segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Que será de mim?

Que será de mim?

Que será de mim quando se acabar o dia e a noite me trouxer a incerteza de todas as horas? O tempo esvazia-nos de tudo, só de tormentos nos vai enchendo. Por mais que demore, e que pensemos que não, chega sempre a altura de não esperarmos mais nada, de sermos só nós com nós mesmos.
Há pessoas que se vão embora de nós. Se calhar é-nos isso pior que morrerem, não que se deseje a morte a alguém mas a verdade é que quando alguém se vai embora de nós e continua presente nos outros é como se nos passasse a flutuar por cima da cabeça e nos acompanhasse para tudo o que é sítio. Flutua-nos em cima e carrega pedaços de tempo que nos faltam, há tempos que nos faltam, há tempos que me faltam, tempos que me hão de faltar e que por muito que os disfarce com contentamentos de vária ordem sempre aqui estarão espalhando-me grãos de saudade por todo o corpo e lembrando-me das minhas desatenções passadas. Penso nisso com pena, ao menos que me previnam de desatenções futuras, nunca é tarde para se ser melhor do que se foi ontem.
Mas o que importa? Continua a chover nos dias em que quero que chova, tenho um guarda-chuva larguíssimo, uma coisa desproporcional, quase maior que um sombreiro de praia. Derivado a essa grandeza nenhuma gota me toca, não pode haver felicidade maior, sou tão feliz. Tenho uns sapatos oferecidos por uma tia afastada providos de uma artimanha qualquer que nunca se me entra água pelos pés, tenho quatro ou cinco amigos e uns senhores idosos que jogam às cartas numa mesinha já meio podre aqui no meu bairro. Entusiasmam-se com o jogo, riem-se como se fossem jovens. Entusiasmo-me com eles, rio-me como se fosse velho.

Que mais pode alguém querer?

Gonçalo Naves

Imagem tirada daqui: https://vanguardamaristao.wikispaces.com/Grupo+1_G?responseToken=aefddf911ec51b02c2dfd74179fc0941

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