sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Eu poético: Naipe

Naipe

tenho a sensação
de estar a olhar para o rio
e sentir a vida a passar em rodapé,
como se fosse a película de um filme,
nos frames da minha história.

de lado, tenho o amor recente
que escolhi outro dia.
sorri com as histórias que me conta,
fala das viagens com que sonha,
promete ver-me e vir a meu encontro,
mesmo apesar dos ses.
recorda os beijos que demos e o seu significado.
conta-me os esquemas que usou
e a coragem que teve de vencer.

mas nada ouço.
vejo apenas uma boca a abrir e a fechar,
parece que estou no fundo de um aquário.
no íntimo sei
que já virei a sorte deste date.

dou um trago no vinho,
limpo cuidadosamente a boca
e digo-lhe que,
apesar dos ses,
ainda há os meus mil.

tenho medo do passado,
tenho medo de voltar ao mesmo,
tenho medo de partir e não ter alguém à minha espera no aeroporto.
tenho medo da distância,
tenho medo de me amarrar,
tenho medo de amar.

aliás, basto-me a mim próprio -
em toda a sua significância.

e é então
que do outro lado me dizem:
um dia, quando estiveres num lar,
ao teu abandono,
a jogar às cartas com os velhos
e a queimar os teus últimos momentos...
recorda este encontro.
eu poderia ter sido a carta de naipe
que
te
faltou.

Rodrigo Ferrão


Foto: Rodrigo Ferrão

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