quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Crónica tripeira de Lisboa: os ares do campo e a cidade lazer

Porto » Lisboa » Santo Estêvão, 
27 | 28 | 29 de Outubro



Apanhar boleias pelo Facebook, sites ou até grupos de WhatsApp é relativamente normal para quem faz várias vezes a estrada entre Porto e Lisboa. Esta sexta-feira não é excepção e já tenho a minha viagem marcada, encontro com o desconhecido na estação de Campanhã.

Nestas dinâmicas também já assumi a condução. Não é algo que o faça com muita regularidade, pois o meu Clio não vai para novo. Num Santo António já me avariou, e tive que trazer as boleias num automóvel pago pelo seguro, na volta. Normalmente só o uso quando tenho mesmo que encaixar Lisboa a outro destino qualquer.

Assim aconteceu há pouco tempo, quando, no mesmo dia, tive dois casamentos no Ribatejo. E isso tem muito a ver com a crónica de hoje, pois vou regressar à Mata do Duque, Santo Estêvão. Mas já lá vamos!

Interessa contar 2 episódios de boleias que dei. No primeiro, acordei transportar uma pessoa através de um site. Ia com outras pessoas, um amigo meu inclusive. Este homem pareceu-me uma pessoa interessada: não exigiu que o fosse buscar a lado algum, apareceu à hora marcada e cumpriu com o pagamento. Só tinha um senão: ia completamente bêbado. Por momentos achámos (eu e os restantes), que nos ia abandonar na bomba de serviço. Mas não, ele contou-nos histórias do infinito e mais além, um mundo que dificilmente conseguiríamos alcançar naqueles quilómetros que partilhámos. 

O segundo episódio, talvez mais épico ainda: aceitei dar boleia a três desconhecidas e a um amigo. Mas duas eram mãe e filha, a criança tinha uns 7 anos. Tudo corria bem até que, do nada, o meu carro deu sinal que não tinha água. Encostei-o na área de serviço da Mealhada, saio para ver o que se passa. Mal abro o capô, vejo uma enorme mancha e não está lá a vareta que tapa a saída do óleo. 

Viro-me para o meu amigo e digo: "não stresses, não digas nada, vem comigo". Entrámos na área de serviço e pergunto ao homem se é normal a vareta saltar. Ele diz-me que é impossível, que isso não acontece. Volto ao carro, tentando perceber o que fazer. 

Passou-me várias vezes pela cabeça que ia ficar numa área de serviço, com 3 desconhecidas (entre elas uma criança) e o meu amigo. Mas, descontraidamente, enchi o carro com água e virei-me para ele e disse: "não entres em pânico, vou ali ver se arranjo qualquer coisa e tapo isto - vamos ter que chegar a Lisboa."

Vejo um arbusto, retiro um pau. Encontro uma prata no chão, de um maço de cigarros, e enrolo-a. Dirijo-me ao carro, olho para o cano e simplesmente espeto o pau lá dentro, com a prata. O meu confidente olha-me com alguma estupefacção e, admirado com os meus recentes dotes de MacGyver, disfarça quando lhe digo: "está calado, temos que chegar ao destino."

A viagem rolou normalmente, como se nada tivesse passado. Nesse dia chegámos a Lisboa, tal como hoje. Sou conduzido por uma professora da Póvoa de Varzim. O carro atrasou, estava um trânsito infernal no Porto e a nossa última boleia teve que vir ao nosso alcance, de metro.

A viagem é feita de conversas profundas, toda a gente põe algo de si. Nem sempre se encontram pessoas interessantes, mas, se pensarmos bem, ir de carro é sempre um convite para conversar um pouco. E isso ajuda o tempo a passar.

Chegado a Lisboa, contas feitas, abandonado na Basílica da Estrela, sigo para a Buenos Aires. Lá me espera o jantar, já toda a gente chegou e bebem uns copos. Estão pessoas que frequentam os mesmos espaços, mas, na minha história de vida, surgiram em tempos e situações diferentes. 

Dedico-me mais a matar saudades e a aprofundar conversas. Existem pessoas novas, conheço-as naquilo que posso e que o tempo permite. O jantar evolui sempre muito rápido e lá descem os conquistadores ao Zé Tó, no Cais do Sodré. Já começa a ser hábito ir fechar o estaminé, é quase um trajecto sagrado.

