terça-feira, 23 de agosto de 2016

ondulação



e nisto o mar
bramindo a ondulação
dos teus cabelos
trazes a profundidade
do azul coralino
pensei
à deriva no arquipélago
entre os teus olhos.


Helder Magalhães


Anka Zhuravleva arts

um, dois, três... poesia pra já, é do borogodó!

Perguntaram-me quais os poemas que eu mais gosto e respondi que seria impossível fazer uma lista que representasse meus anseios… Eu consigo gostar de poemas que ainda nem nasceram… Enfim… Resolvi fazer uma pequena tiragem de três poemas que mantenho ao alcance das mãos e dos olhos e da cabeça e do coração e da alma e de tudo que é mistério e que ainda não sei e do que nunca saberei… Enfim, transcrevo os poemas abaixo antes que termine com um nó na minha cuca, faço com menção aos livros em que estão inseridos para que possam ser buscados e lidos com o conjunto. Espero que gostem ou podem não gostar, pronto! Mas leiam para não gostar, se for o caso. E beijinhos. E até a próxima.
I. Nada, de Selma Maria Kuasne, inserido na obra “Isso, Isso”, com ilustrações de Silvia Amstalden, da Editora Peirópolis.

Nada no Ocidente é nada vezes nada.
Nada no Oriente é o começo de tudo.
O peixe nada na água.
Nada é uma coisa que vai surgindo
devagarinho.
Existe mesmo alguma coisa que é nada?
Não foi nada! Mas foi…

II. “sem título”, de Mercedes Calvo, inserido na obra “Los espejos de Anaclara”, com ilustrações de Fernando Vilela, da Editora Fondo de Cultura Económica.

Espejo, espejito
yo no quiero saber quién es más bella.
Sólo dime tres cosas
espejito:
quién soy
quién fui
quién seré.

III. Coisas que não prestam, de Alice Vieira, inserido na obra “Rimas Perfeitas, Imperfeitas e Mais-que-perfeitas”, com ilustrações de Afonso Cruz, da Editora Texto.

Há uma candeia
que não alumia
há uma roca
que já não fia
há um coche
que já não roda
e no armário
há vestidos
fora de moda
há um triciclo
que pede escusa
e um chapéu
que já não se usa

e aquilo que já não fia
nem alumia
nem roda
nem se veste
nem se usa
nem corre

– tem uma beleza
do que já não presta
e esta
nunca morre.

* Eu sou Penélope Martins, faço a ponte Toda Hora Tem História, do Brasil, com o Clube de Leitores, Portugal, toda terça, sob rubrica 'É do borogodó!'.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Eu poético: Fardo

FARDO

pensas que sou fardo isolado,
não sou o único a olhar o céu.
a carregar
o que não tenho,
à espera que algo aconteça.

transporto em mim
as mágoas de ver o mundo desabar,
sinto a força das bolas de neve
descendo montanha abaixo.
cada vez maiores,
cada vez mais ruidosas,
varrendo árvores e pedras,
arrastando lama
e tudo o que se atravessa.

mas tudo tem um fim,
toda a destruição termina
com a vitória de uma força contrária.

o mal é travado pelo bem,
o ódio derrotado pelo amor,
o sofrimento substituído pelos dias em que o teu sorriso basta.

fardo
fardo
fardo
como o fado canta
os sentimentos tristes.

sei do peso que carrego,
as minhas costas acumulam os problemas,
as tristezas,
a angústia que parece não ter fim.
não sou o único a olhar o céu,
não sou o único a afogar-me nas incertezas,
não sou,
não sou,
não. 

cumpro o destino.
levo o fardo que me calhou,
sem queixas.
não tenho
mais | menos
azar
do | que | tu
ou
os | outros.

como em tudo, probabilidade.

-----

fardo é apenas alimento para o gado.

-----

como em tudo, perspectiva.


vês
aquilo
que
queres
ver.

Rodrigo Ferrão

Foto: Emília Ferrão

terça-feira, 16 de agosto de 2016

contar e ouvir histórias é DO BOROGODÓ!

Conta uma lenda que três estrangeiros fizeram a mesma pergunta para Buda: "Deus existe?"; e o Mestre respondeu de três formas distintas. Os discípulos de Buda, que ouviram todas as três respostas, e neles se cravou uma dúvida profunda...



Eu sou Penélope Martins, toda terça presente nesta ponte que une o Clube- Portugal e o Toda Hora Tem História - Brasil.


d'oirar


o esplendor da flor
postal doirando na tarde
amor ilustrado.


Helder Magalhães


Marine Loup

terça-feira, 9 de agosto de 2016

enquanto o meu país não lê,





enquanto o meu país não lê, campanhas distorcem conceitos de igualdade e equidade, reforçando o mérito como consequência natural, não oportunidade;
enquanto o meu país não lê, pessoas se manifestam nas ruas com faixas indizíveis como 'queremos intervenção militar' e 'viva o fim da cultura';
enquanto o meu país não lê, jovens negros são espancados até a morte pela polícia que os devia proteger;
enquanto o meu país não lê, mulheres são distribuídas como estampa para o consumo como promessa de um sexo fácil;
enquanto o meu país não lê, indígenas são sacrificados sempre e tanto como antes, contra qualquer ideia de dignidade;
enquanto o meu país não lê, milhares de autoridades religiosas passeiam de helicópteros com dinheiro extorquido em seus templos;
enquanto o meu país não lê, professores são brutalmente agredidos com salários ínfimos e bombas de gás atiradas a mando do próprio governador de estado;
enquanto o meu país não lê, os fogos de artifício distraem quem pagou fortuna para ver uma festa suportada por um povo refém da miséria;
enquanto o meu país não lê, o desvio de dinheiro público é tolerado quando praticado por doutores e empresários e nomes tradicionais;
enquanto o meu país não lê, favelas são incendiadas para abrir espaços aos novos empreendimentos da especulação imobiliária;
enquanto o meu país não lê, crianças portam armas e são mão-de-obra barata para o tráfico de drogas, enquanto outros pleiteiam seu encarceramento precoce;
enquanto o meu país não lê, o lixo é revirado para se transformar em alimento para milhares de famílias.
enquanto o meu país não lê, pedaços de papel minguam seus escritos direitos impraticáveis.


- texto de Penélope Martins, para nossa conexão semanal 'É do borogodó!',
- fotografias de Tércio Teixeira, fotógrafo do Coletivo R.U.A. 


veludo


o veludo da tarde à superfície
das águas as mãos em ave
à espera de um redemoinho
na corrente de ser dança.


Helder Magalhães



Anka Zhuravleva arts