sexta-feira, 31 de julho de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Meu Querido José

Escrevo-lhe a horas tardias, quentes e abafadas. Coimbra está horrível, com este calor e este céu baixo, pesado e cinza. O calor nunca foi bom conselheiro. Nem para a guerra nem para a paz, quanto mais para a vida! Se pensar incomoda como andar à chuva imagine o preço a pagar por pensar debaixo destas temperaturas dantescas! E as noites que se queriam frescas, airosas, líquidas e musicais, tornaram-se baças, opacas, densas, espessas, desconfortáveis.
Só o facto de pensar nestas palavras e ter de escrevê-las cansa demasiado.
Sentir calor incomoda tanto como pensar. Escrever é suar para dentro, jovem das árias ebúrneas. Deixei Wagner de lado, por uns tempos, pois o Maestro é feito de flores debutantes e árvores outonais, não deste calor cesáreo, legionário e mediterrânico. Céus, como o calor nos ensandece!
Soda e limão e muito gelo e o desejo de noites frescas e sumarentas.
Segue num caixote imaginário, a abarrotar de gelo, mais umas quantas impublicáveis palavras desses Cadernos de Nicosia. Deixo-lhe em mãos, ainda que nesta primeira parte o não pareça, algumas impressões acerca da religião e dos deuses e de todo esse infinito celeste, passando pela arte e pelos jornalistas, que já eram no século XX a mala-posta de mala sempre feita.
Espero receber como resposta uma missiva carregada com as frescas águas dos lameiros da sua terra, dos regatos, das montanhas e do silencioso e pensativo rio, o Tâmega dos segredos de Pascoaes.
Efraim borrifa-se com água dos fiordes, na tosca tentativa de sentir algum nórdico arrepio, mas o único arrepio que sente é o da desilusão da água morna e o da carteira mais vazia. Pobre semita.
Aguardo a sua resposta e alguma dessa sua prosa sempre escondida em véus de Maya, em vasos de Confúcio.
Um abraço estético e metafísico deste

Seu

Gonçalo Viana de Sousa



Saio do hotel num passo monumental e ruidoso. Os sapatos são o prolongamento dos meus pés e da minha alma, que, passo a passo, marca ruidosamente os passeios destes jardins de ouro acastanhado.
Entro numa igreja qualquer, não me lembro do nome, Efraim. A porta da igreja está fechada devido ao calor que se faz sentir nas ruas, no ar e na pele. Há um pequeno papel em inglês que diz push, convidando os turistas, como eu, a entrar e a levar com o sagrado pelos olhos adentro. Ou com a beleza das abóbadas e dos arcos e dos altares e das iluminuras.
Sento-me num banco remoto, num canto maio alumiado por velas coptas. A igreja é fresca e o céu não tem fim. Um suave cheiro a incenso paira no ar enquanto um leve gorgolejar de canto gregoriano se espalha pelo espaço. Outros turistas vão tirando fotos, olhando para os arcos e para as abóbadas com a boca aberta e o olho em riste na sua máquina fotográfica. O Divino tornou-se cobrável e turistável em Nicosia. E eu que sempre pensei que Nicosia era um país navio, Efraim, Mas este pensamento teria que ser dissipado, pois não há lugar no mundo em que a proporção de turistas e de crentes num espaço sagrado não seja equivalente. Por cada fotografia tirada se ouve um padre-nosso, por cada olhar embasbacado e de boca aberta é desfiado um rosário, por cada vela ou pauzinho de ervas aromáticas um canto gutural é entoado, por cada porta, portão, portinhola rangente que abre uma prostração solene, silenciosa e memorável.
A religião está para o turista como a arte está para os jornalistas. Havemos de chegar ao tempo dos jornalistas na arte, em que tudo é notícia, em que tudo o que é notícia é perene, efémero, oco. Se o viajante, o peregrino do século XVIII viajava para se encontrar e para se formar enquanto ser humano, os turistas do século XIX viajavam pelo simples prazer de o poderem fazer, aproveitando cada paragem para tirar os seus apontamentos artísticos, ao mesmo tempo que já sonhava com as glórias do high-life do seu país. Vê o Dâmaso, Efraim, ou o próprio Ega!, para não falarmos de Carlos Eduardo.
Os turistas deste nosso século XX viajam para esquecer a história e o passado. O objectivo é sair do lugar que nos pertence, esquecer o estático e partir em busca do passado dos outros, pois o passado dos outros faz-nos apagar a sombra do nosso passado e da nossa história, como pessoas e como pátrias escangalhadas por imperialismo de bigode e suíças à la Strauss.

Que fazemos, afinal, nós em Nicosia?

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