terça-feira, 10 de outubro de 2017

Eu poético: Espelho

ESPELHO

Disseste-me para ver no espelho aquilo que sou.
Vi um homem de cabelo forte, nariz grande e olheiras bem fundas.
Seguro e inseguro, carente e preenchido, completo e com lacunas, intenso e distraído, especial e banal, com certezas muito certas ou apanhado em contradição no minuto seguinte.
Ser neste manto de humanidade, simplesmente sem respostas, procurando as várias significâncias de uma vida tão rápida, tão desprovida de lógicas e onde a paz interior é um projecto futuro de alcance duvidoso.

Depois analisei quem dizes ser.
Somos um por dois, um sonho uno que não sabemos o que é.
E mesmo que isso seja uma quimera em constante mutação,
acredito no amor assim.
Talvez seja um crente sem destinos delineados,
talvez deposite em ti várias coisas que não sou,
talvez me deixe enganar pelo teu feitiço e acredite, quando penso baixinho, que és a melhor pessoa que podia ter pedido.

E mesmo que tu representes exactamente o contrário daquilo que me fazes ver,
apanhamos o barco para atravessar este rio de tormentas.
De manhã eu sou o Douro e tu o Tejo,
mas ao pôr-do-sol desaguamos no mesmo mar.

Conto-te um segredo: não quebres este espelho.
Juro-te que um dia vamos até à América.

Rodrigo Ferrão
Foto: Rodrigo Ferrão

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