segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Paraíso dos desertos

Um dia dou-te uma rosa do tamanho do mundo e aí vais-te lembrar que nunca fui muito de rosas nem de mundos, sempre achei coisa de homem e homem nunca hei de ser, prefiro uma concha com mil cores ou um bocado do arco-íris, prefiro o que a nossa imaginação partilha àquilo que todos têm como certo
Um dia quando o tempo tiver demasiada idade e o teu cabelo deixar de crescer havemos de ser parte um do outro, quem sabe teremos janelas para uma floresta de doces do lado de fora e a única medida do mundo seremos nós, mentira, será a gente, a gente como tu costumas dizer
Um dia será a brandura do teu trato a pintar a casa de novo, se bichinhos houver nos entrefolhos dos tacos de madeira então seremos eternos, viveremos em comunhão com as formigas as melgas as baratas e eu com tanto medo de baratas, se nos teus braços houver paciência para mim então não preciso de papel e caneta, hei de me calar para sempre porque as idades do silêncio são a coisa mais bonita que há
Um dia a nossa vida acontecerá com a calmaria de quem se sabe à prova de fogo, havemos de comprar meia dúzia de nuvens meio carregadas e delas teremos a certeza do céu, deixaremos de pensar e então o tempo a deixar-se de perguntas, pressa nunca mais haverá e então o mundo a virar um conjunto de sabores, esticaremos um braço e a Lua, daremos um pulo e o Sol
Nesse dia viveremos entre o invisível e o infinito, metamorfose de tudo o que existe. Várias camadas de gargalhadas a ganharem espaço por entre contentamentos e o que antes se pensou impossível, as pétalas da manhã a dividirem-se pelos zumbidos dos nossos nomes e os nossos nomes que afinal de contas sempre fizeram parte das felicidades mais recheadas do mundo
Aguarda que a vida se descosa ao ritmo da canção que mesmo em silêncio sempre cantámos, hoje somos de tudo, um dia tudo será nosso

Gonçalo Naves



Imagem retirada daqui:http://multticlique.com.br/blog/good-vibes/livros-viram-esculturas-surreais/ 

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