quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



.Meu querido José,


Que silêncio aquele que nos guardou nestas semanas! Que mistérios e que vidas se passaram nestes longos e finais momentos de Verão!
O Outono chegou, jovem das aventuras de papel, e com ele a promessa das tardes soalheiras e do tinir das chávenas de café por esses largos de granito e de igrejas. O Sol de Outono é mais suave e acolhedor. É um sol de vindimas, de terra e dos generosos frutos que Gaia levemente nos oferece.
Continuo por terras de Celorico, jovem romântico na acepção literária e moral do termo. Como poderia deixar Celorico neste dourado tempo das vindimas? E que vindimas estas! Os vinhedos carregados da doce uva, de branca cor, de tinta expressão. Teremos um ano farto de bom vinho, caro José. A ti Zulmira e o ti Ernesto numa azáfama alegre e fresca, lavando as cubas esquecidas no canto da adega, entre as velhas pipas e o tanque do pisar. As mulheres num leve canto de rouxinol e de pardal celebram a vindima e a vida. As crianças e os velhos sorriem com uma paz que nenhum Deus consegue dar. Nem o bom Deus de Rilke. São os chapéus de palha, são as galochas, são as cantigas, as rabecas e as violas tocando no fim de cada colheita das bagas filhas de Baco. É este o povo que ainda canta, meu querido José.
O dia começa bem cedo, ainda o Sol é miúdo e uma frágil promessa de luz. Reúnem-se os homens todos no largo de minha casa. As mulheres já estão preparando o mata-bicho. Antes que o jovem dos ideais do Século comece a espernear por conta desta velha e conservadora ideia de “as mulheres na cozinha”, deve saber que são as próprias esponsais que assim o querem, não só por ser tradição, mas por celebrarem o famoso ritual da colheita. As mulheres, portanto, na cozinha preparando o santificado mata-bicho de sardinhas fritas, salpicão e verde tinto por aquelas sagradas brancas malgas. A cozinha numa azáfama de sabores. São as panelas de ferro ao lume fervendo água para o rancho e para a feijoada à lavrador, farta de carnes, enchidos e hortaliças, é a broa de milho no forno a lenha, são as bolas e o pão de Deus, são os rosquilhos e as bailarinas, e os vinhos generosos e a música dançando por entre uma viola braguesa, uma viola amarantina, um violão, uma rabeca e um bombo.
As vindimas são sempre feitas deste ritual profanamente sagrado.
Mas antes do farto almoço e da festa do jantar, onde o anho é regado no forno com vinho branco e as batatas alouram com o arroz dourado, há a cerimónia da colheita desse doce fruto. Colhido pela manhã, ainda com alguma neblina e orvalho reflectindo o céu azul esmaecido pela madrugada que adormece, ou acorda, segundo as circunstâncias, cada gaipo de uvas é um tesouro e um segredo. As tesouras, os baldes, os cestos de vime e as escadas, assim como os chapéus de palha e os tractores fazem parte de um ritual que se repete ao longo da história, havendo poucos acrescentos ou então aqueles que melhoram as condições de quem trabalha.
Imagino a sua cara de estarrecido, jovem das viagens literárias, ao imaginar-me de calças de ganga, de galochas e de camisa larga, aos quadrados castanhos, aberta para o sol e para esta vida de saúde e de natureza. Imagino-o imaginando-me e sorrio só de pensar nisso! “Então o supercivilizado Gonçalo Viana de Sousa, o primo de Tom Jobim, o homem superiormente culto e elegante, o flâneur diletante e janota, conhecedor das melhores paisagens e do melhor que o mundo pode oferecer, de magas arregaçadas e mãos cheias de marcas roxas das uvas?!”
Quase que o imagino fazendo descrições românticas e positivamente exageradas sobre mim, de chapéu de palha na cabeça, cantando uma cantiga a S. Gonçalo ou a Safa, enquanto colho os doces bagos. E assim continuaria o meu querido José: “E o nosso flâneur, depois de um ano vivendo luxuosamente em cidades atoladas de bibliotecas, de óperas, de Ideias e de Civilização, depois de largos meses vivendo como um homem superiormente culto e elegante, depois dessas altas viagens pelo mundo que pensa, o nosso viandante esconde-se nos matos do obscurantismo de Celorico, nas profundezas provincianas do povo católico, coscuvilheiro e de direita jarreta!” Como o imagino pensando estas coisas! (Olhe que a direita jarreta já rareia, e a coscuvilhice faz de nós, portugueses, superiormente interessantes! O nosso cosmopolitismo é aquele da província, o cosmopolitismo provinciano. E olhe que não digo isto de forma depreciativa. Devemos aproveitar e explorar esta situação, única, no quadro das sociedades e culturas europeias e ocidentais. Claro que não o podemos fazer caindo em patriotismos démodés à la Pascoaes, ainda que o vate do Tâmega me seja querido.)
Bom, a missiva já vai longa, e das vindimas lá fui caindo na metafísica de ser português. Esta última parte deixo-a para o José pensar e reflectir. (Quem sabe, não lhe será útil para as suas investigações!)
Efraim manda abraços apertados, informando-o que partiu com a família para Israel.
Um abraço vigorosa e cosmopolitamente provinciano deste
Seu


Gonçalo Viana de Sousa

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