terça-feira, 10 de outubro de 2017

Eu poético: Espelho

ESPELHO

Disseste-me para ver no espelho aquilo que sou.
Vi um homem de cabelo forte, nariz grande e olheiras bem fundas.
Seguro e inseguro, carente e preenchido, completo e com lacunas, intenso e distraído, especial e banal, com certezas muito certas ou apanhado em contradição no minuto seguinte.
Ser neste manto de humanidade, simplesmente sem respostas, procurando as várias significâncias de uma vida tão rápida, tão desprovida de lógicas e onde a paz interior é um projecto futuro de alcance duvidoso.

Depois analisei quem dizes ser.
Somos um por dois, um sonho uno que não sabemos o que é.
E mesmo que isso seja uma quimera em constante mutação,
acredito no amor assim.
Talvez seja um crente sem destinos delineados,
talvez deposite em ti várias coisas que não sou,
talvez me deixe enganar pelo teu feitiço e acredite, quando penso baixinho, que és a melhor pessoa que podia ter pedido.

E mesmo que tu representes exactamente o contrário daquilo que me fazes ver,
apanhamos o barco para atravessar este rio de tormentas.
De manhã eu sou o Douro e tu o Tejo,
mas ao pôr-do-sol desaguamos no mesmo mar.

Conto-te um segredo: não quebres este espelho.
Juro-te que um dia vamos até à América.

Rodrigo Ferrão
Foto: Rodrigo Ferrão

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

António de Macedo, até sempre

Esta semana está um verdadeiro cais de partida.

Luís Andrade de Sá e Maria Helena Ferreira, jornalistas da Lusa. Fernando Diogo, do Expresso e Diário de Notícias. Foi-se também o Jorge Listopad, escritor e realizador e mais, que até fazia anos no mesmo dia que eu. E agora, assim sem aviso, partiu também o António de Macedo, cineasta e prolífico escritor, apaixonado pela Ficção Científica e Fantástico.

Foi precisamente a FC que nos juntou. Ele um nome firmado, eu uma miúda a dar passos iniciais no jornalismo, teimando num artigo em que juntasse os vários autores nacionais de FC, um género que nos anos 90 vivia um momento extraordinário por cá. Falei com todos, entre eles o João Barreiros, o Luis Filipe Silva, a Maria de Menezes, o Tércio, o António, e a peça saiu. 

Percebi então que, apesar de navegarem as mesmas águas, alguns até na mesma editora, não se conheciam uns aos outros. Sempre tive a mania de fazer acontecer, não é de agora. E juntei-os à mesma mesa.Os jantares tornaram-se regulares, recheados de entusiasmo e projectos em grupo. 

Demos à luz a Simetria, associação dedicada à FC e ao Fantástico. E daí nasceram os Encontros que levaram à Cascais dos anos 90 tantos nomes da FC internacional. O escritor britânico Brian Aldiss foi um deles. Morreu há 15 dias.


Imagino que o Brian e o António - que me tratava sempre por "magna mater" da FC - estejam a esta hora algures lá pelo outro mundo a comentar os dias extraordinários vividos então. E "heroína", António? Um exagero teu. Talvez se tivesse conseguido manter o grupo unido quando as vidas de cada um nos afastaram. Boa viagem, meu caro.

Ana Almeida

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Adeus, Aldiss

E mais um nome relevante da literatura que se vai.
Tive o prazer de privar com Brian Aldiss em Cascais, nos idos de 96, quando o trouxemos até cá como convidado de honra dos encontros de Ficção Científica organizados pela Simetria - associação cujo nascimento se deu, imaginem, porque um dia, enquanto jornalista e entusiasta da FC, me lembrei de juntar primeiro num artigo e depois à mesma mesa, a maior parte dos escritores de FC portugueses.

Aldiss era um gentleman e senhor de uma escrita e de um humor inesquecíveis.
Hoje, na sua morte, só vos posso dizer: se nunca leram nada dele vão à caça. Vai valer a pena. 

Ana Almeida



* (sim, há algumas coisas em português, graças ao escritor João Barreiros, no seu papel de editor de várias colecções de FC)
* leiam a que creio ser a sua última entrevista aqui, ao The Telegraph, de onde 'roubartilhei' a foto, da autoria de John Lawrence.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Os armários da noite, Alice Vieira

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais
e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar
sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca
e que vais voltar
para
a
devolver
- Alice Vieira -
* este poema integra o livro Os Armários da Noite. Portugal: Editora Caminho.
** em vídeo, narração de Penélope Martins.
*** este post segue sob rubrica É do Borogodó!, na ponte de leituras entre Brasil e Portugal. 



domingo, 6 de agosto de 2017

Maria Trigueira, de Ivone Gonçalves

Saiu há pouco tempo um novo livro pela Kalandraka Portugal, de Ivone Gonçalves - Maria Trigueira.

Ivone Gonçalves (Cachopo, 1984): Mudou-se para Lisboa para estudar arquitetura em 2002. Em 2007 ingressou na Universidade IUAV ao abrigo do programa Erasmus e terminou o mestrado de arquitetura na Universidade Lusíada de Lisboa. Estabeleceu-se definitivamente em Lisboa em 2010, onde fundou o atelier ForStudio Arquitectos. Foi vencedora do Prémio Matilde Rosa Araújo, em 2015, na categoria de Ilustração.


Uma menina relata a vida na aldeia - o trabalho, as colheitas, os animais, as tradições. E sonha, com as andorinhas, cruzar os céus e ir ver o mar. Esse sonho torna-se real e ela viaja.

Um livro de ilustrações das nossas aldeias, das nossas infâncias. De traços muito intimistas, carregados dos hábitos portugueses e da nossa vida no campo.



SINOPSE

Maria Trigueira nasceu na serra, cresceu junto às searas de trigo e a cuidar dos animais… Mas, por entre os montes, sempre via ao longe os barcos a navegar. E o desejo de ver o mar crescia nela. Até que um dia decidiu partir e viajar. "Maria Trigueira" de Ivone Gonçalves é um álbum intimista, cujo traçado singelo das ilustrações a uma só cor cria uma atmosfera propícia à narrativa e ao sonho da protagonista a quem empresta o nome.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

sem título


de súbito o clarão
da tua nudez colheu-me
trago a pele
de quando fomos.


Helder Magalhães


Sónia Silva

Por que contar histórias?

Eu tenho me apresentado como narradora de histórias, e algumas pessoas - aqui no Brasil - me perguntam se tem diferença com o termo 'contadora'. O conceito pouco importa se a ação de narrar histórias é algo feito com mente e coração afinados: capacidade de contar uma história, transmitir emoção e lidar com a narrativa como uma força transformadora que poderá agir em outras vidas transformando as relações humanas.

Mas, por que contamos histórias?

*

Eu sou Penélope Martins, filha de uma família portuguesa da Aldeia de Zenisio; trago no baú de histórias muitas misturas, como se faz à brasileira, e um desejo enorme de sermos mais fraternos, mais cidadãos do mundo.

Minha publicação no Clube de Leitores faz a ponte de leituras entre Brasil e Portugal, sob rubrica É do Borogodó!