Hoje alguns rapazes e raparigas entram na dicoteca Lust. Dança-se, dança-se mais, canta-se e os olhos acompanham as luzinhas. Perdemo-nos, encontramo-nos, o drama de partir o grupo ameaça e esconde-se a todo o momento. A sorte da noite mede-se mais ou menos assim. 

Saímos já cansados, todos, com os sons bem martelados na cabeça. No meu caso, já só me interessa dormir. Viver la vida loca é muito bonito, mas todas estas viagens saem-me do corpo. Táxi até casa, contar até dez e adormecer. 



Acordo relativamente cedo para quem viveu a noite anterior mais do que o que devia. Estou bem disposto, hoje vamos ao campo.

Aparecem para nos apanhar, já a meio da tarde, e depois de já ter passado de um sofá para uma cama. Seguimos cinco para Santo Estêvão, Ribatejo profundo.  

A festa de anos é de bons amigos, habituados a fazer bem as coisas e a receber principescamente. Ali juntam-se gerações de pais, filhos, amigos e crianças. A conversa que hoje procuro é com os mais velhos, sobretudo sobre as memórias dos tempos da juventude deles, em Lisboa. Mas também as aventuras de quem, como eu, já viveu no Porto. Assim se percebem os tempos, as raízes, as nossas famílias. 

A pista anima, um DJ português nascido no Reino Unido passa o som. As pessoas usam máscaras, perucas e outros acessórios que sobraram do casamento que quase todos nós vivemos ali no mesmo local, uns meses antes. 

Tiro uma fotografia na casa-de-banho, para a posteridade - "Lembre-se que estamos no campo." Esse é o sentimento que nos faz esquecer a cidade e que me fica nesta noite gravado.

A hora muda e isso faz com que todos ganhem uma nova energia. Largados uma vez mais no Cais do Sodré, junto dois a mais um grupo de perdidos que entretanto se cruza com o nosso bando. A noite não foi mais do que dar umas voltas, celebrar um momento mais no calendário desta cidade, já a lua ia alta. 

Eu e um amigo partilhámos um táxi na volta. Mas antes ainda comemos um hambúrguer, mesmo ali ao pé do Tejo. Falámos um pouco do fim-de-semana, do que cada um leva. 



O sol ilumina a residência e hoje vou almoçar a casa de duas primas e de uma amiga (que não está). Saio lento, óculos escuros aplicados. Cumpro o ritual de croquete e café na Cristal, ignorando as "Tias" de Lisboa. Passo pela Taberna dos novos Tempos, dos bitoques (prego no prato, assim diria no meu Porto) que a Patrícia nos dá à noite, quando decidimos ir lá. 

Entro no meu jardim preferido de Lisboa, o da Estrela. As crianças brincam, as pessoas respiram ar puro, os patos passam alinhados até ao lago, só se vê sorrisos. Sim, aquilo podia ser o Céu ou a personificação do Paraíso, numa ordem cósmica perfeita e muito ajustada, uma confraternização pura. 



Apanho uma amiga minha no Pingo Doce, o do Rato. Comprámos uma entrada e uma sobremesa, depois do café tomado. Ela insiste em apanhar um táxi, temos como destino o Terreiro do Paço. Vou resistindo, vou resistindo; mas ela ganha. Conseguimos um, metros abaixo, descemos até ao destino.

A casa das minhas primas é lá bem no alto, vários lances de escada. A entrada é um pouco sinistra - qualquer comparação com um beco escuro da Idade Média não será certamente exagero. As escadas rangem e nós vamos ficando sem ar. Mas, já no destino, as meninas abraçam-nos e recebem-nos com o melhor sorriso do mundo.

Estas construções são frágeis, cheias de acrescentos bem engenhados por um qualquer portuga desenrascado. Assim é a casa-de-banho, um corredor cheio de pequenas janelas até ao local propriamente dito. Mas depois os olhos cedem perante o casario encavalitado de Lisboa, com a Sé a espreitar, lá ao fundo. 



Do lado oposto, temos o Terreiro do Paço, imponente expressão da Lisboa reconstruída após o terramoto. O almoço vai tomando o seu rumo, entre risadas longas e conversas sobre a vida na capital, os projectos e sonhos de cada um. 

