quarta-feira, 17 de outubro de 2012

1º Parágrafo: Um Capricho da Natureza


Algures durante o dia, a rapariga deixou cair um dos novos nomes e apareceu sob o seu outro nome. Enquanto mastigava a pastilha elástica e se deixava balouçar no assento trepidante, vendo acenar nos apeadeiros secundários as crianças negras e o gado das pastagens desaparecer, assustado pela passagem do comboio, num tropel de medo no horizonte, a rapariga pôs na prateleira Kim, com o seu panamá escolar e envergou a figura de Hillela. As meias castanhas escorregaram-lhe ao longo das pernas, fazendo-lhe uma comichão agradável. A seguir, desenterraria as sandálias e um vestido da mala e mudaria de roupa sem se preocupar com a presença no compartimento de outras mulheres. Ia, como das outras vezes, ter com aquela tia, uma das irmãs da mãe, junta da qual nada lhe faltava. Vinha do colégio de raparigas da Rodésia para onde, como responderia se lhe perguntassem porque não estava a estudar na África do sul, fora mandada pelo facto de o seu pai se ter fixado em Salisbury. Não era a única rapariga cujos pais se haviam divorciado ou separado, ou lá o que era que tinham feito. Mas era a única Hillela entre todas as Susans e Clares e Fionas que a cercavam. Que nome seria aquele? Não podia responder que não sabia. Responderia, sim, e sem um instante de hesitação, que, de qualquer maneira, toda a gente a tratava sempre pelo seu segundo nome, Kim. Com o passar dos anos, até o professores a tratavam simplesmente por Kim, e só por Kim. Ninguém estranhava já quando ia com as outras Kims, Susans, Clares e Fionas à Igreja Anglicana todos os Domingos, embora nos registos do colégio a sua ficha relativa ao “credo religioso” a declarasse judia.


* Tradução de Miguel Serras Pereira
* Nadine Gordimer foi Prémio Nobel da Literatura em 1991

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