sábado, 8 de agosto de 2015

Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres - a opinião de Carla Sá

Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres
Clarice Lispector Ulisses e Lóri. Apesar de estarem os dois apaixonados, Ulisses age com cautela, perante a perspetiva de um envolvimento amoroso. O que ele pretende, na verdade, é que ambos possam aprender, previamente, o significado verdadeiro do amor e a capacidade de ultrapassar silêncios e ausências. Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres é a narração dessa aprendizagem, que decorre mais no espaço interior das personagens, (essencialmente, no que diz respeito à transformação de Lóri ) do que na “vida real”. Com a esperança de que essa evolução ocorra, de facto, Ulisses, professor de filosofia, revela a Lóri onde ela pode encontrar os perigos e qual o caminho que a levará à aprendizagem do amor e da vida. Para quem pensa que amar não se ensina, os dois personagens, provam que sim, que é possível aprender a amar. Toda a obra de Clarice Lispector é profundamente complexa e ambígua. O próprio título deste livro, “Uma Aprendizagem” ou “O Livro dos Prazeres”, confirma esse traço da escritora, pois parece propor ao leitor uma escolha.No entanto, e apesar de toda a complexidade, consegue transmitir com precisão, toda a confusão e perplexidade do ser humano. Segundo a teórica francesa Hélène Cixous, Clarice não faz literatura, mas sim filosofia. Já o mineiro Otto Lara Resende acha que “não se trata de literatura, mas de bruxaria”. E porque não estar de acordo em ambos os casos?
Excerto:
Por um instante então desprezava o próprio humano e experimentava a silenciosa alma da vida animal. E era bom. "Não entender" era tão vasto que ultrapassava qualquer entender — entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simpies de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez. Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro — preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.
*por Carla Sá

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