~
~~~~~~         ~~~~~~
~~~
~~~~~ nas lembranças escuto aquela música que te cantava ao ouvido e te fazia corar de alegria.
sinto ainda o calafrio subir-me pela espinha, imaginando o beliscão que me davas na coxa quando te atacava com os meus monstruosos dedos, mascarados de cócegas.

onde andam os nossos super-poderes?
onde se esconde a fórmula dois-em-um?
2=1
1=2
onde? onde?
tu »»»
já não és habitante desta ilha deserta,
tu »»
já não és a pessoa anã no país dos homens altos.
tu »

já não és única.

«««
««
« e eu...
eu deambulo pelo casario que serpenteia as ruas estreitas,
vendo nascer o dia
por detrás do castelo
                                   ----------------------------------------------
----------------------------------------------
                                                             ----------------------------------------------
                  ---------------------------------------------- perco-me e já não sei onde mora o coração
                                                                                                      ----------------------------------------------
                                                                       ----------------------------------------------
                           ----------------------------------------------
---------------------------------------------- percorro o caminho até à casa onde moro só

AMOR,
encontrei a palavra que não nos une.
sabes bem
.........................................
:.
:.:.
:.:.:.
que
só podia ser
:.:.:.
:.:.
:.
r
e
c
i
p
r
o
cidade.

Rodrigo Ferrão

Foto: Rodrigo Ferrão

quarta-feira, 17 de junho de 2015

a-ver-outras-coisas: Ler pode tornar-nos mais felizes?

Sem tempo para poetar, deixo o espírito vaguear e dou de caras com um artigo da "The New Yorker" de 9 deste mês. Biblioterapia? Isso existe, pensei para comigo, assim a modos que distraída. Tive que ir aprofundar. Pois, ao que parece, o termo aparece em 1916 e surge depois como conceito clínico em 1943 pela pesquisadora americana Caroline Shrodes. Na prática, é um termo bastante lato para a prática de encorajar pessoas a ler para efeitos terapêuticos. * 

Adiante, que deixo apenas pistas. O importante é o belíssimo artigo que li na revista, assinado pela antropóloga e escritora Ceridwen Dovey - que se questiona: Ler pode tornar-nos mais felizes? Segue-se um spoiler: a pergunta fica sem uma resposta concreta, preto no branco. Porque dela não precisa. 

Deixo-vos os primeiros parágrafos [no original inglês, é verdade; um dia que esteja cheia de tempo venho aqui e traduzo, prometo] e a ligação para lerem o resto, que é um pouco mais longo do que o tempo que dispomos para um café mas que se dispende calmamente ao final do dia, antes de pensar em ir dormir. Não vão dar o vosso tempo por mal empregue, acreditem.

Curiosidade: o livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de Saramago, é mencionado.

Ana Almeida

"Several years ago, I was given as a gift a remote session with a bibliotherapist at the London headquarters of the School of Life, which offers innovative courses to help people deal with the daily emotional challenges of existence. I have to admit that at first I didn’t really like the idea of being given a reading “prescription.” I’ve generally preferred to mimic Virginia Woolf’s passionate commitment to serendipity in my personal reading discoveries, delighting not only in the books themselves but in the randomly meaningful nature of how I came upon them (on the bus after a breakup, in a backpackers’ hostel in Damascus, or in the dark library stacks at graduate school, while browsing instead of studying). I’ve long been wary of the peculiar evangelism of certain readers: You must read this, they say, thrusting a book into your hands with a beatific gleam in their eyes, with no allowance for the fact that books mean different things to people—or different things to the same person—at various points in our lives. I loved John Updike’s stories about the Maples in my twenties, for example, and hate them in my thirties, and I’m not even exactly sure why.

But the session was a gift, and I found myself unexpectedly enjoying the initial questionnaire about my reading habits that the bibliotherapist, Ella Berthoud, sent me. Nobody had ever asked me these questions before, even though reading fiction is and always has been essential to my life. I love to gorge on books over long breaks—I’ll pack more books than clothes, I told Berthoud. I confided my dirty little secret, which is that I don’t like buying or owning books, and always prefer to get them from the library (which, as I am a writer, does not bring me very good book-sales karma). In response to the question “What is preoccupying you at the moment?,” I was surprised by what I wanted to confess: I am worried about having no spiritual resources to shore myself up against the inevitable future grief of losing somebody I love, I wrote. I’m not religious, and I don’t particularly want to be, but I’d like to read more about other people’s reflections on coming to some sort of early, weird form of faith in a “higher being” as an emotional survival tactic. Simply answering the questions made me feel better, lighter.

Ilustração de Sarah Mazzetti para a "The New Yorker"

We had some satisfying back-and-forths over e-mail, with Berthoud digging deeper, asking about my family’s history and my fear of grief, and when she sent the final reading prescription it was filled with gems, none of which I’d previously read. Among the recommendations was “The Guide,” by R. K. Narayan. Berthoud wrote that it was “a lovely story about a man who starts his working life as a tourist guide at a train station in Malgudi, India, but then goes through many other occupations before finding his unexpected destiny as a spiritual guide.” She had picked it because she hoped it might leave me feeling “strangely enlightened.” Another was “The Gospel According to Jesus Christ,” by José Saramago: “Saramago doesn’t reveal his own spiritual stance here but portrays a vivid and compelling version of the story we know so well.” “Henderson the Rain King,” by Saul Bellow, and “Siddhartha,” by Hermann Hesse, were among other prescribed works of fiction, and she included some nonfiction, too, such as “The Case for God,” by Karen Armstrong, and “Sum,” by the neuroscientist David Eagleman, a “short and wonderful book about possible afterlives.

