terça-feira, 11 de julho de 2017

pele


um verbo de luz
floresce à nudez da pele


Helder Magalhães

Robert Mapplethorpe


terça-feira, 4 de julho de 2017

auréola


fotografo flores
o teu rosto aureolado
de luz amanhece.


Helder Magalhães


Morning Glory - Imogen Cunningham

domingo, 2 de julho de 2017

A Primavera Há-de Chegar, Bandini - John Fante


Bandini entrou na minha vida de leitor e nunca mais fui o mesmo. Fante é um génio!

Neste livro, o primeiro da série "Bandini", temos três personagens centrais - Arturo Bandini, ainda criança, a sua mãe, e Svevo - o pai. O narrador principal é Arturo e é aos olhos dele que a maioria da história se desenrola. Mas também há uma grande parte da narrativa entregue ao pai e aos seus pensamentos, sobretudo quando abandona a casa.

Esta família de raízes italianas vive no Colorado e é muito pobre. A comida é um bem escasso e Svevo refugia-se na bebida para esquecer a vida madrasta. A mãe reza muito e trata da lida da casa, deixando uma conta cada vez maior no merceeiro da rua, enquanto tenta satisfazer a fome dos três filhos. Todos eles são abandonados à sua sorte, sem a certeza da hora de regresso do pai. O trabalho escasseia, as certezas são poucas.

Svevo acaba por sair de casa um dia, naquilo que parece ser um romance com uma mulher endinheirada. Num ataque de ciúmes, a mãe recusa o seu regresso. Arturo Bandini, de início, parece orgulhoso do pai ter arranjado uma amante endinheirada, mas, com o tempo, percebe que o mais importante é a família voltar a ser reunida.

Durante estes momentos conturbados, perde Rosa, a sua primeira grande paixão. Aquele ar de durão, de filho mais velho e principal vigilante da mãe, depressa cai. E volta a ser uma criança, mergulhado na tristeza de perder alguém e na necessidade de voltar a sentir os abraços de mãe.

A primavera há-de chegar um dia, Bandini. Melhores dias virão e todas as dificuldades vão ser uma mera memória.

terça-feira, 27 de junho de 2017

constelação



naquela primeira noite
fulminado da existência que irradias
logo após ires embora
um astro cruzou o céu acima dos meus olhos
as canções ancoradas no peito
nelas eras já o absoluto do fôlego.



Helder Magalhães


Marine Loup

terça-feira, 20 de junho de 2017

ascensão


então veio a noite
a ascensão pelos teus olhos
de céu coalhado.


Helder Magalhães


Ansel Adams

a vida é mais ou menos_ poesia é do borogodó,


Related image


do pre_fácil ao fim



a vida é mais ou menos uma balança
sem pratos, não pende e nem tem
percepção do peso que carrega. a vida é curta 
como um rio que corre por dentro da terra e
não se vê a olho nu porque nossos pés
estão secos. a vida é uma casca de ovo
a embalagem onde nada se compara
ou se pode comparar
de notável perfeição. a vida hoje,
um dia após o outro, o roupão pendurado
na porta do quarto e um corpo de alguém
que não precisa de vestes.
poderia eu ser a vida na tua vida para a vida minha
ter mais vida, mas não percebemos nada
disso. por isso, bebemos
e rimos de bobagens
e somos felizes por um segundo.
se eu fosse poeta, eu me levaria mais a sério.



penélope martins -
* fotografia, curta metragem Meshes of the Afternoon, Maya Deren e Alexander Hammid, 1943.




