segunda-feira, 22 de junho de 2015

MEDO


Medo, da pintora Ana Cristina Dias


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Dizia, quase cantava, a mãe baixinho ao seu ouvido a sossegar-lhe o medo dentro do corpo.
Levava tempo, a mãe cheia de cuidados, horas escuras e nocturnas, ela um animal assustado que aos poucos sossegava e dormia, e o sono inquieto, convulso, avulso.
A mãe sabia o que era o medo, a amargura dos dias, a alegria nenhuma, a vontade nenhuma, de nada, e às vezes o alívio, o raro conforto, o descanso de pensamentos tortos e indizíveis, o sossego de não pensar em nada, nada, nada, de flutuar no vazio.
Em pensamentos a mãe matou-se mil vezes.
Os pulsos cortados, as cápsulas coloridas de comprimidos, o terraço no topo do prédio, sempre tão sujo o terraço, só ela e pombos no terraço, se as nuvens baixas o terraço quase nas nuvens, e ela não nas nuvens, um bando de pombos a atravessar o céu, e ela em queda, o seu corpo desmantelado no passeio, fiozinhos de sangue a fazer charcos no asfalto, depois o asfalto sem o seu corpo, o perímetro do seu corpo desenhado a giz no asfalto, a chuva a fazer desaparecer o giz e os charcos de sangue, a trazer sem pudor os pés anónimos dos transeuntes.
Leu que, em regra, não se morre do embate no chão mas sim de ataque cardíaco durante a queda. O coração dentro do corpo a explodir como uma granada.
Em pensamentos matou-se mil vezes e não morreu.
Não se morre em pensamentos.
Ou sobreviveu mil vezes, diria um optimista.
Haja paciência para os optimistas.
Não era optimista nem pessimista, era triste e amarga.
Quem não tem dentro de si um pouco de tristeza e solidão não é gente, é personagem de anúncio de televisão. Serve para vender viaturas e detergentes, coisas úteis de facto, mas sem caroço como a fruta, sem miolo como o pão.
O que será que lhes justifica e suporta o optimismo, que lhes sustenta os sorrisos nas bocas, a claridade dos dias, a escuridão interminável das noites?
O que será?
Qual o segredo, quando tudo torto e escuro e apertado dentro do peito.
Bastava-lhe abrir um jornal para ter motivos para chorar.
Não precisava sequer de um jornal para ter motivos para chorar.
É feita de uma matéria triste e escura.
A tristeza pode ser tão pesada que não nos deixa respirar.
Passa os dias a contar até dez, a respirar fundo.
E apesar de todos os cansaços, de todos os esforços, o que não podia acontecer, aconteceu.
O seu medo maior concretizou-se.
Percebeu que a criança, a criação, que pôs no mundo, é feita da mesma matéria escura e triste.
A história a repetir-se.
A tristeza a ganhar a guerra.
Por isso, por prematuramente perceber, porque medo reconhece o medo, desde pequena, ao seu ouvido, soprava-lhe não canções de embalar, mas palavras de encher o peito de ar, na tentativa de desenvencilhar os pulmões, de clarear os pensamentos, de abrir sorrisos.
Depois cresceu e a mãe, cada vez mais frágil, mudou a ladainha, deixou de falar baixinho ao seu ouvido, começou a falar alto, imperativa explicava, depois de contar até dez, depois de respirar fundo, que o medo é como uma nuvem negra que anda sobre a nossa cabeça, basta largar a corda e deixar que o vento a leve.
Dizia isto e batia a porta do quarto.
Batia a porta e desaparecia semanas inteiras.
E ela não percebia a mãe. Não gostava da mãe.
Semanas inteiras em que o pai parecia um trapezista, um palhaço, um artista de circo.
O pai a sair mais cedo do trabalho para ir buscá-la à escola.
Dias de gelado, cornetos de chocolate, mesmo se Inverno.
Passeava pela cidade com o pai sempre a contar, a inventar, histórias de rir, tantas vezes sem graça nenhuma, depois das quais, no máximo, ela sorria, sorria de pena, a alegria possível, consciente da idiotice do pai.
E quando regressavam era noite e a casa estava às escuras. O pai a adiar o regresso a casa. Tocava à campainha e a casa assustava, porque não se mexia.
Depois, em casa, a primeira coisa que o pai fazia era pôr um disco a girar no gira-discos, para não serem só dois, para ter mais gente em casa.
O pai escolhia um dos discos preferidos da mãe, mas a mãe nunca saia do quarto.
E às vezes dançavam na carpete da sala, às vezes abraçados, um abraço na certeza de que só se tinham um ao outro, outras vezes jogavam monopólio e o pai fazia sempre batota para perder, batota com os dados para ir directamente para a prisão sem passar pela casa da partida e sem receber dois contos.
Assim, mais ou menos assim, até que um dia, muitos anos depois se cruzou com as palavras da minha mãe num poema da Sophia, a voz da minha mãe dentro de um poema da Sophia.
O poema ou o puzzle finalmente inteiro, completo, desvendado.

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

E nesse dia chorou, chorou como um vulcão.
Chorou porque tudo viu sem a névoa da decepção.
Chorou porque percebeu.
Pela primeira vez percebeu a mãe, imaginou a vida da mãe, os últimos anos de vida da mãe.
Teve de imaginar, porque não viu, porque não estava lá para ver.
Sem resistência, sem paciência, afastou-se.
Em rigor fugiu, ou não fosse humano, não mais do que fraco e humano, a felicidade alhear-se do sofrimento. A defesa possível. A cobardia.
Fugiu, ou tentou ser feliz.
Que a tristeza da mãe como um vírus, contaminava, exauria, comia tudo o que era alegria e boa vontade, uma tristeza gorda, pesada, sem tamanho.
Por isso a mãe de quarentena.
Por isso a mãe não foi ao seu casamento e mal lhe conheceu os filhos, um menino e uma menina.
Maria Dulce, mãe. Como tu, mãe.
E a mãe sem olhar para o carrinho onde a pequena criança dormia, numa triste centelha de lucidez, a dizer baixinho, a repetir baixinho como se um mantra mau, a minha mãe devia ter-me chamado Maria Dolores.
A tua avó devia ter-me chamado Maria Dolores.
A mãe a sair da sala sem um beijo, sem um adeus, a fechar-se no quarto, no seu mundo.
E no quarto a mãe à janela. A janela fechada, a cortina corrida.
A mãe a ver a vida a passar na rua embrulhada em luz, em vidro, em linho bordado.
A mãe a dizer-lhe adeus sem lhe dizer adeus sem tirar os olhos da janela.
Foi a última vez que viu a mãe, de costas, imóvel à janela, lembrava um quadro do Hopper, para anos depois encontrar a mãe dentro de um poema da Sophia, para por fim chorar, chorar de cansaço, de tristeza, de saudade, de revolta, de alegria, chorar o que não chorou no funeral da mãe, dia de chuva em que o alívio foi maior do que a dor, o que fez com que a dor fosse ainda maior do que o alívio.
Por fim chorou pelos abraços que sempre lhe faltaram, pelo abraço de adeus que nunca teve, mesmo se um abraço incompleto, mesmo se só os seus braços a abraçar o corpo imóvel da mãe, mesmo quando a mãe, de costas para ela, de olhos no seu mundo por uma janela.
 
 
Raquel Serejo Martins

***
Este texto, esta small SONG, teve como ponto de partida o quadro supra, trabalho da pintora Ana Cristina Dias.
Mais trabalhos em: http://eu-e-a-pintura.blogspot.pt/.


Sem comentários:

Publicar um comentário