quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Eu poético: Fardo

FARDO

pensas que sou fardo isolado,
não sou o único a olhar o céu.
a carregar
o que não tenho,
à espera que algo aconteça.

transporto em mim
as mágoas de ver o mundo desabar,
sinto a força das bolas de neve
descendo montanha abaixo.
cada vez maiores,
cada vez mais ruidosas,
varrendo árvores e pedras,
arrastando lama
e tudo o que se atravessa.

mas tudo tem um fim,
toda a destruição termina
com a vitória de uma força contrária.

o mal é travado pelo bem,
o ódio derrotado pelo amor,
o sofrimento substituído pelos dias em que o teu sorriso basta.

fardo
fardo
fardo
como o fado canta
os sentimentos tristes.

sei do peso que carrego,
as minhas costas acumulam os problemas,
as tristezas,
a angústia que parece não ter fim.
não sou o único a olhar o céu,
não sou o único a afogar-me nas incertezas,
não sou,
não sou,
não. 

cumpro o destino.
levo o fardo que me calhou,
sem queixas.
não tenho
mais | menos
azar
do | que | tu
ou
os | outros.

como em tudo, probabilidade.

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fardo é apenas alimento para o gado.

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como em tudo, perspectiva.


vês
aquilo
que
queres
ver.

Rodrigo Ferrão

Foto: Emília Ferrão

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