terça-feira, 13 de junho de 2017

por mais escuta, por mais leitores



Related image



Muitas pessoas parecem preocupadas em incentivar e formar leitores. Ficam repetindo palavras de ordem, “LEIAM”, “LEIAM MAIS”, “LER É BOM”, e eu, que sou uma leitora em processo, fico sempre me perguntando de que tipo de leitura estamos falando.
No começo do ano, estive num colégio para falar com educadores do ensino fundamental, primeiro ao nono ano, e minha proposta era discutir o plano de leitura em sala de aula a partir das considerações iniciais de cada professor, discutindo títulos selecionados e a forma que se processa a leitura desde sua escolha. Em um segundo momento, a conversa seguiria pelas dialógicas com o conteúdo dos livros lidos.
Assim que entrei na sala para a exposição de ideias, senti a disposição do espaço como um problema aparente. Tradição na disciplina corretiva, linear, arrochada, enfileirada. Mesa maior para o professor, uma distância entre os corpos.
A proposta de reconfiguração foi recusada… Era mais prático assim.
Segui querendo saber quem gostava de ler, quem lia em casa costumeiramente. Perguntei qual o livro que indicavam para as crianças com mais entusiasmo.
De cara eu me deparei com “LEIO muito para a faculdade, para a pós, para o trabalho…”, sem contar que o livro imediato da lembrança era o pequeno garoto no planetinha com a rosa e o “TU te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Fiz menção à alguns selos editoriais paulistas (para não ir muito longe) que mantêm um ativo catálogo apto ao debate. Nadinha.
Comecei, então, a flutuar pelas histórias da imaginação, pelas brincadeiras da infância, pela memória no cheiro a bolo assando na casa das avós, por tantos joelhos ralados em tombos de bicicleta, caça às pipas. Veio história, veio lágrima, veio riso.
Passamos a inventariar tudo isso como material imprescindível para lermo-nos e, a partir disso, temos material para afetar outros leitores.
Tínhamos, enfim, salvação para nossas leituras, nossas percepções sobre a relevância de provocar reflexões através dos livros que são, sobretudo, instrumentos para futuras conversas (interiores e exteriores).
A sequência da minha intervenção foi para discutir a busca da re-significação da narrativa presente na oralidade, o indivíduo nas relações que permeiam a sua existência e o envolvimento na leitura – com a presença do livro – como brinquedo do sentir.
Parecia que tudo ia muitíssimo bem até que a coordenadora veio ter comigo uma conversa estranha cobrando um plano de trabalho de práticas mais efetivas para a sala de aula, o que fazer para cada criança gostar de ler e sair devorando com apetite inquestionável os títulos que lhe são indicados – uns com mais de 30 anos de história na escola, sem a menor conexão com sua infância…
Tive que repassar tudo o que fiz, ali de pé no corredor. E ficam reverberando para sempre as perguntas: como encantar uma criança a se tornar leitora sem escutá-la, sem saber de sua história, sem brincar com ela conduzindo as narrativas desse brincar? Como pode ser bom subjugar a capacidade de escolha do outro e empurrar atividades goela abaixo para que ele se exprema dentro de si e dê somente o que a gente quer?
Eu me aproximei da leitura pelas rodas de ciranda que brincava com minha avó, mãe e primos. Aqueles cantares ainda são lidos por mim. Minha formação como leitora passa pelos almoços que levavam violão de sobremesa, por canções da música popular, por canções da tradição oral. Meu afeto com a leitura nasceu lá no ponto do tricô escutando atenta a voz da avó falando sobre pereiras, roupas no tanque, casamento, batom vermelho, massa de pão, surra, travessias longas. Só me faz sentido a leitura porque viajei na memória de meu avô muitas e muitas vezes, de terras distantes à uma época que só posso viver na imaginação.
Ler é antes de tudo saber escutar e penetrar na escuta como quem sabe o bulbo ao ver a folha.
Aos educadores eu desejo toda coragem e fé para resgate das crianças que eles foram.
Image result for penelope martins  - Meu nome é Penélope Martins, sou escritora e narradora de histórias, mantenho conexão com o Clube de Leitores a partir do Brasil para alimentar nossa ponte de leituras em língua portuguesa, sob a rubrica É do Borogodó!