terça-feira, 9 de junho de 2015

O Clube entrevista os leitores - Ana Paula Oliveira



Rodrigo - Como descobriste o Clube de Leitores?
Ana Paula Oliveira - Não sei se o descobri ou se ele me entrou portas adentro, mas penso que foi na altura da primeira votação para blogue do ano. Vantagens do Facebook que nos mostra o que não procuramos. Depois, é só fazer a seleção do que se quer adotar para a vida. Foi o que fiz, adotei-o.

Mas, já lá vai tanto tempo, que perdi a noção do princípio. Fui à procura de uma data certa, aquelas que a memória deixa escapar, e os arquivos apontam para início de 2012.

- O que te chamou mais a atenção nesta comunidade?
- Depois que me entrou em casa, o Clube foi abraçado de imediato pois são muitos os livros e temas aqui apresentados. São tantos os leitores com gostos e conhecimentos tão variados que me senti uma ignorante no mundo da literatura, logo eu que me considerava uma entendida! Tinha de ficar para conhecer mais, para ir à procura dos livros e dos escritores que desconheço.

O facto de haver (inicialmente) um livro do mês sugerido para leitura comum, também me atou ao Clube com um nó muito forte. Penso que este aspeto é fundamental, haver trocas de opiniões, discussão de ideias.

Outro aspeto muito forte são as áreas temáticas: o espaço para os escritores se darem a conhecer, a poesia, o a-ver-livros, as citações de autores, os primeiros parágrafos de livros de referência…

E os passatempos com um livro como pre(texto). Adoro um bom desafio!

E tudo isto com rigor, imparcialidade, bom senso e muito, muito altruísmo e sabedoria por parte dos seus gestores/animadores.

- O facto de todos os bloggers serem também escritores é algo que te entusiasma?
Prefiro o neologismo “blogueiro”. Soa mais português, é mais popular. Sim, quem escreve é escritor e um blogger escreve, obrigatoriamente. De facto, considero-me uma blogueira. Também alimento um blogue pessoal (além do blogue da biblioteca escolar onde trabalho); ali publico alguns dos meus textos, alguns comentários sobre o que leio, algumas crónicas sobre o que observo, no fundo, alguma da minha vida enquanto autora e leitora. Afinal, escrever para ninguém é desanimador e os blogues podem dar o empurrãozinho, podem levar o leitor a ler o que se escreve quando não é possível fazê-lo de outra forma. Além de que os blogues têm uma importantíssima função: difusão da informação. Mais um dos aspetos que me agrada, e muito, no blogue Clube de Leitores.

- Este blog veio mudar alguma coisa na tua vida de leitora? Recordas-te de alguém que tenhas conhecido e que tenha valido a pena?
- Sim. Fez-me enfrentar a minha ignorância sobre vários assuntos e libertou-me (um pouco mais) da minha timidez e falta de confiança no que respeita a partilha dos conhecimentos e a tomada de posição sobre alguns assuntos. Ainda não está totalmente superada mas houve um avanço. Na blogosfera há uma exposição pública muito grande e isso retrai. Mas fez-me procurar livros desconhecidos e lê-los, lá isso fez.

Valeu mesmo a pena ter conhecido pessoas “ao vivo e a cores”, pessoas de carne e osso que só eram conhecidas virtualmente. O Rodrigo Ferrão, o primeiro que conheci pessoalmente e que teve a gentileza de apresentar publicamente o meu segundo livro, sem me conhecer de lado nenhum. A Ana Almeida, que também conheci numa atividade divulgada e animada pelo Clube, O Bairro dos Livros, com quem passei uma tarde fantástica. A Raquel Serejo Martins, também a conheci nesta atividade e fiquei a conhecê-la como escritora. O Bau Pires que conhecia virtualmente como colega de escrita no projeto microcontos em 77 palavras (da escritora Margarida Fonseca Santos). E engraçado foi conhecer pessoalmente o escritor Pedro Guilherme-Moreira. Um dos seus livros foi o eleito para discussão no Clube de Leitura presencial de que faço parte. Eu enviei-lhe uma mensagem a dar-lhe conhecimento do facto e ele ficou tão entusiasmado que fez questão de se deslocar a S. João da Madeira para fazer uma surpresa aos membros do clube. Tomamos café, conversamos e, quando chegamos à Biblioteca, quase havia desmaios porque foi, realmente, uma visita inesperada. E ele esteve quase para viajar de bicicleta pois o carro avariou nessa semana. A sorte foi ter quem lhe emprestasse um. É que ele viria de qualquer maneira! E se chovia nessa noite!

