segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Eu poético: Pausa

PAUSA

lancei-me aos sete mares
na busca incessante do tesouro que mora lá no fundo.
disseram-me que o teu coração jazia nas profundezas, em parte incerta.

tinha que te encontrar.

combati os deuses que dobram o cabo,
contornei os raios e tempestades,
virei as velas a favor do vento,
vi-me privado de comida
e racionei a água das chuvas.
escutei os cantos das baleias,
vi a dança dos cardumes,
guiei-me pelos seres luminosos do mar,
quando a noite caía.

e então num dia,
já quase sem esperança,
já quase sem forças,
já quase sem fé,
um raio de sol descobriu o caminho até ti.
atirei-me e bracejei com a energia que sobrava,
segurei a respiração e mergulhei.
lá no escuro reluzia o teu coração
e eu acreditei que ia ter paz, por fim.
estiquei a mão e apontei o dedo,
para não perder direcção.
dei aos pés com força,
para ganhar velocidade.
fui mexendo uma mão atrás da outra,
as pernas em perfeita sintonia.

mesmo quase a chegar,
já o nosso futuro parecia unido,
já os sonhos passeavam à frente do nosso olhar,
já todas as promessas de felicidade nadavam em redor.

começo a contar
três
dois
um...

(pausa)

passa uma rede de um barco
e eu sou pescado
para
bem
longe
de
ti.

Rodrigo Ferrão

Foto: Rodrigo Ferrão

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