quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações


Meu querido José


Que indesvendáveis misteres são esses que o prendem ao silêncio das águas cristalinas, graníticas e verdes, da infusa!, do Norte?
Que céu superiormente belo, ledo e estrelado é esse que o liga aos astros dos nossos pais celtas e gaélicos?
Há duas semanas que não nos encontramos nas palavras…
Escrevo-lhe já fora de Coimbra, pois não aguentava mais o calor de zinco e de “turistas” desta pequena cidade. Voei até ao seu Norte. Estou por Celorico de Basto, meu querido jovem frenético, meu belo jovem do verde sonhador.
Encho-me das águas dos regatos e dos ribeiros, caminho debaixo destas ramadas abençoadas por gerações anteriores: meu bisavô, meu avô, meu pai e meus avós antes de meus avós, já no tempo dos bravos Sousas, intendentes, escudeiros e companheiros de lança e espada do senhor Dom Afonso Henriques. O vinho já o conhece: fresco, jovem, claro e musical. Efraim, por estranho que possa parecer, encanta-se de todas as vezes que voltamos a Celorico. É um novo canteiro de rosas bravas, coloridas e perfumadas, que desponta entre os jardins, é um novo cantar de água que chilreia pelos tanques de pedra que rivalizam com o número de igrejas, capelas e devotos.
E o Tâmega, jovem das nortadas espirituais, o Tâmega!... esse rio que jiboia por entre estes montes e pequenas montanhas, um pequeno rio tímido mas ainda límpido, enquanto o homem, chafurdado em noções de Economia, de Política, de Direito e de Tecnologia, não tem a brilhante ideia de construir barragens que suguem a vida deste bendito recanto de terra.
Lembra-se da nossa conversa a propósito dos turistas ao longo do tempo e da história?
Muito do que falámos é verdade. Viajar por todos os continentes, países, cidades e recantos. Viajar e nunca perder o interesse e a curiosidade por todas as coisas. Quando o cansaço apertar, voltar a algum recanto de terra e de céu e de água onde possamos descansar e voltar a encontrar-nos numa correria de infância, num pêssego roubado da quinta vizinha, num beijo roubado por entre os corredores, das tardes de silêncio debaixo de uma tília e do pedaço de literatura que tudo isto tem.
Se sítio há ao qual possa chamar casa é Celorico, jovem das aventuras de papel. E o som das rabecas e das violas, das janelas com pessoas dentro que sorriem e cantam e conhecem todo o mundo porque o mundo é do tamanho dessas janelas onde se escondem tesouros de cubas e de fumeiros e de um canto de borralho sempre pronto a contar uma história de lobisomens e de miragres. Sim, miragres. Por aqui ainda se fala em milagres como no tempo do senhor D. Denis.
E depois os bailaricos onde há sempre o porco no espeto, as canecas de zinco com a cerveja artesanal as brancas e imaculadas malgas de verde tinto que são bênçãos de Baco. E as velhas, muito velhas, muito sábias, com as suas mãos de sol e de terra e de flores, que sempre que me vêem sorriem e dizem, ó menino Gonçalinho passe lá por casa que este ano foi ano de tomates e de coibes coração de boi. Passe por lá menino, a gente ainda sabe fazer um bom caldo cegado. Olhe que este ano tivemos boas choiriças, o meu Ernesto até me disse, garda umas quantas pró menino Gonçalinho, que ele gosta bem.
Por isso, meu caro jovem das aldeias de sol, como poderia eu não estar em casa neste Portugal profundo, encantado, genuíno?
Aguardo, assim, a sua visita, pois encontrámo-nos tão perto que impossível seria o jovem das aldeias de sol não me fazer uma visita. Prometo-lhe a broa de milho quente e aquele Barreirinhos, ainda sem rótulo, morangueiro, espadeiro, de que tanto gosta. Prometo-lhe alguns papéis e pedaços soltos de palavras que me fizeram acreditar em grandiosos projetos de literatura, nunca encetados.
Venha até Celorico, meu caro José. Vamos escutar, juntos, com Efraim, os segredos que fazem destas terras abençoadas húmus de tanto mistério e redenção.
Seu

Gonçalo Viana de Sousa


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