segunda-feira, 29 de junho de 2015

Da minha varanda não me escapa nenhuma estrela

Tenho-as todas, demasiado perto até, esticar o braço basta-me e desde logo elas apenas a meio palmo de distância. Quando acontece isto a minha vizinha do lado, uma senhora muito idosa que todas as manhãs toma o café no refeitório do Hospital da Cruz Vermelha e aproveita o espelho enorme da casa de banho para ajeitar a peruca fica-me fitando, o olhar atravessando o vidro da janela que afinal não vidro, afinal tudo pelo vidro passa, até a chuva e portanto a carpete sempre sempre molhada, todas as semanas a carpete estendida e todas as semanas a carpete encharcada. Fica a senhora muito espantada, tem o pasmo demasiado fácil, mexe-se a boca e então um
-Cuidado rapazinho não lhes toques ainda te queimas
Obedeço-lhe e portanto não mais estrelas até a vizinha aconchegada dormindo com a peruca descansada sobre o candeeiro da cabeceira a fim de a luz desaparecendo a pouco e pouco. Volto para dentro mas dentro não muito me aguento e então desço as escadas abro a porta do prédio ao empurrão (empurrão porque o trinco estragado, há dez anos estragado, há dez anos empurrões) e portanto toda a extensão da rua minha. Dá-me pena a calçada, sempre sujíssima, também a sujidade já idosa e a mesma de sempre, não é coisa de sofrer evoluções, existe e vai existindo. Pastilhas elásticas restos de cigarros dejetos de cão e a mreda dos pombos, os pombos cada vez em maior número e cada vez mais convictos de que podem fazer da minha rua casa própria. Acontece isto devido ao gosto do sapateiro da esquina por pombos que todos os dias leva um saquinho meio cheio de miolo do mais rasca para os alimentar e então famílias inteiras de pombos à porta do sapateiro e consequentemente à minha porta, avós pais filhos amigos dos filhos.
Passo e com o desenvolvimento da noite chega-me um travozinho de desalento que me parece nunca poder ter fim, por todo o corpo se estende e a certa altura já infinito. Pelos passeios me acompanha, vai-me falando, ditos quase impercetíveis na maior parte das vezes provavelmente derivado à gaguez que tem, recomenda-me que volte para casa mas eu negando-lhe essa recomendação porque a noite e eu uma entidade apenas, indissociável. Às tantas cruzo-me com o indiano dos telemóveis que desde logo um
-Boa noite menino já é tarde devia estar em casa a sua mãe sabe que está aqui?
Isto enquanto a camisa muito atrapalhada e as calças livres de vincos mas claramente pouco confortáveis com a situação e então os pés fugindo para longe de mim, enquanto se afasta ainda me lança mais meia dúzia de palavras
-Até amanhã menino vá para casa
Onde vai não sei, muito apressado demasiado atrapalhado, compensa o tempo que perdeu na saudação com dois passinhos de corrida e então desaparecido no interminável da noite. Provavelmente a noite apanhou-o, provavelmente também ele um travozinho de desalento entranhado no íntimo, provavelmente nem reparou que a camisa com os botões desordenados.
Talvez a noite a casa das estrelas e dentro em pouco novamente o refeitório e o espelho da velhota, dentro em pouco os telemóveis do indiano e portanto eu novamente dormindo.

Gonçalo Naves


Foto tirada daqui: http://ola-comoestas.blogspot.pt/2012/12/imaginacao-e-mais-importante-que.html

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