domingo, 14 de outubro de 2012

(A)o dobrar de uma esquina

(ao domingo) Letras Focadas

“Na ponta da pena, soltam-se letras conjugadas, bem focadas, para serem percebidas”


Texto do escritor Emílio Miranda

«Como todas as suas lojas, também aquela ficava numa esquina. A Esquina era por isso, na verdadeira aceção da palavra, um conceito baseado no aproveitamento de esquinas para a implantação de pequenas áreas comerciais. E, dado o sucesso alcançado, continuaria a ser. Pelo menos enquanto fosse ele o dono e o mentor da ideia.

A sua juventude havia sido uma descida ao inferno.
A queda humana é tão fácil que chega a surpreender!
Num dia bebes um pouco mais, no outro, um grupo de amigos convida-te para um cigarro – sentes-te importante! –; hoje fumas um charro que te desinibe, amanhã tomas uma «pastilha» que te conduz ao nirvana; juntas tudo e conheces todos os paraísos. Correção: todos os infernos. Porque rapidamente percebes que os paraísos por onde vagueias estão povoados de demónios.

Levou anos a afastar-se de todos os abismos por onde vagueou, entre tentativas e recaídas, mas finalmente, com a ajuda certa, sentiu-se finalmente capaz de intentar a fuga. Dia após dia, deu passos no sentido correto, e apesar de não ter descoberto o tão ansiado paraíso, nunca estivera tão perto disso, como agora.

Através do recurso ao microcrédito, abriu a sua primeira loja. Durante anos tinha polido esquinas, agora era chegado o tempo de transformar as esquinas em lugares melhores para se estar. Em lugares de boas descobertas.
Por isso, a ideia de chamar à sua loja Esquina.

O sucesso inicial e muito trabalho possibilitaram-lhe, em pouco tempo, abrir outra Esquina e depois outra.

Já ia numa dezena.

Hoje abriria a sua 11ª loja. Era curioso como havia tantas esquinas abandonadas, devolutas; tantas esquinas à espera de serem transformadas em locais mágicos.

Talvez um dia conseguisse que em nenhuma se voltasse a vender pesadelos.

– Bem-vindos! – começou por dizer, dirigindo-se aos amigos e conhecidos, mas também à cerca de uma dúzia de anónimos que, encantados, apreciavam, como se o fizessem pela primeira vez, os artigos expostos. Nada de mais: nas suas Esquinas, havia apenas lugar para corações. Dezenas, centenas, de múltiplas formas, texturas e cores. Muitos, com sabores. A framboesa, morango, chocolate, caramelo. Em caixinhas de diversos tamanhos, mas com uma única forma. Todas com uma mensagem promissora. – Muita gente me tem perguntado como surgiu esta ideia, de abrir as minhas lojas em esquinas de rua. Pois bem, não me cansarei jamais de o explicar: um dia alguém me disse de forma depreciativa que eu nunca passaria de um polidor de esquinas. Quis que não deixasse de ter razão. E é isso que tenho feito; polido esquinas feias e arruinadas. – Risos. – O porquê dos corações? Das mensagens? Dos sabores que adoçam a alma? Ao contrário do que poderia supor-se, o mundo é um local carente de amor, onde todos buscam a mensagem (seja na forma de uma palavra, de um paladar ou de um aroma) capaz de os encorajar. Desejo sobretudo que ao dobrar de uma esquina cada um descubra a sua. Afinal, o que é a vida senão um sucessivo dobrar de esquinas?»

Foto Elsa Martins Esteves

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