Descemos até ao café cá baixo. Enquanto pedem o meu, resolvo ir à Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha. Com uma brilhante porta Manuelina, destaca-se naquela rua, escondida na sombra alta dos antigos ministérios. 

A Igreja foi reconstruída depois do terramoto, substituindo a primeira Misericórdia do país. O interior denota o estilo Pombalino, decorado com azulejos e estuque trabalhado. O tecto é um verdadeiro acontecimento, registo isso numa fotografia.



Eu e a prima (que sobrevive ao grupo) subimos ao Chiado, rumo ao Largo do Carmo. Cheio de gente, nem parece Domingo. Lisboa celebra o último dia de descanso assim, na rua. Talvez isso no Porto seja diferente, mais caseiro. Aqui vive-se o sol, bebe-se uma cerveja - tudo finge que amanhã não é segunda. Abraço esta ideia, ignorando que ainda faltam trezentos quilómetros até ao meu Norte.

Vamos ao Topo Chiado (primeira foto, acima) e derretemos a tarde à conversa. Sigo pelo Camões, passo a Assembleia e noto que a noite já me abraça. A hora mudou, penso. 

Descarto uma boleia antes de ir apanhar a mala a casa - uma casa não minha, mas que funciona como porto seguro, de onde avisto todas as aventuras que a cidade me esconde. Memórias que insisto viver.

Texto e fotos: Rodrigo Ferrão

terça-feira, 14 de novembro de 2017

pisaremos as jabuticabas

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Adão segura duas folhas - Carla Diacov


não pisaremos as fronteiras
amor dos ombros meus
pisaremos ladeiras clarinetes e balas de goma
mas não as fronteiras
dê cá tua palma esquerda
não pisaremos aqui e nem aqui
não pisaremos o pescoço
mas pisaremos o dorso
nunca a virilha
mas as pernas
dê cá tua blusa
dê cá tua casa
dê cá teu idioma
dê cá tuas paixões
não pisaremos as páginas mas pisaremos os números
amor dos ombros meus
pisaremos as armadilhas o sexo das sombras
a explosão roxa das jabuticabas
sentimentais
pisaremos as jabuticabas
descalços
as jabuticabas




- Carla Diacov, poeta e artista visual. 

* Conheça mais sobre a poeta: https://doudacorreriablog.wordpress.com/tag/carla-diacov/

  e sobre a artista - https://www.instagram.com/diacovcarla/

** este post integra a série assinada por Penélope Martins, do Brasil para Portugal, sob rubrica é do borogodó!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

o poema e a poeta

A imagem pode conter: texto

No Brasil, lendo para a ponte, com o Clube de Leitores, a poeta portuguesa, Adília Lopes; eu que sou brasileira e portuguesa de nascença.

É do borogodó a poesia e nossa mátria, a língua portuguesa.

Penélope Martins

terça-feira, 31 de outubro de 2017

detraquê




* Cora Coralina no dizer inzoneiro com Penélope Martins para firmar a ponte Brasil - Portugal, é do borogodó! Um vídeo produzido por Sérgio Silva para a página de leitura #mulheresqueleemmulheres - que convida leitoras mulheres a lerem suas autoras favoritas ampliando a discussão sobre o protagonismo feminino nas artes e nas ciências. 


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Crónica tripeira de Lisboa: dias felizes e depois o fogo

Porto » Lisboa,
12 | 13 | 14 de Outubro

Logísticas à sexta-feira: sair do Porto implica sempre um golpe de sorte, uma ténue linha entre o que pode ser uma viagem tranquila e a rápida transformação numa carga de lenha - a transportar às costas, depois de uma semana inteira de trabalho.

Sair do emprego a horas, mala já preparada.
Trânsito da cidade - especiais notas para a VCI e ponte da Arrábida.
Apanhar boleias.
As pessoas serem pontuais, no local combinado.
O carro ter o depósito cheio.
Não apanhar trânsito à chegada de Lisboa.
O condutor deixar-nos num sítio central.


Neste fim-de-semana sabia que não ia ver muitos dos meus habituais. É pura coincidência estar um vazio de amigos na cidade, mas vi nisso uma oportunidade de dias mais calmos. É imperativo passear, é obrigatório encontrar pessoas que nos são especiais e voltar ao ponto de conversa anterior, como se tivéssemos estado juntos ontem mesmo.

