quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Crónica tripeira de Lisboa: dias felizes e depois o fogo

Porto » Lisboa,
12 | 13 | 14 de Outubro

Logísticas à sexta-feira: sair do Porto implica sempre um golpe de sorte, uma ténue linha entre o que pode ser uma viagem tranquila e a rápida transformação numa carga de lenha - a transportar às costas, depois de uma semana inteira de trabalho.

Sair do emprego a horas, mala já preparada.
Trânsito da cidade - especiais notas para a VCI e ponte da Arrábida.
Apanhar boleias.
As pessoas serem pontuais, no local combinado.
O carro ter o depósito cheio.
Não apanhar trânsito à chegada de Lisboa.
O condutor deixar-nos num sítio central.


Neste fim-de-semana sabia que não ia ver muitos dos meus habituais. É pura coincidência estar um vazio de amigos na cidade, mas vi nisso uma oportunidade de dias mais calmos. É imperativo passear, é obrigatório encontrar pessoas que nos são especiais e voltar ao ponto de conversa anterior, como se tivéssemos estado juntos ontem mesmo.

Saio rumo à capital com essa consciência, num carro a três. O tempo é passado a desbobinar a minha vida recente; nessa arte consigo ser exímio quando me encontro inspirado. As músicas rolam, entre as mais recentes baladas sul-americanas descobertas pelo condutor.

Depois de fazermos um pequeno pit-stop na casa onde eles ficam, seguimos para o XL, na Calçada da Estrela. Aí ficámos dois e, de cerveja na mão, corro o menu a ver o que há. Depois de uma entrada, escolho um bife com um molho supersónico, o meu amigo vai para outro, mais rústico.

Ambos bem servidos, cheios e satisfeitos, garrafa de vinho traçada. A conversa desdobra-se em mil sonhos, mil diagnósticos e prognósticos, algumas conclusões e (in)certezas. E nisto chega a minha prima, o namorado e o amigo que me vai acolher esta noite em sua casa.

O grupo desfaz-se e partimos três para pousar a mala. A dificuldade em estacionar começa a fazer comichão. Depois de mil voltas na Lapa, conseguimos abandonar a viatura no local possível, de legalidade duvidosa. É só o tempo de deixar as trouxas e partir. O rumo habitual é o Zé Tó, na zona do Cais do Sodré. Uber a chegar, siga.

Este café vira uma mega bica de cerveja à noite e é mesmo isso: não mais do que um sítio para uns finos (sim, não me vendo ao conceito de 'imperial'). É lá que qualquer perdido encontra alguém e, ritual que se repete, assim é comigo - o grupo aumenta sempre, concluo.

A noite não é para levar até tarde. Já com muitas despedidas feitas e algumas pessoas perdidas, abandonámos o local a pé. Eu e o meu amigo pomos a conversa em dia, caminhámos até à sua casa. Cais do Sodré, Santos, subir pela Estrela e finalmente Lapa. Transformámos uma curta viagem de táxi em meia-hora de passo lento.

Acordar na Lapa e não ir à Cristal é quase pecado. Que o digam as tias: figuras míticas do imaginário português, de certas zonas do Porto e Lisboa. A revista ¡HOLA! é a mais presente nas mesas das senhoras de cabelo armado, os senhores apostam no Expresso. Lá vejo a Helena Sacadura Cabral, uma habitué desta rua.

Ignoro-as copiosamente, estou mais focado no café (recuso usar o termo 'bica', mas também parece disparate aplicar ali um 'cimbalino') e nos croquetes. Este é o manjar possível quando a manhã vai longa - a dose certa de energia para me fazer à estrada.

Caminho a passo largo pelo jardim da Estrela, há muito que quero ir à Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, mesmo ali ao lado do Reservatório da Mãe d'Água das Amoreiras, que ainda não conheço. Depois de cruzar o Rato, subo até lá cima e dou uma volta ao jardim, zona por explorar. Potencial não falta: o aqueduto, a maravilhosa capela de Nossa Senhora de Monserrate, encaixada num dos seus arcos. Tudo sítios de uma singela harmonia.


A colecção do museu impressiona-me, anoto nomes. Podia passar horas a falar de tudo o que vi, mas hoje deixo apenas uma referência: Susumu Shingu. Toda a obra de Arpád Szenes e Vieira da Silva é apaixonante, isso já sabia. Mas o museu dá-nos muitos mais artistas, trabalha o nosso imaginário de uma forma difícil de expressar. Só vendo.

Shingu foi o nome que trouxe para casa. Talvez por sair completamente fora daquilo que já vi ou pensei sequer ser objecto de arte. Como não imaginar um futuro em harmonia com a natureza? Talvez eu seja um pessimista crónico e este japonês um visionário!


Desço ao Príncipe Real, hoje é dia de feira e mercado biológico. Observo o corrupio de gente, antes de decidir parar num café de esquina, onde mato uma sande de panado. O meu próximo destino é o Convento dos Cardaes.

Uma voluntária chega para me cobrar os 5 euros do bilhete e me prometer uma visita guiada. E que bem valeu a curta espera, o Convento e a Igreja são absolutamente imperdíveis, um dos sítios mais surpreendentes que Lisboa guarda.

