sábado, 25 de janeiro de 2014

Possivelmente, poema à tardinha

o tempo é maldito e remexe marés
antigas, escondidas, desconhecidas
até ao momento em que o pé ultrapassa a areia
e invade a água. Aí enlouquece-se ali mesmo
não do afogamento, 
mas do tempo.



Marcos Foz

Snobidando: Eduardo Galeano

VENTANA SOBRE EL CUERPO

La iglesia dice: El cuerpo es una culpa.
La ciencia dice: El cuerpo es una máquina.
La publicidad dice: El cuerpo es un negocio.
El cuerpo dice: Yo soy una fiesta.

Eduardo Galeano



Acompanhe a página da Livraria Snob no Facebook. Abre brevemente, em Guimarães. Pode lá encontrar este e muitos outros textos.

Foto frase do dia: P. J. O'Rourke


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Poema à Noitinha... uma vez mais Tomas Tranströmer

A Neve Cai

Os funerais aproximam-se 
cada vez mais densos 
como placas da rua 
quando nos aproximamos de alguma cidade. 

O olhar de mil pessoas 
na terra das longas sombras. 

Uma ponte constrói-se 
lentamente 
sempre a direito no espaço. 

*Tomas Tranströmer 
Traducão para português por Luís Costa

foto: Sara Jaques

Foto frase do dia: Beatrix Potter

Poesia que passa ao lado #1

Pia o mocho,
Sopra molhado
o vento.
Ouço-os.

O mar
revolto
revoltado
estronda a noite
onde mergulha.
Ouço-o
e compreendo-me.

Fujo do tempo
que não vivo
deixando-o
escoar-se
por entre mim.

A.Maia in "Autores Não Publicados", Assírio&Alvim, 1987


Foto: mocho-galego / Fonte: wikipédia

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Eu poético: «NIF»

NIF

o teu silêncio é gratuito?
está à venda pelo preço errado

porque ameaças
matar-me?
se dizes que o nosso amor
morreu

tudo se paga
e eu não me dou por vencido.

compro o sorriso,
a tua voz,
as tuas mãos,
o cabelo,
a boca

os teus ais,
os teus is,
os teus outros que tais

quero o passado,
o abraço,
a noite
e a manhã

por favor embrulha tudo,
manda a conta
e não te esqueças de pôr

o número de contribuinte.

Rodrigo Ferrão


Foto: Rodrigo Ferrão

Regras do grupo «Livros no Facebook»

Isto é um post institucional, para que fique registado.

Regras do grupo Livros no Facebook:

BEM-VINDOS! Leiam, por favor, antes de prosseguirem:

O grupo LIVROS NO FACEBOOK é uma extensão do blog CLUBE DE LEITORES, uma espécie de sala de estar onde nós os administradores recebemos os membros e falamos de livros, de autores, do mundo das palavras, seja qual for a sua forma de expressão. Contamos ainda com alguns colaboradores regulares e outros ocasionais, alguns de Portugal, outros ainda do Brasil, que serão sempre apresentados por nós.

Os membros são todos convidados a participar e comentar os nossos posts, sempre com espírito positivo e de partilha, sem insultos ou outras atitudes menos educadas em situações de eventual discórdia de opinião.

A enorme adesão de membros nos últimos tempos leva-nos a adoptar a moderação de posts e comentários. Isto é, tudo o que não seja relacionado com o tema do grupo será liminarmente apagado e, em determinados casos, como o de certo tipo de publicidades, o membro será também banido. O bombardeamento de posts de seguida, por exemplo, também não é bem-vindo.

O grupo LIVROS NO FACEBOOK não se destina igualmente à promoção pessoal ou de outros blogues. Menos ainda quando os membros se limitam a largar a sua ‘publicidade’ e nunca participam nos posts que vamos lançando ao longo do dia. Para promover a vossa escrita – prosa ou poesia – ou os vossos blogues, existem inúmeros outros grupos no Facebook a isso destinados.

Devemos avisar igualmente que este grupo não se destina a trocas e vendas de livros. Para isso existem também diversos outros grupos no Facebook. De resto, cada situação será analisada à medida que for surgindo.

Só assim será possível manter o grupo com a energia e a dinâmica e o foco na literatura que o tornou popular e que ajudou o blog CLUBE DE LEITORES a ser eleito em 2011 e 2012 como Blog Literário do Ano em Portugal.

A todos damos as boas vindas. Usufruam deste espaço que também é vosso. Boas leituras!

P'lo Clube,
Rodrigo Ferrão
Ana Almeida



ALA ... que é poesia X

Há poesia em Lobo Antunes - e tanto fado. 
Hoje a nossa compilação passa por um poema escrito por ALA para a fadista Mísia. Canta-o ela no disco "Mísia Fado", de 1994. Vitorino viria a cantá-lo também, um ano depois, no disco "A Canção do Bandido".