Saio rumo à capital com essa consciência, num carro a três. O tempo é passado a desbobinar a minha vida recente; nessa arte consigo ser exímio quando me encontro inspirado. As músicas rolam, entre as mais recentes baladas sul-americanas descobertas pelo condutor.

Depois de fazermos um pequeno pit-stop na casa onde eles ficam, seguimos para o XL, na Calçada da Estrela. Aí ficámos dois e, de cerveja na mão, corro o menu a ver o que há. Depois de uma entrada, escolho um bife com um molho supersónico, o meu amigo vai para outro, mais rústico.

Ambos bem servidos, cheios e satisfeitos, garrafa de vinho traçada. A conversa desdobra-se em mil sonhos, mil diagnósticos e prognósticos, algumas conclusões e (in)certezas. E nisto chega a minha prima, o namorado e o amigo que me vai acolher esta noite em sua casa.

O grupo desfaz-se e partimos três para pousar a mala. A dificuldade em estacionar começa a fazer comichão. Depois de mil voltas na Lapa, conseguimos abandonar a viatura no local possível, de legalidade duvidosa. É só o tempo de deixar as trouxas e partir. O rumo habitual é o Zé Tó, na zona do Cais do Sodré. Uber a chegar, siga.

Este café vira uma mega bica de cerveja à noite e é mesmo isso: não mais do que um sítio para uns finos (sim, não me vendo ao conceito de 'imperial'). É lá que qualquer perdido encontra alguém e, ritual que se repete, assim é comigo - o grupo aumenta sempre, concluo.

A noite não é para levar até tarde. Já com muitas despedidas feitas e algumas pessoas perdidas, abandonámos o local a pé. Eu e o meu amigo pomos a conversa em dia, caminhámos até à sua casa. Cais do Sodré, Santos, subir pela Estrela e finalmente Lapa. Transformámos uma curta viagem de táxi em meia-hora de passo lento.

Acordar na Lapa e não ir à Cristal é quase pecado. Que o digam as tias: figuras míticas do imaginário português, de certas zonas do Porto e Lisboa. A revista ¡HOLA! é a mais presente nas mesas das senhoras de cabelo armado, os senhores apostam no Expresso. Lá vejo a Helena Sacadura Cabral, uma habitué desta rua.

Ignoro-as copiosamente, estou mais focado no café (recuso usar o termo 'bica', mas também parece disparate aplicar ali um 'cimbalino') e nos croquetes. Este é o manjar possível quando a manhã vai longa - a dose certa de energia para me fazer à estrada.

Caminho a passo largo pelo jardim da Estrela, há muito que quero ir à Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, mesmo ali ao lado do Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras, que ainda não conheço. Depois de cruzar o Rato, subo até lá cima e dou uma volta ao jardim, zona por explorar. Potencial não falta: o aqueduto, a maravilhosa capela de Nossa Senhora de Monserrate, encaixada num dos seus arcos. Tudo sítios de uma singela harmonia.


A colecção do museu impressiona-me, anoto nomes. Podia passar horas a falar de tudo o que vi, mas hoje deixo apenas uma referência: Susumu Shingu. Toda a obra de Arpád Szenes e Vieira da Silva é apaixonante, isso já sabia. Mas o museu dá-nos muitos mais artistas, trabalha o nosso imaginário de uma forma difícil de expressar. Só vendo.

Shingu foi o nome que trouxe para casa. Talvez por sair completamente fora daquilo que já vi ou pensei sequer ser objecto de arte. Como não imaginar um futuro em harmonia com a natureza? Talvez eu seja um pessimista crónico e este japonês um visionário!


Desço ao Príncipe Real, hoje é dia de feira e mercado biológico. Observo o corrupio de gente, antes de decidir parar num café de esquina, onde mato uma sande de panado. O meu próximo destino é o Convento dos Cardaes.

Uma voluntária chega para me cobrar os 5 euros do bilhete e me prometer uma visita guiada. E que bem valeu a curta espera, o Convento e a Igreja são absolutamente imperdíveis, um dos sítios mais surpreendentes que Lisboa guarda.