Fundado por Luísa de Távora para alojar religiosas da Ordem das Carmelitas Descalças, o quinto desta ordem em Portugal, todo o espaço é arte. A pedra do túmulo da fundadora está intocada, mesmo depois de movido o processo dos Távoras, por Dom José e o Marquês de Pombal, já no século XVIII. Na verdade, todos os brasões desta família foram picados e destruídos no reino, mas não se sabia que Luísa estava sepultada neste convento, porque estamos dentro de uma ordem de clausura.


Aqui contemplei o estilo maioritariamente barroco da Igreja, mesmo que tenha alguma pintura maneirista. A senhora explicou-me a diferença surpreendente entre os azulejos holandeses da capela (que destacam mais o branco do que o cobalto, com menos preenchimento do espaço) dos azulejos portugueses. A arte da azulejaria portuguesa, posterior, usa mais o cobalto que o branco e ocupa o espaço. Isso é bem visível aqui, um bom exemplo de comparação.

Vejo as colecções que as freiras (geralmente senhoras da nobreza que se convertiam) trouxeram como dote, a riqueza da colecção é formidável. Surpreendente a organização do refeitório, com as mesas próximas das paredes e um grande corredor central. Por fim, os pátios interiores a fazer lembrar alguma influência árabe, com árvores de fruto e água a correr para o centro.

Desço ao Chiado, encontro agora uma amiga. Parámos na Kaffeehaus e gastámos toda a conversa que a distância não consegue resolver e pôr em dia. Passadas umas horas, vamos lentamente em direcção à Assembleia, subindo novamente à Lapa.

De volta a casa, está na hora de ir ao supermercado e organizar o jantar. Duas pessoas trouxeram amigos, alguns trazem cerveja e vinho, umas sobremesas e, de repente, somos dezasseis. Nestes encontros aleatórios aparece sempre alguém que conhecemos de outras bandas e, surpresa minha, o sobrinho de uma professora amiga, de Sacavém, entra em casa com uma guitarra à mão. Ele e o amigo vão-nos dar música, mal o jantar de alho francês à brás termina.

Conversa puxa conversa, risadas altas, alguns pontos de ruído espalhados pela casa. O sarau dura até à última gota de vinho branco e até à última mini guardada no frigorífico.

O destino é novamente o Zé Tó, no cais: a história repete-se. Fazem uma Insta story de mim e publicam, enquanto estou distraído. Só no dia seguinte percebo que me transformaram em coelho.

A noite estica um pouco mais, terminámos num bar da rua cor-de-rosa. Mas a vontade de voltar a casa é maior e seguimos quatro num táxi.

Enquanto a massa de atum se auto-cozinha, vamos tendo conversas metafísicas, mega profundas, com o seu toque espiritual. Durante a cena cinematográfica, o telemóvel passa música, um corpo jaz no sofá, três mosqueteiros aguardam o pitéu. Cenário ajustado para os primeiros raios de sol, assim se cumpre.

Metade do grupo acaba por ir embora e eu, cheio de sono, deito-me por volta das 6.

Domingo arruma-se rápido, há sempre pressa para planear a volta. Desço à Cristal, hoje troco o café por um sumo e aposto em dois croquetes. Já em casa, voltámos a sair para o supermercado. Cozinhámos um belo bife de atum, começámos a preparar as coisas para partir.

Passam algumas horas, aparece um primo num lusco-fusco, para um abraço. Depois apanham-me na Estrela.

Na despedida prometo voltar, como sempre.

Autoestrada rumo a norte e somos obrigados a sair. Já tínhamos passado por um incêndio, mas sabíamos que havia muitos mais. Sem perceber totalmente a dimensão de tudo, mas entendendo a gravidade da situação, chego mais tarde do que habitual ao Porto.

E é então que consigo começar a processar aquilo que vivi. Deixo uma nota no Facebook, no dia seguinte:

Ontem fiquei assustado com a ideia de me desviar de uma autoestrada, sair para a Nacional 1 e ver tudo parado. Perceber que ao fundo havia mais fogos. Acho que perdi a conta por quantos passámos, a certa altura parecia o Inferno de Dante, um clima de bafo apocalíptico.

Parados na saída da Pampilhosa, cortar por estradas secundárias, passar pela Mealhada e ver trânsito de hora de ponta de uma grande cidade. O GPS enviar-nos para Cantanhede, outro incêndio. Passar pela A17 e perceber hoje que há um vídeo que mostra um condutor cercado de chamas em Vagos, por onde passámos antes.

A minha viagem esticada nunca foi de pânico, mas sentia-se um nervoso. O volume de carros era impressionante. Hoje acordei e pensei que atiçar mais uns quantos fogos, ali perto da estrada, podia significar uma tragédia de proporções nunca vistas. A juntar à tragédia que me parece que já estamos a assistir.

Pensar que grande parte destes mortos são pessoas que nunca tiveram nada, que trabalharam uma vida toda. Pensar também nas pessoas que assistiram e sobreviveram: perderam tudo. Sentir que vão ter que ter coragem para continuar.

Tudo isto me dói.

A minha irmã está sem comunicações a espaços, ontem chegou a casa e tinha um manto de cinza na mesa da varanda. Um amigo meu não sabia se ia ficar sem a sua casa de família.

São tantas e tantas histórias nossas a juntar às que nunca saberemos.

Estes são os nossos atentados, basta destes terroristas. É preciso haver responsáveis, é preciso deixar de se assobiar para canto. O mundo e o nosso país continuam a ter mais calor. Não vamos mudar estas notícias se não começarmos nós próprios a mudar alguma coisa.

Texto e fotos: Rodrigo Ferrão

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