terça-feira, 28 de novembro de 2017

Crónica tripeira de Lisboa: um fim-de-semana de invasão

Porto » Lisboa,
17 | 18 | 19 de Novembro




O cerco de Lisboa foi em 1147, durou alguns meses e a cidade foi conquistada por D. Afonso Henriques aos Mouros, com a ajuda dos Cruzados.

Este podia ser o mote das festas que uns amigos dão na cidade, oitocentos e setenta anos após a conquista. A solenidade pede aos convivas armas e munições (minis, vinho e sacos de gelo) e convoca pessoas do norte (especificamente do Porto e Minho), da capital, arredores, sul e outras paragens. É portanto uma mostra de Portugalidade.

Nota: muitos lisboetas acreditam que norte (o conceito regionalista) é Coimbra. Errata: não, Coimbra é centro! Norte é Minho, Trás-os-Montes e Douro Litoral. Lá pelo facto de qualquer terra acima de Lisboa ficar num ponto cardeal diferente, não quer dizer que a origem do termo possa assim ser tão banalizada.

Na festa, os grupos vão fazendo pequenas ilhas e medindo distância. As meninas tímidas protegem-se em bando, os rapazes mais novos vão para a pista improvisada. Os mais habituais ficam na cozinha ou corredores de acesso, circulando pouco. Quem já se conhece desfaz-se em cumprimentos, retoma conversas deixadas a meio num ponto anterior. E depois existe sempre "a novidade" – um número considerável de pessoas que aparece pela primeira vez e, com isso, arrasta todas as atenções.

Tudo parece calmo, as garrafas vão-se abrindo lentamente. Há uma grande panela com uma poção de Panoramix, a quem se vai dando pouco valor – "é suminho", dizem. Só que não é, não é mesmo! Como qualquer poção, esconde grandes poderes - já lá vamos aos efeitos.

Passo muito tempo à conversa, falo com um amigo que aparece na festa com uma garrafa de whisky do Futebol clube do Porto (provocação à casa maioritariamente benfiquista). Depois viro as atenções para outro grupo – discutimos a possibilidade de pegar nas histórias de um deles e transformar a sua vida numa personagem de um futuro romance meu. Ele será tudo aquilo que é, mas com um toque maquiavélico e perverso, nas doses certas.

A lua ainda sobe e a festa começa a deixar de ser uma conversa de café para passar a ser uma pista de talentos. Tudo com imenso cuidado, não vá a vizinha da frente assustar-se. Afinal Lisboa é isto: uma enorme aldeia de casas muito próximas.

Por volta das duas e pouco tudo desce à rua. A festa separa o grande grupo em pequenos aglomerados. Impossível seguirem todos para o mesmo local, organizar a logística de boleias, Uber e táxis. Fazem-se as primeiras vítimas: parte da organização, pais de crianças, pessoas da cidade, os rotineiros de levantar cedo... tudo isto abandona a noite.

Fico nas sobras (na minoria, talvez). Estamos convictos que a noite ainda espera algo de nós e descemos. O grupo é misto, inclui conhecidos e algumas pessoas que nunca vi. A viagem no Uber segue e eu sinto-me alheado do mundo lá fora. Resolvo ter uma conversa longa com uma amiga sobre assuntos sérios. Mas isso fica para depois, somos deixados à porta da catedral do som, na passadeira vermelha.

Fechou uma discoteca em Lisboa e tudo parece um caos de gente ainda maior. Não sei dizer quantas pessoas estão ali, mas nunca pensei ver esta multidão. Começo a perceber que a noite vai ser de perdas, de casos abandonados, de tropeços vários. E, portanto, sinto-me em missão – tenho que proteger o grupo das agressões exteriores.

Danço as poucas músicas que gosto, mas acabo por ir apagando – modinha brasileira martelada, com letras de bradar aos céus: não é o melhor de Lisboa. Consigo perceber que haja público para isto, mas não cantarolo uma frase sequer.

A noite termina com vários sobreviventes (vá lá). Arrasto dois até à roulotte dos hambúrgueres – para não irem para a cama de estômago vazio. Seguimos num táxi até à Lapa, já me deixaram a chave e não incomodo ninguém ao entrar. Os outros dois seguem para outros destinos, fica por ali esta aventura.

O dia seguinte acorda tímido, a vontade de sair da cama é pouca. Abro os olhos cedo, mas deixo-me ficar. A brigada da limpeza ainda não se juntou, vou aguardar que o primeiro se levante.

Saio da cama assim que ouço passos e começamos a encher sacos de lixo, quase em modo automático. Garrafas, copos vazios, cinzeiros, cascas de queijo, caroços de azeitona, lixo acumulado na cozinha. Há um pouco de tudo, a noite foi propícia à acumulação.

Passa quase uma hora até que vou para o banho, já com almoço marcado no Mercado de Campo de Ourique.


O banquete é com um amigo, enquanto mando mensagens a mais pessoas para aparecer. Pedimos ambos uma boa sandwich de carne, com um molho e umas batatas de acompanhamento. O grupo vai crescendo durante a tarde, cada vez maior e mais animado.

Quando saio da mesa para ir tomar um café, encontro a actriz brasileira das novelas da Globo, Giovanna Antonelli. Ela estava ali ao nosso lado a fazer perguntas sobre sumos, enquanto esperávamos. Olhei para a minha amiga e perguntei: “quem é?" - nos segundos seguintes liguei logo a cara à pessoa, mas não sabia o seu nome. Descontraidamente perguntei-lhe então o nome e se estava em Portugal em trabalho. Respondeu-me que não, que estava de férias. E depois tirámos uma fotografia os 3.

