quinta-feira, 16 de julho de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações

Meu querido José

Que futuro será este, economicista, que a Europa quer para os seus? Povos humilham povos e vangloriam-se de feitos que de heroico têm somente a falta de heroísmo e de humanidade! (Sim, jovem das antíteses literárias, há tanta humanidade na falta dela como no amor, é sempre uma questão de perspectiva!).
É por falarmos em Europa e, claro está, nessa formidável Hellas, que lhe faço chegar mais uma impressão da longínqua, bela e mitológica Nicosia, esse país navio.
Julgo mais que tempo de retomar os ventos elísios, os da escrita, não os do sangue, que bolinam para essas paragens tão mediterranicamente líquidas.
Sei-o de malas aviadas até às belas terras de Entre Douro e Tâmega. De malas e de livros, disse-me Efraim! O enorme semita agradece-lhe imenso a viola amarantina e os doces desse tão afamado santo (das velhas o predilecto!). Saúdo-o com um gesto largo, enófilo e trigueiro, agradecendo-lhe a bela colheita de verde branco que me trouxe das terras de Celorico de Basto! Que néctar!
Abraços muitos de Efraim.
Um só, apertado e com este cheiro a Europa, do
Seu

Gonçalo V. de Sousa.


Em Nicosia o mundo é mais pequeno, mais quente e mais aromático. As ruas desta cidade capital são assertivas e luminosas. Os perfumes conjugam-se com as palavras mais estranhas e mais esdrúxulas que uma língua é capaz de conjugar. Aqui as especiarias são longos rasgos românticos de um qualquer viandante. O cheiro a pão quente das pequenas padarias de esquina é como uma promessa de tardes felizes e familiares, onde o pater familias ou a mater famílias, pois necessidade não há nenhuma em saber se mulher ou homem regressam a casa depois de um dia de trabalho e de coisas de adultos. Interessa, sim, aquele ante-momento de chegar a casa, a expectativa dos filhos, dos sofás ansiosos, das janelas corridas e do vento que sopra suave porque é calmo e ledo qualquer passo certo e risonho.
Assim, chegar a casa nas tardes de Nicosia é chegarmos a nós mesmos. Mas o que somos nós, Efraim, senão o olhar que os outros nos dão? Somos olhares de terceiros, criações alheias ao que supusemos nosso.
Quando nos levantamos da cama não somos os mesmos que nos deitamos ainda a noite largava ténues raios lunares, ainda que falsos. Cada dia nascemos das cinzas do whisky da madrugada anterior. E há tantos whiskies e tantas madrugadas!
Em certa medida, somos invenção dos outros, criação terceira a nós próprios. Maquinações de quem nos olha ao longe, disfarçadamente, sombriamente, interessadamente.
Enquanto houver multidões anónimas, poderemos estar descansados, Efraim. Enquanto houver multidões cosmopolitas poderemos flanar anónima e deliciosamente sós.




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