quarta-feira, 7 de outubro de 2015

É do borogodó: eu que sou mulher, Adelaide Monteiro


EU QUE SOU MULHER
Fui feita por acaso
Sobrevivi por acaso
Nasci de um rompante rude e destemido
Rasguei as entranhas aos montes onde mamei pão amargo
Atravessei rios com os pés descalços e saí em gelados gemidos
Fui castrada por uma sociedade insana e cortei as amarras
Reconstitui-me, juntei as peças roubadas
E … aqui estou eu!…
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!…
Vivo neste Cosmos estirada por forças opostas
Que me distendem os tendões e músculos
Uma parte de mim é Terra, regida por Marte que me prende ao chão
Outra parte é Vénus e Lua que me desprende, liberta e me lança em sonhos
E… aqui estou eu!…
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!…
Com dedos de pincéis e teclas
Corto as amarras do chão
Liberto os meus pés sangrentos
E sou mulher, sou sonho e criança
Elevo-me a levitar
Abraço Vénus e a Lua
Deixo Marte a descansar
Nas estrelas escrevo poemas
E nas nuvens pinto o mar
E… aqui estou eu!…
Eu que sou mulher de tudo e de nadas!…
* Adelaide Monteiro é poeta portuguesa nascida na fronteira com Espanha, no alto Douro. Sua língua primeira é o mirandês, por isso ela escreve e mantém vivo o idioma de sua aldeia, Especiosa. Conheça mais do trabalho da poeta em Especiosa meu amor.
*Escolhido por Penélope Martins, nossa ponte com o Brasil - é do borogodó ;)

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