sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Poema à noitinha... Jayro José Xavier

Essa Chuva de Inverno

Essa chuva de inverno, que fluía
por entre a verde várzea derramada,
já não flui sua linfa em terra fria,
que quente está do sal de que é salgada.
Aqui eterna é a chuva, e não se adia,
e a mudança das coisas proclamada:
só a terra de fértil não vê dia,
que só a água em mágoa vê mudada.
Aqui, de malogradas esperanças,
vive o povo sem crença em tais mudanças,
no fecundo milagre dessa guerra
— que, estando a Natureza em guerra tanta,
não nos transforma a chuva o pranto em planta,
e mais se chore, é mais salgada a terra!

*Jayro José Xavier, in Idade do Urânio

Foto frase do dia: Paulo Leminski

Poema de Leminski

a-ver-livros: caprichos

Viagem no tempo
ao tempo em que fui
quem nunca cheguei a ser
simulado o passado
suspenso o futuro
vivo no gerúndio do tomo
ao alcance da mão
capricho feliz
da infância

Ana Almeida

* para saber mais sobre Anna Speshilova / Ann Weaver
siga o link http://annweaver.deviantart.com/

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Poema à noitinha... Soror Violante do Céu

Enfim Fenece o Dia

Enfim fenece o dia,
Enfim chega da noite o triste espanto,
E não chega desta alma o doce encanta
Enfim fica triunfante a tirania,
Vencido o sofrimento,
Sem alívio meu mal, eu sem alento,
A sorte sem piedade,
Alegre a emulação, triste a vontade,
O gosto fenecido,
Eu infelice enfim, Lauro esquecido...
Quem viu mais dura sorte?
Tantos males, amor, para uma morte?
Não basta contra a vida
Esta ausência cruel, esta partida?

Não basta tanta dor? tanto receio?
Tanto cuidado, ai triste, e tanto enleio?
Não basta estar ausente,
Para perder a vida infelizmente?
Se não também, cruel, neste conflito
Me negas o socorro de um escrito?
Porque esta dor que a alma me penetra
Não ache o maior bem na menor letra,
Ai! bem fazes, amor, tira-me tudo!
Não há alívio, não, não há escudo,
Que a vida me defenda,
Tudo me falte, enfim, tudo me ofenda,
Tudo me tire a vida,
Pois eu a não perdi na despedida.

*Soror Violante do Céu, in Antologia Poética

Foto frase do dia: Quintana, Mário

Verso de Mário Quintana

a-ver-livros: plano de voo

Se não consegues esperar
que voltem os alíseos
fecha os olhos
entrega-te ao pacífico rumorejar
das palavras 
deixa soprar a alma
no equilíbrio das forças
entre a página que vira
e os telhados a que nunca subirás
e voa

Ana Almeida

* para saber mais sobre o ilustrador lituano Kestutis Kasparavicius
siga o link www.kestutiskasparavicius.com

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Marilyn: a sua verdade

"Apenas algumas partes de nós tocarão
alguma vez
algumas partes de outros
a nossa verdade não é mais que isso - a nossa verdade
."

A autora destas linhas é Marilyn. Sim, a diva Monroe - loura platinada mas muito menos burra do que o cinema a fez parecer - que morreu a 5 de Agosto de 1962, faz hoje precisamente 52 anos. A actriz, que gostava realmente de ler (e chegou a ler "Ulisses", um calhamaço clássico e essencial de que poucos nos podemos orgulhar de ter lido também), gostava também de escrever. 

"Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters" é o título do livro que reúne os pequenos poemas, apontamentos em prosa poética e cartas que Norma Jean guardava aquando do seu "possível suicídio". Se não têm acesso ao livro, aproveitem o interessante artigo publicado no magazine virtual Brain Pickings. Basta seguir o link . Aproveitem-no. 


Principezinho

"Julgo que aproveitou uma migração de pássaros selvagens para fugir." 


Para Léon Werth: 
As crianças que me perdoem por ter dedicado este livro a uma pessoa crescida. Mas tenho uma desculpa de peso: essa pessoa crescida é o meu maior amigo no mundo inteiro. E tenho outra desculpa: essa pessoa crescida é capaz de entender tudo, mesmo os livros para crianças. E tenho outra desculpa, a terceira: essa pessoa crescida mora em França e em França passa fome e passa frio. Bem precisa de ser consolada. Mas se todas estas desculpas não chegarem, então, gostava de dedicar este livro à criança que essa pessoa já foi. Porque todas as pessoas crescidas já foram crianças. (Há é poucas que se lembrem.) Por isso, a minha dedicatória passa a ser assim:

Para Léon Werth,
quando ele era pequeno.

Antoine de Saint-Exupéry

É do borogodó: sortilégios

Os dois poços imundos de lágrimas

Tateiam no escuro a sombra dos girinos

A exaltar a vida dos vermes na pujança de nados sincronizados.

Perto da borda, entre cílios desabotoados,

dois poços secaram.

A mancha de sal esbranquiçou a cor da pele.

As covas fundas encerraram o último ai

Desenham a boca os sortilégios

- os sorrisos que poderia já não podes.

Logo não haverá quem de ti tenha dó,

Menos compaixão e vontade.

Um chumaço de algodão lhe preenche a falta do ouro.

Arranham sons débeis as beatas

tontas sem profissão, sem tricot,

no correr do terço puído

antes que o sacerdote manco arranque alguns trocados.

Há aqueles que se regozijam com tua morte.

Dentro do pomo de Adão

A última missiva

O pedido tardio de desculpas.


Penélope Martins


a-ver-livros: sombras

Esquecida a poeira da estrada 
nos alforges
sobram as sombras
que os abraços deixaram
sobram as marcas
da despedida
e a sede de uma carícia 
que me salve

Ana Almeida

* para saber mais sobre a ilustradora Lilli Carré
siga o link http://lillicarre.com/

domingo, 3 de agosto de 2014