terça-feira, 16 de maio de 2017

naquela tarde



I.
naquela tarde ela disse que me amava. ela sentou na poltrona, acendeu um cigarro, lia um livro que não sei e foi por cima das páginas que eu ignorava que ela me olhou para piscar e dizer. ela disse assim, descomprometida das consequências: ‘eu te amo, tanto’. depois fez uma pausa, enxugou uma lágrima. tive pena de mim. aquilo doeu como uma abelha fustigando o centro do peito. fui incapaz de responder. meus olhos passeavam por ela como os olhos do menino que fita a folha de papel de seda no ar, um pássaro. depois daquilo, balançando o pé no ar com a perna cruzada, ela terminou a leitura e se fez ausência. o cigarro terminou, a luz do sol tingiu os restos da fumaça de lilás.
II.

choveu o dia seguinte, o outro também. o papel de seda encharcou entre as nuvens do meu querer. envergaram os meus ombros. sufoquei a ilusão com um duro golpe. ela ligou, eu não respondi. ela escreveu, eu não li. ela chamou por mim e eu deixei que ela se fosse, aos poucos, sumindo, desintegrando, desfazendo aquele mal. aos poucos ela desistiria de insistir e eu teria que desistir na desistência dela. por aqueles dias corri ver meu time. convidei alguém para minha cama sofrendo não aspirar naquele novo corpo o mesmo perfume que desenhava minhas utopias. engoli a saudade a palo seco. a palo seco foi a expressão que ela usou quando disse que me diria aquilo que disse numa tarde, sentada na poltrona que resta vazia entre as brumas do meu silêncio.


- Penélope Martins - 

* na ponte de afetos que aproxima leitores daqui do Brasil com os de lá ou daí de Portugal... com rubrica 'é do borogodó!', algo pra lá de batucada.

terça-feira, 9 de maio de 2017

cais


o vento roçando
ao de leve pelo eterno
ondular em ti.


Helder Magalhães


La Jetée - Chris Marker

terça-feira, 2 de maio de 2017

teia



ao início das tardes soalheiras
levavas-me pela mão
fazíamos o caminho lado a lado
as sombras uma teia
tecendo-nos como os dias
em crescendo
ensinaste-me a arejar uma casa
o sol vinha à janela
rindo a toda a extensão da pele
e as plantas
que me dizias para regar
talvez continuem
a crescer na água dos gestos.


Helder Magalhães


Ineke Kamps Art

maçã mal cabida, um poema de Carla Diacov com o borogodó necessário e absoluto

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faz já dois candelabros que ela não olha para trás uma mulher de olhar para trás mas então agora é o prato chinês os ossinhos do pato no canto perto da mão esquerda o garfo com seus dentes virados para o quadro onde um cavalo e sobre ele uma garotinha forçando o rosto num raio de sol muito mal pintado num tom de maçã mal cabida ali pobre pobre beleza pobre mal cabido ali faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás metodologia de sondar sem ver uma faca no assoalho de cupins uma vaca bordada no guardanapo novo uma mulher e um homem e uma roda de tortura uma vaca bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada uma vaca bordada na cara dela e se ela se botasse a cantar e se se ela botasse a querer lamber um peito marinho e se ela se botasse a pensar num estupro supracoreografado uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não ela usa um terno cinco tamanhos maiores faz treze luas que ela não faz treze náuseas que ela não olha para trás uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali se ela se bota a voltar a olhar para trás se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar se ela se bota a criar uma boa superstição com taças já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não [olha para trás se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa se ela se bota a entortar o quadro uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura uma carcaça bordada na cara da mulher onde o homem maria de deus onde o homem se ela se bota a cruzar os ossos essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas se ela se bota a pentear a franja com o garfo se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal faz já onze moscas que ela não olha para trás

***


* no vídeo, maçã mal cabida, poema de Carla Diacov na voz de Penélope Martins.

** este post é mais uma publicação para nossa ponte de afetos, Brasil e Portugal, sob rubrica É DO BOROGODÓ, dirigida por Penélope Martins.

*** livros de Carla Diacov estão presentes no catálogo Douda: https://doudacorreriablog.wordpress.com/





terça-feira, 25 de abril de 2017

nidificar


os pássaros vieram
na tarde que nos feria o peito
nidificando o voo
debaixo da pele do abraço.


Helder Magalhães


Laura Makabresku

quarta-feira, 19 de abril de 2017

no verde da folha, amarelo-ouro - história que é do BOROGODÓ!




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Toquinho e Rolando Boldrin, Som Brasil, Rede Globo, 1981.


Cá no Brasil, um apresentador de televisão, desde muito, muito tempo, tem um programa feito inteirinho pra dizer poesia, contar histórias e cantar música popular brasileira. Um programa sobretudo destinado a mapear a oralidade do país, as diversas composições da mesma língua portuguesa em expressões singulares de cada lugar, cada cultura (dentro da cultura) desse país com geografia de continente.

Rolando Boldrin passou por diversas emissoras e atualmente se mantém na TV Cultura, com seu recanto Senhor Brasil. Ele, que nasceu na Cidade de São Joaquim da Barra, interior do Estado de São Paulo. Pequenino, aos 7 anos, já foi ao rádio com sua dupla caipira formada com o irmão (12 anos); eram eles "Boy e Formiga".

Foi sapateiro, frentista, carregador, serviu mesas e atendeu balcão em farmácia. Depois foi firmando teimosia na música, e na década de 50 ingressou a TV Tupi, que não mais existe, ao lado de grandes atores da dramaturgia brasileira.

No vídeo selecionado, Boldrin não está só. Começa por apresentar a poeta Cora Coralina com um texto muito revelador sobre o Brasil. Depois, apresenta as irmãs Alzira e Tetê Espíndola, ambas compositoras e cantoras, figuras imprescindíveis para compreensão da cena musical brasileira... Mas isto rende outra publicação para este blog, que eu farei, em outro momento, com prazer ímpar de quem conhece essa gente espectacular.

Eu sou Penélope Martins, escritora e narradora de histórias, e contribuo para o Blog Clube de Leitores, construindo essa ponte de leituras nossas na força na língua que nos une, porque a palavra é do BOROGODÓ!


terça-feira, 18 de abril de 2017

revelação


assim surges
rosto sobre o fotograma
inundado de luz

em revelação
transcendendo-me.


Helder Magalhães

Sónia Silva