segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Lisboa teve muitos tempos verbais - a apresentação do meu livro

Todas as fotos desta publicação são de Isabel Albuquerque

Aqui há uns anos tive um único convite para me mudar para Lisboa. Era livreiro e achava que o ia ser por muitos mais.

Estava enganado. Não só fui vetado pelos meus responsáveis do Norte, como, passado algum tempo, deixei de vender livros.

Há muita gente que ainda acha que trabalho nesse mundo das livrarias e editoras. Mas não. O tempo passa e eu estou, há mais de três anos e meio, na indústria têxtil. Sorrio sempre que alguém me pergunta como vai o meu emprego na Bertrand? Aqui entre nós, não digam a ninguém: nunca trabalhei na Bertrand!


Caminho a passos largos para comemorar 6 anos do blog que criei. A Ana e a Raquel estão lá comigo, quase desde o início.

Longe vão os tempos onde a novidade trazia gente. Longe vai a sensação de sentir que os espaços (onde se discutem interesses comuns) são puros. Só nós sabemos ao certo os dias que dedicámos a publicar coisas, a criar, a divulgar e a animar os grupos e páginas que gerimos. Só nós conseguimos perceber o trabalho que isso é, o retorno que nos deu e a importância que teve nas nossas vidas, nos nossos encontros e discussões.

Hoje tudo vem ter connosco, o Homem busca cada vez menos. Já não lemos o jornal, o jornal é que nos aparece num telemóvel ou computador. Deixamos de mandar nas máquinas, elas lentamente consomem-nos. E nós vamos, gastando e consumindo o tempo.

Vivemos num mundo onde há cada vez mais imitações. Tudo começa a parecer-nos um dejà vu, uma sensação permanente de vermos a vida em modo de repetição. Mas para imitar e ser igual, mais vale seguirmos outros rumos. E nós os três somos exemplos disso.


Eu publiquei um livro de poesia, mesmo sabendo que escrever nunca foi para mim uma evidência. A Raquel conciliou as taxas e os códigos com a publicação de dois romances e tantos outros textos. A Ana nunca deixou de ser jornalista, a escrita está-lhe no sangue. Hoje também é artesã.

As pessoas sentadas aqui comigo são pessoas felizes. E são porque lêem, porque gostam de livros, porque se entusiasmam com quem também os lê, porque conseguem encontrar nas palavras várias respostas.

É fácil dizermos dez ou quinze livros que nos marcam, recordamos ene nomes de personagens, sonhamos ser alguém que não existe, fazemos questão de ir ver os escritores que mais gostamos. Sonhar é gratuito… e a gente sonha muito!

Ler é viajar, é descobrir, é escape, é o que quiserem que seja. Mas é um prazer cada vez mais posto de lado. As pessoas queixam-se do tempo. Mas o tempo continua a contar da mesma maneira. Nós os bobos é que o usamos de forma diferente, inclinados e absorvidos por um telemóvel, entretidos com o nada. A esfregar os dedos de cima para baixo, de baixo para cima… como um pêndulo mecânico de um velho relógio.

Escrever rompe com esse status quo dos tempos modernos. Escrever, acto de coragem dos que não negam aos outros parte de si, é uma pedra no charco, um acto próprio dos que acreditam numa ordem diferente das coisas. Escrever sou eu e todos os que não se conformam.

Nós aqui estamos, sem medo. Jamais quebraremos por ser criticados.


Lisboa acolhe-me num grande abraço. Aqui o sinto, convosco. E muitos de vós estão aqui, agora… mesmo que nunca nos tivéssemos cruzado por cá.

Esta cidade nunca foi minha, mas sei que tem muito de mim e da minha história. Foi cá que o meu pai estudou, saído de um colégio interno e lançado nos anos agitados da década de 70. Cidade da minha irmã mais nova, unida pelo mesmo percurso do meu pai na faculdade. Andaram pelas mesmas ruas, pelo mesmo Tejo, pela mesma luz. Quarenta anos os separaram dessa vida aqui.