Ana Almeida


Nasci Para Morrer Contigo


(Para a Mísia)


Nasci para morrer contigo
a cama que tenho dou-te
meu amante meu amigo
não te vás fica comigo 
nasci p´ra morrer contigo 
esta noite toda a noite 


Quero que a pele seja trigo
a ondular ao açoite
dos gemidos que te digo
meu amante meu amigo
nasci p´ra morrer contigo
esta noite toda a noite 


A gaivota dos meus braços
foi feita para o teu rio
tuas pernas são meus laços
a tua boca dois traços
na boca que o espelho viu

António Lobo Antunes

* hoje temos já aqui o vídeo, não é preciso seguir link:

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Cai a bomba: Leya deixa de publicar livros de Saramago

É uma notícia do Expresso:

A editorial Caminho e as herdeiras do escritor José Saramago rompem um vínculo com 35 anos


A editora Caminho, que pertence ao grupo Leya, e as herdeiras de José Saramago resolveram romper o contrato por discordarem quanto às condições contratuais para a publicação dos livros do Prémio Nobel.

"Fez-se tudo quanto se pôde para continuar a merecer a honra de editar José Saramago. Mas tal não foi infelizmente possível", refere o grupo Leya em comunicado.

O lançamento das obras de Saramago, escritor que morreu em 18 de junho de 2010, pela editorial Caminho começou hà 35 anos com a publicação de "A Noite" (1979).

No comunicado, o grupo "sublinha e agradece o trabalho exemplar que, na promoção do autor e na edição da sua obra, Zeferino Coelho realizou com a sua equipa ao longo destes anos e nomeadamente desde que a Caminho integrou a Leya".


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/leya-deixa-de-publicar-livros-de-saramago=f852031#ixzz2r9lFZma6.



Reflexão de Agustina Bessa Luís - "O Português"

Prefere ser um rico desconhecido, a ser um herói pobre. É melhor do que parece. O homem português é dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.
Mas é também um homem de paixões moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado.
Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.
É inovador mas tem pouco carácter, como é próprio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como filósofos e criadores em geral.
Mente muito, e a verdade que se arroga é uma culpa inibida. Vemos que ele se mantém num estado primitivo quando defende a sua área de partido, de seita e de família, à custa de corrupções e de crimes, se for preciso.
Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; excepto se isso intimidar os seus adversários.
Não tem génio, tem habilidade.
É imaginativo mas não pensador.
É culto mas não experiente.
Não gosta da lei, porque ela desvaloriza a sua própria iniciativa. É místico com a fábula e viril com a desgraça.
Admira mais a Deus do que tem fé Nele.



in "Cadernos de Significados"

ALA ... que é poesia IX

"Morre-se devagar neste país" começa o poema de hoje de António Lobo Antunes - e faz tanto sentido nos dias que correm. 

A recolha poética de ALA continua - e este vem dedicado a Florbela Espanca e cantado pelo Vitorino, também no disco "Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada", uma pérola de 1992.

Ana Almeida


Rua do Quelhas 
(a Florbela Espanca)

Morre-se devagar neste país
Onde é depressa a mágoa e a saudade
Oh meu amor de longe quem me diz
Como é a tua sombra na cidade
Morre-se devagar em frente ao Tejo
Repetindo o teu nome lentamente
Cintura com cintura, beijo a beijo
E gritá-lo, abraçado, a toda a gente
Morre-se devagar e de morrer
Fica a cinza de um corpo no olhar
Oh meu amor a noite se vier
É seara de nós ao pé do mar


António Lobo Antunes

PARA VER O VÍDEO SIGA O LINK
http://www.youtube.com/watch?v=8MgkGzb87Z0


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Passatempo «A rapariga que roubava livros»


Editorial Presença tem três exemplares para oferecer aos seguidores do Clube de Leitores - do livro rapariga que roubava livros, de Marcus Zusak. 

Para participar, basta responder ao seguinte: Se pudesse, que livro roubaria? Porquê?

As melhores respostas enviadas em comentário a este post (tanto aqui no blog, como na página do facebook ou ainda no grupo) vão a uma finalíssima de 3 dias a ser votada pelos membros do blog e seguidores. 

O concurso é válido para Portugal continental e ilhas e o envio das frases deve ser feito até Segunda, dia 27 de Janeiro. No dia seguinte, anunciaremos as respostas que vão seguir para a finalíssima.

Boa sorte! 

*Consulte o livro no site da Editorial Presença: A Rapariga que Roubava Livros

É do borogodó: o bicho



avança furioso o olhar famigerado de paixão doentia da qual não ousa empalidecer. nada lhe dá mais prazer do que alimentar o bicho que lhe traça as entranhas.seu solfejar de amores rompidos profetiza a nova vida. lambuzada de suor, ela carrega o estigma do otimismo natural.

Penélope Martins

Foto frase do dia: Santo Agostinho

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A felicidade é... um livro

O que é que vos faz feliz?
Um poema? Um livro? Uma citação a propósito no momento certo?
Uma estante recheada? O cheiro de um livro acabado de sair do prelo?

