domingo, 27 de setembro de 2015

Não sei se escrevo para me encontrar ou para de mim próprio fugir

O ato de escrever afigura-se-me cada vez mais como tentar encher de nadas uma casa já de sempre vazia. O mais que se faz é abrir as janelas desviar as portadas e afastar os cortinados, tudo isto com o devido jeitinho silencioso e tudo isto a fim de deixar entrar uma corrente de ar que cirande alegre pela casa e a tente, mal ou bem, limpar dos pós mais graúdos e das sujidades mais invisíveis. Sendo-me a escrita um ato de cada vez maior solidão e na impossibilidade de me tentar encher seja do que for, aproveito essa leve e terna brisa para me purificar do mundo e me distrair de tudo quanto há de tragédias e infortúnios, tribulações e amarguras.
Tento sempre esvaziar tudo o que é a mim relativo de todas as palavras que escrevo (afinal, à primeira vista, pintavam-se-me como coisas diferentes). Imediatamente fracasso. Todas as palavras que escrevo fracassam em todos os propósitos: palpar tempos que para sempre serão impalpáveis, explanar histórias que de sempre se tiveram impossíveis de entender, ter mais sentidos do que aqueles que lá nas letras que as formam estão expostos. Como digo, as palavras que escrevo fracassam em tudo, em tudo menos em quase nada. A favor ou contra vontade, vão, a pouco e pouco, revelando de mim pequenos espetros de sombras escondidas, migalhas e pedacinhos, uma a uma, um a um, como se disso lhes dependesse a sobrevivência e como se dentro de mim não pudessem mais sobreviver.

Gonçalo Naves

Foto tirada daqui: http://www.revistabula.com/522-os-10-melhores-poemas-de-fernando-pessoa-2/

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