Fundado por Luísa de Távora para alojar religiosas da Ordem das Carmelitas Descalças, o quinto desta ordem em Portugal, todo o espaço é arte. A pedra do túmulo da fundadora está intocada, mesmo depois de movido o processo dos Távoras, por Dom José e o Marquês de Pombal, já no século XVIII. Na verdade, todos os brasões desta família foram picados e destruídos no reino, mas não se sabia que Luísa estava sepultada neste convento, porque estamos dentro de uma ordem de clausura.


Aqui contemplei o estilo maioritariamente barroco da Igreja, mesmo que tenha alguma pintura maneirista. A senhora explicou-me a diferença surpreendente entre os azulejos holandeses da capela (que destacam mais o branco do que o cobalto, com menos preenchimento do espaço) dos azulejos portugueses. A arte da azulejaria portuguesa, posterior, usa mais o cobalto que o branco e ocupa o espaço. Isso é bem visível aqui, um bom exemplo de comparação.

Vejo as colecções que as freiras (geralmente senhoras da nobreza que se convertiam) trouxeram como dote, a riqueza da colecção é formidável. Surpreendente a organização do refeitório, com as mesas próximas das paredes e um grande corredor central. Por fim, os pátios interiores a fazer lembrar alguma influência árabe, com árvores de fruto e água a correr para o centro.

Desço ao Chiado, encontro agora uma amiga. Parámos na Kaffeehaus e gastámos toda a conversa que a distância não consegue resolver e pôr em dia. Passadas umas horas, vamos lentamente em direcção à Assembleia, subindo novamente à Lapa.

De volta a casa, está na hora de ir ao supermercado e organizar o jantar. Duas pessoas trouxeram amigos, alguns trazem cerveja e vinho, umas sobremesas e, de repente, somos dezasseis. Nestes encontros aleatórios aparece sempre alguém que conhecemos de outras bandas e, surpresa minha, o sobrinho de uma professora amiga, de Sacavém, entra em casa com uma guitarra à mão. Ele e o amigo vão-nos dar música, mal o jantar de alho francês à brás termina.

Conversa puxa conversa, risadas altas, alguns pontos de ruído espalhados pela casa. O sarau dura até à última gota de vinho branco e até à última mini guardada no frigorífico.

O destino é novamente o Zé Tó, no cais: a história repete-se. Fazem uma Insta story de mim e publicam, enquanto estou distraído. Só no dia seguinte percebo que me transformaram em coelho.

A noite estica um pouco mais, terminámos num bar da rua cor-de-rosa. Mas a vontade de voltar a casa é maior e seguimos quatro num táxi.

Enquanto a massa de atum se auto-cozinha, vamos tendo conversas metafísicas, mega profundas, com o seu toque espiritual. Durante a cena cinematográfica, o telemóvel passa música, um corpo jaz no sofá, três mosqueteiros aguardam o pitéu. Cenário ajustado para os primeiros raios de sol, assim se cumpre.

Metade do grupo acaba por ir embora e eu, cheio de sono, deito-me por volta das 6.

Domingo arruma-se rápido, há sempre pressa para planear a volta. Desço à Cristal, hoje troco o café por um sumo e aposto em dois croquetes. Já em casa, voltámos a sair para o supermercado. Cozinhámos um belo bife de atum, começámos a preparar as coisas para partir.

Passam algumas horas, aparece um primo num lusco-fusco, para um abraço. Depois apanham-me na Estrela.

Na despedida prometo voltar, como sempre.

Autoestrada rumo a norte e somos obrigados a sair. Já tínhamos passado por um incêndio, mas sabíamos que havia muitos mais. Sem perceber totalmente a dimensão de tudo, mas entendendo a gravidade da situação, chego mais tarde do que habitual ao Porto.

E é então que consigo começar a processar aquilo que vivi. Deixo uma nota no Facebook, no dia seguinte:

Ontem fiquei assustado com a ideia de me desviar de uma autoestrada, sair para a Nacional 1 e ver tudo parado. Perceber que ao fundo havia mais fogos. Acho que perdi a conta por quantos passámos, a certa altura parecia o Inferno de Dante, um clima de bafo apocalíptico.

Parados na saída da Pampilhosa, cortar por estradas secundárias, passar pela Mealhada e ver trânsito de hora de ponta de uma grande cidade. O GPS enviar-nos para Cantanhede, outro incêndio. Passar pela A17 e perceber hoje que há um vídeo que mostra um condutor cercado de chamas em Vagos, por onde passámos antes.