Adormecer a meio de um capítulo?

Encontrei no Facebook esta página com ilustrações que incluem livros.
https://www.facebook.com/itsthehappypage?fref=ts
Achei que podia partilhá-las convosco esta noite. 

Boa noite. E boas leituras, pois claro.

Ana Almeida






"O Ditador" por um lado meu

Morre o ditador
a democracia fica em esplendor,
sustentada em redes de interesses
e por fios de pavor,
que tecem tudo
onde haja calor,
de petróleo negro a brotar
da terra, e de gente inocente
pronta a morrer ou a matar,
nas ruas de maneira indecente.

Democratização
é a nova palavra de ordem
que se espalha, como em tempos portugueses
a sua fé cristã,
mas agora o ouro é fluido
e eles com medo do descuido,
lá andam na sua expansão,
com a maior precaução.

Óh charlatão
vocês nem convencem o cão
nem a minha vizinha anã
que tem o pavão;
querem que acredite,
que ali o vosso avião
vem em missão vã,
dar-nos direitos e paz?

Li o Leviatã,
e como o ditador
também você senhor padre,
é violador
e mau,
e deve levar com o pau,
como aquele assessor,
do outro senhor,
engravatado, que esperemos nós
não morra espancado.

Tragam-me de volta o ditador,
onde contra bem ou contra o mal,
podia ser navegador.





Marcos Foz

ALA ... que é poesia VIII

Dizem que hoje é o dia mais triste do ano, a chamada "Blue Monday". Uma valente treta pseudo-científica lançada por Cliff Arnall, psicólogo da universidade de Cardiff, no País de Gales, que é levada a sério aí por alguns cantos do mundo. 

Diz o cavalheiro que a terceira segunda-feira de Janeiro é o dia do ano no qual as pessoas se sentem mais tristes. Chegou a esta brilhante conclusão, ao que se sabe, após resolver uma complicada equação matemática que analisa a meteorologia, as dívidas resultantes das despesas no Natal, a queda da motivação e uma crescente pressão para realizar coisas. 

Pois para contrariar a coisa cá vai mais um poema do grande Lobo Antunes, desta vez tornado música numa desgarrada bem frequentada liderada por Vitorino e gravada para o disco "A Canção do Bandido", de 1995. Vamos à pesca?

Ana Almeida



Rigoroso do Pescador da Marginal 

O melhor da minha vida
é estar aqui na muralha
com uma cana estendida
para o negrume do rio
as vigias de um navio
e as ondas de fina talha

Quando chega sexta-feira
despeço-me da mulher
beijo a criança na esteira
ponho um capuz de oleado
e venho para este lado
no barquinho da carreira

Vejo as luzes de Belém
refractadas no alcatrão
milagres que a noite tem
namorados que se beijam
altas árvores que bocejam
e o búzio que as casas são

Oh minha colcha de estrelas
neste mar cor de basalto
minhas loiras caravelas
navios de especiarias
vogando em ondas macias
num céu tão puro e tão alto

Saltam infantes barbudos
das naus que vêm de Almada
grumetes, frades miúdos
com gengivas de escorbuto
donzelas de triste luto
dançam na luz irisada.

Salta El-Rei com seus alões
e as aias da princesa
bobo, jograis e anões
escrivães e cardeais
saltam santas de vitrais
e o cronista à sua mesa

D. João chegou de Diu
D. Pedro de Timor vem
e eu na muralha do rio
a ver os dois enforcados
que os corvos comem em estrados
junto à Torre de Belém

Convosco esqueço o emprego
quando chega sexta-feira
fico surdo fico cego
não ligo à renda da casa
parado a ouvir uma asa
que me voa à cabeceira

Meu rio tão negro e tão fundo
bacia do Mar da Palha
quero lá saber do mundo
quero lá saber do peixe
quem me ama que me deixe
ficar aqui na muralha.

António Lobo Antunes


VEJA O VIDEO SEGUINDO O LINK
http://www.youtube.com/watch?v=uU8onjlVUsE

domingo, 19 de janeiro de 2014

Parabéns Poe!

Edgar Poe nasceu em Boston, Massachusetts em 1809.
Saiba mais em: http://www.bc.edu/libraries/about/exhibits/oneill/2008winter/now.html

Sublinhando: Halldór Laxness

A característica mais desagradável dos curtos dias de Inverno não é a sua escuridão; mais desagradável ainda é que a escuridão nunca se torna negra o suficiente para que uma pessoa se possa esquecer do infinito que ela simboliza; esse infinito que na realidade não está relacionado com nada excepto com a própria justiça, que enche o mundo tal qual a justiça e, como ela, é inexorável também. A escuridão do Inverno e a justiça são da mesma estirpe, uma pessoa depreende melhor na Primavera quando o Sol brilha que ambos foram ruins.

*in Gente Independente - Cavalo de Ferro



Foto frase do dia: Charles Bukowski

Relembrando os clássicos - Antero de Quental

"O que diz a Morte"

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.



in "Sonetos"