quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Crónica tripeira de Lisboa: os ares do campo e a cidade lazer

Porto » Lisboa » Santo Estêvão, 
27 | 28 | 29 de Outubro



Apanhar boleias pelo Facebook, sites ou até grupos de WhatsApp é relativamente normal para quem faz várias vezes a estrada entre Porto e Lisboa. Esta sexta-feira não é excepção e já tenho a minha viagem marcada, encontro com o desconhecido na estação de Campanhã.

Nestas dinâmicas também já assumi a condução. Não é algo que o faça com muita regularidade, pois o meu Clio não vai para novo. Num Santo António já me avariou, e tive que trazer as boleias num automóvel pago pelo seguro, na volta. Normalmente só o uso quando tenho mesmo que encaixar Lisboa a outro destino qualquer.

Assim aconteceu há pouco tempo, quando, no mesmo dia, tive dois casamentos no Ribatejo. E isso tem muito a ver com a crónica de hoje, pois vou regressar à Mata do Duque, Santo Estêvão. Mas já lá vamos!

Interessa contar 2 episódios de boleias que dei. No primeiro, acordei transportar uma pessoa através de um site. Ia com outras pessoas, um amigo meu inclusive. Este homem pareceu-me uma pessoa interessada: não exigiu que o fosse buscar a lado algum, apareceu à hora marcada e cumpriu com o pagamento. Só tinha um senão: ia completamente bêbado. Por momentos achámos (eu e os restantes), que nos ia abandonar na bomba de serviço. Mas não, ele contou-nos histórias do infinito e mais além, um mundo que dificilmente conseguiríamos alcançar naqueles quilómetros que partilhámos. 

O segundo episódio, talvez mais épico ainda: aceitei dar boleia a três desconhecidas e a um amigo. Mas duas eram mãe e filha, a criança tinha uns 7 anos. Tudo corria bem até que, do nada, o meu carro deu sinal que não tinha água. Encostei-o na área de serviço da Mealhada, saio para ver o que se passa. Mal abro o capô, vejo uma enorme mancha e não está lá a vareta que tapa a saída do óleo. 

Viro-me para o meu amigo e digo: "não stresses, não digas nada, vem comigo". Entrámos na área de serviço e pergunto ao homem se é normal a vareta saltar. Ele diz-me que é impossível, que isso não acontece. Volto ao carro, tentando perceber o que fazer. 

Passou-me várias vezes pela cabeça que ia ficar numa área de serviço, com 3 desconhecidas (entre elas uma criança) e o meu amigo. Mas, descontraidamente, enchi o carro com água e virei-me para ele e disse: "não entres em pânico, vou ali ver se arranjo qualquer coisa e tapo isto - vamos ter que chegar a Lisboa."

Vejo um arbusto, retiro um pau. Encontro uma prata no chão, de um maço de cigarros, e enrolo-a. Dirijo-me ao carro, olho para o cano e simplesmente espeto o pau lá dentro, com a prata. O meu confidente olha-me com alguma estupefacção e, admirado com os meus recentes dotes de MacGyver, disfarça quando lhe digo: "está calado, temos que chegar ao destino."

A viagem rolou normalmente, como se nada tivesse passado. Nesse dia chegámos a Lisboa, tal como hoje. Sou conduzido por uma professora da Póvoa de Varzim. O carro atrasou, estava um trânsito infernal no Porto e a nossa última boleia teve que vir ao nosso alcance, de metro.

A viagem é feita de conversas profundas, toda a gente põe algo de si. Nem sempre se encontram pessoas interessantes, mas, se pensarmos bem, ir de carro é sempre um convite para conversar um pouco. E isso ajuda o tempo a passar.

Chegado a Lisboa, contas feitas, abandonado na Basílica da Estrela, sigo para a Buenos Aires. Lá me espera o jantar, já toda a gente chegou e bebem uns copos. Estão pessoas que frequentam os mesmos espaços, mas, na minha história de vida, surgiram em tempos e situações diferentes. 

Dedico-me mais a matar saudades e a aprofundar conversas. Existem pessoas novas, conheço-as naquilo que posso e que o tempo permite. O jantar evolui sempre muito rápido e lá descem os conquistadores ao Zé Tó, no Cais do Sodré. Já começa a ser hábito ir fechar o estaminé, é quase um trajecto sagrado.

Hoje alguns rapazes e raparigas entram na dicoteca Lust. Dança-se, dança-se mais, canta-se e os olhos acompanham as luzinhas. Perdemo-nos, encontramo-nos, o drama de partir o grupo ameaça e esconde-se a todo o momento. A sorte da noite mede-se mais ou menos assim. 

Saímos já cansados, todos, com os sons bem martelados na cabeça. No meu caso, já só me interessa dormir. Viver la vida loca é muito bonito, mas todas estas viagens saem-me do corpo. Táxi até casa, contar até dez e adormecer. 



Acordo relativamente cedo para quem viveu a noite anterior mais do que o que devia. Estou bem disposto, hoje vamos ao campo.

