quinta-feira, 11 de junho de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Meu caro José


Eis que lhe escrevo somente a missiva, curta e breve, pois tem consigo, há séculos, uma impressão de Nicosia que já deve ter a poeira dos séculos!
Tenho tido interessantes sonhos, uns reais, outros fingidos. Uns de carne, outros de papel. Todos eles verdadeiros!
Como deve saber, ontem celebraram-se os 150 anos da ópera de Wagner sobre uma das mais antigas histórias de amor de todos os tempos: Tristão e Isolda!
Das lendas da Cornualha e do mundo céltico-gaélico até à ópera Wagneriana e desta até aos nossos dias, Tristão Isolda continuam tão amantes como no instante a seguir àquele em que beberam do vinho perfumado que, para sempre, os enfeitiçou.
Com Isolda me despeço e com Tristão o cumprimento!
Um forte e fraterno abraço

Seu

Gonçalo V. de Sousa.




Impressão tardia


As tardes de Nicosia são suaves e doces. A aragem traz no seu regaço versos e tercetos de Petrarca. A luz é um diamante vivo. O entardecer em Nicosia é mitológico. Sinto as aragens que trouxeram os grandes navios oitocentistas para estas paragens, aportando em La Valleta em direcção ao Cairo, avistando a Turquia e as ilhas gregas e Minos imponente, rochosa, azul e labiríntica.
Os grandes paquetes fazendo a travessia até ao Suez, até esse Oriente das nascentes e da Humanidade, onde as crianças ainda brincam descalças e as palmeiras crescem porque o tempo é justo e os anciãos sabem-no. Em Nicosia conhecemos o mundo. E o que é o mundo Efraim?
Não mais este copo, formidável semita. Preciso daquela água crística, santa e pura que brota e rasga as pedras milenares e proféticas de todas estas terras orientais que viram nascer todos os deuses em que deixamos de acreditar.
A tarde desce pelas montanhas altas e um azul esmaecido e líquido se desenrola como a cortina de uma ópera do tempo de Francisco José, o das barbas austríacas.
Agora que me lembro de Francisco José, sinto uma nostalgia imensa de dançar aquelas valsas do pai e do filho, que perfumavam os salões de rosas, de malvasia e de perfumes imperiais.
Nicosia é a porta para todos estes mundos. A Ocidente e a Oriente. Do Ocidente de onde nos vem o gosto e a noite e do Oriente de onde nos vem o mel, a Mulher e a Beleza de todas as coisas.
Amar as cousas belas acima de tudo menino!, dizia meu avô.
É isso que vale a pena, Efraim: amar as coisas belas mais do que a nós mesmos. Nós passamos, o tempo e o caruncho comem-nos, mas as Coisas Belas permanecem, crescem e brilham como faróis que guiam esta humanidade peregrina e turista sempre em busca do outro lado da tempestade.


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