Leiam o resto do artigo aqui.
Saibam mais sobre biblioterapia aqui.

O Clube entrevista os leitores - Andrea Duarte



Rodrigo - Como descobriste o Clube de Leitores?
Andrea Duarte - Através da minha amiga Márcia

- O que te chamou mais à atenção nesta comunidade? 
- Adoro ler, logo tem tudo a ver comigo.

- O facto de todos os bloggers serem também escritores é algo que te entusiasma? 
- Sim. Textos originais. Novas descobertas.

- Este blog veio mudar alguma coisa na tua vida de leitora? Recordas-te de alguém que tenhas conhecido e que tenha valido a pena? 
- Na minha vida de leitora... não sei... amo ler... já amava. A Ana Almeida, gosto muito dela. Uma vez li um poema dela que me tocou muito. Identifiquei-me com ele, deixa ver se o encontro...

"Não me metas na caixa
abraça-me 
não me coles a etiqueta 
aceita-me assim 
ontem louca 
hoje sábia 
amanhã apenas ali 
sentada contigo aos pés 
livro nas mãos 
absolutamente livre 
de ser quem nunca fui 
antes e jamais 
serei depois" 

Ana Almeida

Lindo!

- Como foi passar do mundo virtual ao mundo pessoal com algumas pessoas que conheceste através do Clube de Leitores? 
- Só aconteceu com a Ana, a Márcia já conhecia. Nós as duas fomos amigas de face em determinada altura, mas nunca falamos. Não aconteceu :)

- Tens alguma história que te tenha marcado – quer através de um post no blog ou de alguma pessoa envolvida na sua dinamização? 
- Acho que já respondi a esta com o poema da Ana. Sempre à frente... ah ah ah ah ah

- Com que frequência visitas este espaço? 
- Houve uma altura em que me afastei. Nada relacionado com o espaço mas com a minha vida pessoal, que já "deu" imensas voltas. Acho que agora mais... do que uma vez por dia.

- Como vês este projecto dentro de alguns anos? Sentes que ainda existe muito para se discutir? 
- Vivo e bem. Claro que existe muito para discutir... cada pessoa é um mundo e pessoas que gostam de ler têm mundos inteiros dentro delas!

- Numa frase: O Clube é…
- O Clube é… o meu cantinho especial...

*Rodrigo Ferrão entrevista os leitores do blog, nos 5 anos deste projecto. 
Andrea Duarte é uma leitora atenta do nosso espaço

terça-feira, 16 de junho de 2015

reanimação

um coração à míngua
sobre um canteiro deserto
desconhece a língua das flores

os dedos por dentro da raiz
falam-lhe dos desígnios do peito
entre o rubro da carne a reanimação

só o sangue reconhece as artérias
da terra a que se ramifica o abraço.

Helder Magalhães

Stitched to my heart

© Anna O.

É do borogodó: poeminhas para crianças crescidas

E havia os dias em que me chamavas paisagem
E era só um sopro que ondulava a saia
Curvas sinuosas da renda cortina que insinuava o quarto
Por onde brincávamos de ser somente nós dois.


Penélope Martins
(em Lisboa)



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Morrer é mais difícil do que parece - o texto de Paulo Varela Gomes

Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.

São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.

Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.

Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.

Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo.

Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca.

Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo. Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer.

Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres.”

Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses.

Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos.

Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.

A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos.

Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer.

As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos.

Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…”

Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?

A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.

Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso.

O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães.

Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde.

E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado.

Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta.

As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe.

Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.

Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte.

O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para de se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se.

Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror. Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era.

Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?

Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore.

Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé.

Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias:

“Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.

S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015
Paulo Varela Gomes,
revista GRANTA - n.º5

foto tirada daqui

a-ver-nos-livros: fechar a feira

Ontem foi dia de ver-nos. Uns aos outros. Na Feira do Livro, em Lisboa, último dia, estivemos alguns reunidos, com pretexto e sem medo da chuva impiedosa que, surpresa, se suspendeu para o abraço.

A escritora Alice Vieira autografava. Penélope Martins, a nossa ponte borogodeira, atravessou o Atlântico para contar um conto de Alice com cheirinho a Brasil e a guitarra de Joel CostaMar. O Rodrigo Ferrão trocou o seu Porto pela capital por uns dias. E de repente eramos mais e sorriamos. 

Ficam algumas fotos. Um mini-video. Um registo para a posteridade de um momento feliz. Vai haver mais, claro que sim. 

Ana Almeida

Ana Almeida e Alice Vieira

Joel CostaMar e Penélope Martins contando a "Arca do Tesouro",
de Alice Vieira, às crianças na praça Leya

Penélope Martins, Rodrigo Ferrão e Ana Almeida

Alice Vieira a autografar e, em segundo plano, Rodrigo Ferrão,
Paula Antão, Penélope Martins e Gina Matos

Em segundo plano, a chegada de Catarina Fonseca, jornalista, escritora e filha de Alice Vieira,
no abraço a Paula Antão

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