Aparecem para nos apanhar, já a meio da tarde, e depois de já ter passado de um sofá para uma cama. Seguimos cinco para Santo Estêvão, Ribatejo profundo.  

A festa de anos é de bons amigos, habituados a fazer bem as coisas e a receber principescamente. Ali juntam-se gerações de pais, filhos, amigos e crianças. A conversa que hoje procuro é com os mais velhos, sobretudo sobre as memórias dos tempos da juventude deles, em Lisboa. Mas também as aventuras de quem, como eu, já viveu no Porto. Assim se percebem os tempos, as raízes, as nossas famílias. 

A pista anima, um DJ português nascido no Reino Unido passa o som. As pessoas usam máscaras, perucas e outros acessórios que sobraram do casamento que quase todos nós vivemos ali no mesmo local, uns meses antes. 

Tiro uma fotografia na casa-de-banho, para a posteridade - "Lembre-se que estamos no campo." Esse é o sentimento que nos faz esquecer a cidade e que me fica nesta noite gravado.

A hora muda e isso faz com que todos ganhem uma nova energia. Largados uma vez mais no Cais do Sodré, junto dois a mais um grupo de perdidos que entretanto se cruza com o nosso bando. A noite não foi mais do que dar umas voltas, celebrar um momento mais no calendário desta cidade, já a lua ia alta. 

Eu e um amigo partilhámos um táxi na volta. Mas antes ainda comemos um hambúrguer, mesmo ali ao pé do Tejo. Falámos um pouco do fim-de-semana, do que cada um leva. 



O sol ilumina a residência e hoje vou almoçar a casa de duas primas e de uma amiga (que não está). Saio lento, óculos escuros aplicados. Cumpro o ritual de croquete e café na Cristal, ignorando as "Tias" de Lisboa. Passo pela Taberna dos novos Tempos, dos bitoques (prego no prato, assim diria no meu Porto) que a Patrícia nos dá à noite, quando decidimos ir lá. 

Entro no meu jardim preferido de Lisboa, o da Estrela. As crianças brincam, as pessoas respiram ar puro, os patos passam alinhados até ao lago, só se vê sorrisos. Sim, aquilo podia ser o Céu ou a personificação do Paraíso, numa ordem cósmica perfeita e muito ajustada, uma confraternização pura. 



Apanho uma amiga minha no Pingo Doce, o do Rato. Comprámos uma entrada e uma sobremesa, depois do café tomado. Ela insiste em apanhar um táxi, temos como destino o Terreiro do Paço. Vou resistindo, vou resistindo; mas ela ganha. Conseguimos um, metros abaixo, descemos até ao destino.

A casa das minhas primas é lá bem no alto, vários lances de escada. A entrada é um pouco sinistra - qualquer comparação com um beco escuro da Idade Média não será certamente exagero. As escadas rangem e nós vamos ficando sem ar. Mas, já no destino, as meninas abraçam-nos e recebem-nos com o melhor sorriso do mundo.

Estas construções são frágeis, cheias de acrescentos bem engenhados por um qualquer portuga desenrascado. Assim é a casa-de-banho, um corredor cheio de pequenas janelas até ao local propriamente dito. Mas depois os olhos cedem perante o casario encavalitado de Lisboa, com a Sé a espreitar, lá ao fundo. 



Do lado oposto, temos o Terreiro do Paço, imponente expressão da Lisboa reconstruída após o terramoto. O almoço vai tomando o seu rumo, entre risadas longas e conversas sobre a vida na capital, os projectos e sonhos de cada um. 

Descemos até ao café cá baixo. Enquanto pedem o meu, resolvo ir à Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha. Com uma brilhante porta Manuelina, destaca-se naquela rua, escondida na sombra alta dos antigos ministérios. 

A Igreja foi reconstruída depois do terramoto, substituindo a primeira Misericórdia do país. O interior denota o estilo Pombalino, decorado com azulejos e estuque trabalhado. O tecto é um verdadeiro acontecimento, registo isso numa fotografia.



Eu e a prima (que sobrevive ao grupo) subimos ao Chiado, rumo ao Largo do Carmo. Cheio de gente, nem parece Domingo. Lisboa celebra o último dia de descanso assim, na rua. Talvez isso no Porto seja diferente, mais caseiro. Aqui vive-se o sol, bebe-se uma cerveja - tudo finge que amanhã não é segunda. Abraço esta ideia, ignorando que ainda faltam trezentos quilómetros até ao meu Norte.

Vamos ao Topo Chiado (primeira foto, acima) e derretemos a tarde à conversa. Sigo pelo Camões, passo a Assembleia e noto que a noite já me abraça. A hora mudou, penso. 

Descarto uma boleia antes de ir apanhar a mala a casa - uma casa não minha, mas que funciona como porto seguro, de onde avisto todas as aventuras que a cidade me esconde. Memórias que insisto viver.

Texto e fotos: Rodrigo Ferrão

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