Já passava das nove quando fomos jantar à Casa dos Passarinhos – nos limites de Campo de Ourique, mas já a chegar às Amoreiras. Pedimos um bom naco de carne na pedra, acompanhava com batatas, um pouco de grelos e molhos. Cada um tratava dos seus bifinhos, passava pela pedra o tempo que quisesse. Aconselho desde já a visita, foi óptimo.

Depois de jantar, apanho um táxi para ir ter com outro grupo. Hoje vamos a uma festa de anos de 3 amigas, no bar Skones, em Santos. O bar fica numa antiga fábrica remodelada, mesmo na zona do rio - há também um enorme restaurante (que desconheço se é bom ou mau), um pequeno bar com mesas de bilhar e com um ambiente de adega de bons vinhos.

O grupo vai dançando ao som da música. O DJ parece não acertar muito com os estilos e passa de um clássico dos anos 80 para uma música moderna, indo depois a um folk. Nós não sabemos bem corresponder, mas há um esforço colectivo para nos destacarmos do grupo de mulheres de meia idade que nos rodeia. Ah, que figurinhas faziam! Impossível descrever.

Depois do aniversário e dos parabéns, voltámos à pista para os últimos cartuchos. Distribuíram-nos Chupa Chups, isso pareceu dar-me extra poderes de dança. Mas pouco depois é cortada a animação com o Tudo O Que Eu Te Dou, do Pedro Abrunhosa. Sim, esse é o sinal evidente de despejo.

Saímos, o frio aperta ali junto à beira-rio. Decidimos festejar o resto da noite em casa, uma dúzia de nós. Ainda há cervejas de sobra (da noite anterior) e o telemóvel faz a festa. Dança-se mais um pouco, conversa-se e fazem-se uns vídeos. Mas está tudo cansado, o sono começa a fazer os primeiros convites.

Vou-me deitar, um dos meus amigos dorme no sofá. Cubro-o com a bandeira do Benfica e tiro-lhe uma foto para recordação póstuma. Vou dormir, por hoje basta.

O domingo é para combinar a volta para o Porto. Marcam-me viagem para as 17, não tenho muito tempo para passear - mas ainda passo na Cristal, para o tradicional croquete. Desço as ruas da Lapa em direcção a Santos. Numa rua, avisto uma casa com pouco mais de 2 metros de diâmetro e imagino o que é viver ali, acordar e ir de uma janela à outra em poucos segundos.


Caminho mais e entro na Igreja de Santos-o-Velho. Sou imediatamente atraído pelo magnífico tecto pintado, com contornos dourados. Entre outras histórias (que investigo mais tarde) sobre este espaço, registo a seguinte curiosidade:

“O convento, entretanto entregue à Ordem de Santiago, foi também espaço de relevo em diversos momentos da nossa História, tendo ficado indelevelmente ligado à desgraçada saga Nacional de 1578, quando pela mão do Rei Dom Sebastião, Portugal se perdeu na Batalha de Alcácer Quibir.


Diz ainda a lenda que o rei, que muito gostava de passar temporadas neste espaço, ali ouviu Missa pela última vez antes de embargar para a sua derradeira viagem e que terá sido ali mesmo, algum tempo antes, que terá tomado a decisão que acabou por resultar na perda da independência de Portugal.”


Saio em direcção ao Cais do Sodré e paro na Igreja de São Paulo. Mais um tecto fantástico, em Trompe-l'oeil. Aprendo que esta magnífica e exemplar obra foi reconstruída depois do grande terramoto que arrasou a cidade.

Espanto-me com a sua beleza, com os pormenores que convidam a ficar em silêncio e contemplação. Tantas e tantas vezes ali passei, de noite é o nosso local de convívio. Mas passou-me completamente ao lado, até hoje. Visita cumprida.


Continuo em direcção à rua do Alecrim, que sobe até Camões. Ali recordo um almoço que tive há uns meses, no Palácio Chiado, mesmo à frente do quartel dos bombeiros: uma experiência muito interessante. Passo à frente do teatro Trindade e estaciono uns minutos no miradouro de São Pedro de Alcântara. Impossível ignorar a vista da cidade, com o castelo a observar indiferente o casario que se estende até ao Tejo (foto no topo da crónica).

Passo pelo Príncipe Real, rua da Escola Politécnica, botânico. Registo mais um tecto de uma Igreja, a de S. Mamede. Mas saio à pressa, tiram-se fotos de um baptizado recente. Reparo na eminente abertura de uma nova livraria, a Almedina, mesmo a chegar ao Rato. Espreito lá para dentro, com pena de ainda não ter aberto – fica para a próxima.


Aproximo-me do jardim da Estrela, volto a registar a perfeição das tardes de domingo daquele lugar. Decido tirar uma foto à fachada da Basílica, que tanto me acompanha nas visitas a Lisboa. Sigo pela Buenos Aires e despeço-me de todos. Digo que agora só em 2018, vamos lá ver se cumpro.

Parto para o meu Porto, o número de quilómetros continua a aumentar e o tempo passa. E eu importado com isso!


Texto e fotos: Rodrigo Ferrão

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