Em Lisboa há 3 sítios que invariavelmente se cruzam com as minhas visitas em família: o zoo, o museu das janelas verdes, a Gulbenkian. O meu pai sempre nos contou a história da família. Belém não era só local de pastéis, era também visita ao sítio onde os Távora perderam a vida, mesmo ali perto. Sempre foi normal ver exposições onde identificávamos objectos que eram do nosso avô. Lisboa fez parte de um passado vivido por outros, múltiplas vidas que estão na minha origem.

Também é a cidade dos livreiros antiquários do meu pai. Sei bem o que é bater o chiado e a baixa de lés-a-lés, por becos e ruelas que só ele parece ter gravado na sua cabeça. Fazíamos também visitas frequentes ao museu dos coches, passávamos pelos bifes da cervejaria Trindade ou da Portugália, por vezes um saltinho a Cascais.

Lisboa é a cidade dos amigos do meu pai. E é encantador ver alguns aqui comigo. É sinal que ele fez tudo bem - divertiu-se, apareceu, ligou, não deixou de vos dar um abraço. A amizade sobreviveu ao tempo. Permaneceu, mesmo na distância.

Lisboa é também a cidade da minha irmã Teresa, onde veio coleccionar ainda mais amigos, onde conheceu o meu cunhado, onde foi pedida em casamento. Sei perfeitamente o que ela sente quando cá regressa... e a enorme vontade de matar saudades, pegar nos amigos e celebrar. Ah, também sei que ela adoraria ter mais uma cunhada cá – seria um motivo extra para fugir, de vez em quando, de Viseu.

Para mim a cidade é, cada vez mais, um aglomerado de amigos. Visitas obrigatórias que ficam por fazer, não posso assegurar todas. Programas a correr, para ver se vou ao maior número de capelinhas possível.

Quem me dera poder abraçar-vos mais, celebrar-vos mais, dizer-vos mais vezes o que representam e o que são para mim. Os telefones e os facebook ajudam, mas não são substituto.

Não podendo estar aqui mais, guardem por favor a certeza que o sentimento que nos une mantém-se inalterável. Vocês estão cá, vocês vivem comigo.


Escrever um livro foi o que melhor fiz nos últimos anos. Nunca foi um plano, jamais um projecto pensado como objectivo. A poesia aconteceu, a escrita surgiu hesitante, o livro nasceu.

Há uns meses, estava a falar noutra cidade e a explicar que sinto um super-poder. Um super-poder de estar convosco, partilhar meia dúzia de palavras, poder celebrar ainda mais abraços. Num dia dedicado a um livro, num dia que me celebra.

Nós por vezes esquecemo-nos de festejar. Achamos que não vale a pena marcar aniversário, dizer o quanto gostamos de alguém, que não adianta mais esperar ansiosamente a noiva no altar ou pegar no telefone para escutar quem fala do outro lado. Julgamos que não vale a pena. Achamos que o tempo não está a contar. Pensamos, pensamos, pensamos... E não agimos.

O esquecimento é um sinal do nosso tempo. Eu fiz este livro para que não se esqueçam deste momento, deste instante de mim. E para que eu tenha ainda mais motivos para vos abraçar, para vir aqui falar mais vezes, para festejar a pessoa que sou convosco.

Agradeço à Ana e à Raquel a amizade que nos une. Podíamos ser amigos mesmo que não existissem palavras ou livros. Mesmo que não nos víssemos nosfacebooks da vida ou nos cruzássemos tão raramente por aí. Podíamos ser tábuas rasas, desprovidos de muita coisa. Mas não somos, ainda bem que não somos. Os pontos que nos unem são cada vez mais pontes construídas, num enorme rio de distância.


Lisboa será sempre uma cidade a abraçar. Esta livraria e este espaço também. Todos os que estão aqui reunidos, neste aqui e agora. Todos os que me ajudaram a acreditar e a concretizar este livro. Toda a minha família fantástica, os amigos que nunca me largam. Os que vieram do Porto e de outras bandas só para estar neste momento feliz.

Fantástico!

Esqueçam então parte do que disse. Lisboa é hoje minha, amanhã também o será. E, sem eu me dar bem conta, sempre o foi.

Obrigado a todos por este momento.

*Rodrigo Ferrão, no dia da apresentação de «Todos os tempos verbais», na Livraria Ferin

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