quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Correndo o Brasil: uma noite imensa desagua numa manhã esplendorosa

Rio de Janeiro
10 de Agosto de 2014
 
 
Não sei bem o que me moveu, talvez a imensa sede de conhecer pessoas. Saí de uma discoteca na Lagoa Rodrigo de Freitas, a altas horas da madrugada, e rumei à praia.
 
Caminho pelas ruas do Leblon. O sol parece querer assumir-se a qualquer momento, mas ainda se nota a noite. Há luz suficiente para ver alguns entusiastas na praia, a maioria passeia os cães e faz jogging.
 
Arregaço as calças pelo joelho e vou para a linha da água. Está no ponto, penso, mas não me aventuro no mergulho. Começo a brincar com um cão na praia e ele rasga-me a camisola pela manga. Não protesto e sigo caminho.
 
Chego ao arpoador e o sol já se sente. Sinto a magia daquele lugar e agora percebo porque batem as pessoas palmas quando o sol se põe. Aquela rocha é mágica, dá para ver o Rio de Janeiro nas suas praias incríveis, recortadas por morros sem fim.
 
Peço uma garrafa de água a uma senhora que já lá estava a lutar pela vida. Pergunto-lhe porque vai tão cedo para ali? Responde-me que ela e o marido (que trabalha na praia ao lado) descem de uma favela todos os dias às 5:30 para vir trabalhar. Todos os dias do ano, só param no dia de Natal.
 
A Sra. lá me vai dizendo que tem 40 anos e é do Nordeste. Saiu de lá com a família, tinha 5 anos. Nunca mais voltou. É avó de 2 netos e apenas sabe o que é trabalhar. O dia começa às 5:30 e, muitas vezes, só termina de noite.
 
Junta-se um grupo de dois à conversa. O rapaz parece viver na sombra de um pai austero. Começa a falar-me dos problemas do Brasil e de como os sonhos são impossíveis. Ficámos na conversa durante mais de uma hora.
 
Todos falam da cidade maravilhosa onde vivem, como é linda a praia e o Cristo-Rei. Apesar das queixas, dizem-se felizes. Foi a vida que Deus escolheu por eles.
 
Quando lhes perguntei sobre os sonhos, a Sra. disse-me que era regressar ao Nordeste, para ver se encontrava a família que deixou para trás e nunca mais viu.
 
Quanto a ele, era visitar o Uruguai. Perguntei meio desconfiado... 'mas porquê?' 'Simples', disse ele - 'o Uruguai ganhou a copa do mundo aqui mesmo no Brasil, em 1950'.
 
Despedi-me deles, ainda tinha um longo percurso pela frente até ao posto 3 de Copacabana. Caminhei, caminhei, caminhei... até não poder mais. Entrego a camisola a um mendigo e olho o mar uma vez mais.
 
Entro em casa, são 10 da manhã.
 
Rodrigo Ferrão 

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