A minha viagem esticada nunca foi de pânico, mas sentia-se um nervoso. O volume de carros era impressionante. Hoje acordei e pensei que atiçar mais uns quantos fogos, ali perto da estrada, podia significar uma tragédia de proporções nunca vistas. A juntar à tragédia que me parece que já estamos a assistir.

Pensar que grande parte destes mortos são pessoas que nunca tiveram nada, que trabalharam uma vida toda. Pensar também nas pessoas que assistiram e sobreviveram: perderam tudo. Sentir que vão ter que ter coragem para continuar.

Tudo isto me dói.

A minha irmã está sem comunicações a espaços, ontem chegou a casa e tinha um manto de cinza na mesa da varanda. Um amigo meu não sabia se ia ficar sem a sua casa de família.

São tantas e tantas histórias nossas a juntar às que nunca saberemos.

Estes são os nossos atentados, basta destes terroristas. É preciso haver responsáveis, é preciso deixar de se assobiar para canto. O mundo e o nosso país continuam a ter mais calor. Não vamos mudar estas notícias se não começarmos nós próprios a mudar alguma coisa.

Texto e fotos: Rodrigo Ferrão

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Cântico dos Cânticos

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" Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales. 
Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha amada entre as filhas.
Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento, e o seu fruto é doce ao meu paladar.
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Levou-me à sala do banquete, e o seu estandarte sobre mim era o amor.
Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor.
A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas corças e cervas do campo, que não acordeis nem desperteis o meu amor, até que ele o queira."
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* Texto: versículos do capítulo 2, Cânticos de Salomão.
** Imagens do Livro O Cântico dos Cânticos, de Angela Lago. 
Essa grande artista brasileira,  em Belo Horizonte (Minas Gerais),  manteve dedicação imensa para produzir narrativas para crianças, com produção de textos e imagens. Seus experimentos com o livro não cessaram durante toda sua carreira, incluindo uma exploração ampla dos recursos digitais. Seu talento foi e é reconhecido dentro do território brasileiro e em outros países. Pessoalmente, Angela Lago combinava inteligência com elegância numa delicadeza que nada tinha de permissiva, uma vez que era uma mulher atuante na manifestação de seu pensamento filosófico e político. No domingo passado, Angela partiu desse mundo deixando amigos e admiradores com saudades pra sempre.





quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Eu poético: As lágrimas

AS LÁGRIMAS

Naquele dia de manhã
soltas as amarras dos lençóis,
chegas à janela e sentes o calor abrasador.
Esticas as pernas com força para sentir cada músculo
e avistas a cidade ainda serena, também ela a acordar devagarinho.
Pões música enquanto as torradas dançam
e o cheiro do café te entra pelo corpo adentro.
Distraído com as horas, deixas o tempo passar
porque lá fora o futuro espera sempre,
com a ingratidão fria e distante
de nunca aguardar um segundo por ti.
Ouves na rua o amolador, o som do metro cresce e trepa as paredes do quarto.
As gaivotas, num voo nervoso, furam os céus.
Consegues perceber a rotina mágica dos dias,
um a suceder ao outro sem repetir a mesma história.
Vita brevis, ars longa - o teu lugar pequeno na lógica cósmica.

E depois dizem-te que o mundo ardeu
e com ele levou homens, mulheres, crianças.
Ceifou casas, fábricas, carros e jardins.
Animais domésticos e selvagens, campos de trigo, árvores.
Esperanças e vidas de trabalho,
sonhos simples e modestos,
o pouco dinheiro de uma vida,
a subsistência,
o pão do dia-a-dia,
a fé numa outra vida melhor que esta.
A Deolinda, o Joaquim, a Dona Gertrudes,
o pequeno Samuel e a doce Helena.

Apocalipse.
Inferno de Dante.
Terra árida,
sol de cinza.
Portugal.

Tu, cidadão do trânsito,
levas um murro.
Sentes então que há dias e dias,
há imagens que ficam,
há rostos que partem.
Percebes que desaparece tudo,
que os pedaços de chão se apagam,
que o canto madrugador dos melros se silencia
e que fica mais só quem só sempre se sentiu.

Que a chuva nos lave estas memórias.
Que Deus verta, por fim, todas as lágrimas.

Rodrigo Ferrão

Foto: Jornal Público