quarta-feira, 3 de junho de 2015

Pó buracos e cabisbaixos

Os livros quase ninguém os traz. Desculpam-se uns com o esquecimento, deixaram-nos outros na casa da tia, da avó, dizem os mais imaginativos que foram vítimas de furto no portão da entrada, roubaram-me a mochila stôra, tinha lá o livros, o bandido fugiu. Quando é para analisar uma obra é um caso sério, três ou quatro livros para quase trinta alunos, a professora tristíssima leva a mão à cara, abana a cabeça, ai que desgraça, o que é que eu vou fazer, juntem-se aí todos numa mesa, desenrasquem-se. Bem sabemos nós o porquê da ausência das obras, pesa a verdade mas tem que ser conhecida, não estica o dinheiro e não encolhem as despesas, entre os livros e o pão a escolha é fácil.
Os professores, esses, coitados, muito fazem. Nunca vi uma classe tão desmotivada. Quase vinte anos de estudos e no final do mês pouco mais de mil euros, bem disfarçam a raiva com o gosto por ensinar, bem que tentam mascarar o tormento para não darem os alunos conta da tristeza. Merecem, alguns, palmas. O pior é que o pessoal não é burro, sabe da história, muitos de professores são filhos, poucos são os que na família não têm um professor, mãe tia ou avó. E por esta razão também os alunos desmotivados, estes, nós, mais que todos. Pela escola se arrastam, assinaturas impercetíveis nas paredes dos balneários, ofensas às contínuas, murros e empurrões nos professores, sabemos nós que pouco mais somos que o meio em que estamos.
Também as matérias ensinadas pouco ajudam. Ninguém tem bem noção daquilo que está a aprender. Quer dizer, não é bem assim, o pessoal percebe o que está a aprender, não é disso que se trata, sabe as coisas, até estuda de vez em quando, uns abençoados com maior entendimento que outros, compensam os menos sortudos no maior esforço, até há algum empenho, o problema é que são raras as vezes que compreendemos onde e quando hão-de esses ensinamentos ter utilidade. O chegar à sala é sinónimo de descansar o traseiro, já as cadeiras à espera, ao menos há cadeiras, a professora quase enterrada em todos os tormentos que esconde, na cara vincada a noite mal dormida a corrigir os pontos (os pontos sempre tão maus). Ouvimos tudo o que diz, apontamos esse tudo no caderno (muitos nem cadernos, de nada vale o quase invisível lápis, vá lá que o pessoal é amigo e partilha as folhas, o lápis a desaparecer), nada dizemos, nada questionamos, caladinhos que assim é que é bom. Não há tempo para perguntas meninos, o programa é grande e tenho que o cumprir, tenho que prestar contas no final do ano, tem que ficar tudo dado até ao exame.
E depois os tacos de madeira das salas mais parecem uma pasta de mil fios podres que insistem em mudar de cor com o desenvolver das estações. Apesar de alguns ainda se aguentarem, mais são os que são subtraídos pelo correr do tempo. Nunca são substituídos, tem a escola o que a construção de origem lhe deu, mais que isso não merece, ao abandono está entregue, todos os dias morre um bocadinho.
No Inverno é um frio de gelo, trinta pessoas a congelarem, aquecedor só há um em todo o piso e é velhíssimo, pequeníssimo, uma camada de ferrugem de cima a baixo. Grandes discussões acontecem no corredor, a professora de Matemática a guerrear com o de Física, dá cá isso pá tou cheia de frio, nisto junta-se a de História a de Desenho e a de Biologia, ganha sempre esta última, todos sabem que acordou às cinco da manhã derivado a viver a duas horas de caminho e ter três filhos. Lá com grande sacrifício lhe dão o aquecedor e voltam para a sala cabisbaixos, a tristeza multiplicada pela ausência de tinta que insiste em fugir das paredes, já o tijolo praticamente a descoberto. Entre os dentes cerrados ofensas e lamentos ao próprio dirigidos, toma que é bem feita Maria, não tinhas nada que ir para professora, a tua prima foi para as engenharias e está bem melhor.
Pode ser que um dia, a tempo distante, a moçada acorde e saia de casa contente. Pode ser que um dia vivam os professores e os alunos em comunhão no mesmo espaço. Pode ser que nesse dia seja a escola um lugar sagrado, onde se aprende e se ensina, onde se educa e se é educado. Até lá, resta esperar que alguém transforme promessas em atos, sabendo nós que de promessas está o Inferno cheio e de atos está o céu vazio.


Gonçalo Naves

Foto tirada daqui:https: //avozcalada.wordpress.com/2014/07/21/meu-surto-humilhacao-publica/ 

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