E também foi engraçado encontrar no Clube pessoas conhecidas na vida real que já não via há imenso tempo e de quem tinha perdido o rasto, como por exemplo a Clara Amorim.

- Como foi passar do mundo virtual ao mundo pessoal com algumas pessoas que conheceste através do Clube de Leitores?
- É mágico. A blogosfera aproxima-nos e torna o mundo muito pequenino. E eu sou mesmo provinciana, gosto de aldeias. Conhecer pessoalmente algumas pessoas da blogosfera só fez aumentar a minha lista de amigos, ter mais alguém no meu círculo com os mesmos interesses, neste caso a leitura e a escrita, e com eles trocar ideias, mesmo à distância. Encontro-me mais vezes com essas pessoas do que com os amigos reias de longa data.

Além disso, sinto-me familiarizada com muitas pessoas que participam regularmente no Clube sem que me tenha cruzado com elas na rua. E dou por mim a pensar, quando saio da minha cidade: “Será que vou dar de caras e reconhecer as pessoas com quem me cruzo no Clube?”. E miro as pessoas que por mim passam e tento lembrar as fotografias de perfil dos leitores do Clube e faço uns filmes na minha cabeça…

- Tens alguma história que te tenha marcado – quer através de um post no blog ou de alguma pessoa envolvida na sua dinamização?
- Tocou-me particularmente (desculpem-me a imodéstia!) o post do Rodrigo Ferrão “Um dia estive com «O Santo Guloso», as autoras e muitos amigos na Fnac de Gaia” e ainda o da Ana Almeida “A arte de dar e o amor às letras” sobre a minha participação no primeiro passatempo do Clube que, posteriormente, veio a transformar-se num microconto.

Confesso que fiquei com ciúmes (dos bons!!!) do Emílio Miranda (que conheci no Clube de Leitores como escritor e conheço, apenas, virtualmente), quando ele ganhou um concurso literário promovido pela editora Alfarroba, ao qual eu também concorri e não ganhei. Ganhei este ano e fiquei a torcer para tê-lo como coautor no livro que será publicado em breve, mas desconheço se ele participou na edição deste ano.

Mas, o que mais me deixou ao rubro foi o convite do Rodrigo Ferrão para prefaciar o seu primeiro livro. Uma honra inesperada.

- Com que frequência visitas este espaço?
- Quase diariamente. Nem sempre me mostro pois o tempo não permite fazer os comentários a todos os posts mas passo aqui muito regularmente, pelo menos para ver o que alguém publicou, saber das novidades, inspirar-me e respirar cultura.

- Como vês este projecto dentro de alguns anos? Sentes que ainda existe muito para se discutir?
- A Literatura é uma fonte inesgotável. Enquanto houver escritores e leitores, enquanto houver almas criativas que mantenham o espaço (mesmo que por vezes o desânimo ataque), o Clube manter-se-á vivo, ativo e cheio de energia porque haverá sempre muito a dar e a receber. E tenho vislumbrado, por aqui, jovens a darem a cara e as palavras, novos escritores vêm aí… O jovem Gonçalo Naves tem-me chamado a atenção!

- Numa frase: O Clube é…
- … uma enorme biblioteca viva, ponto de encontro com a cultura.

*Rodrigo Ferrão entrevista os leitores do blog, nos 5 anos deste projecto. 
Ana Paula Oliveira é professora e autora. Entre os seus livros, destaque para «O Santo Guloso»

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