segunda-feira, 8 de junho de 2015

Conheço-me e estou contigo, olho-me e não te tenho.


Aqui há dias no meu quarto dei por mim submerso num lago infinito de saudades invisíveis, saudades tuas e tu que afinal nunca minha. E depois reparei que o meu quarto sem o tamanho bastante para te amparar, tu tão grande, tu que não existes em sítio nenhum que não na solidão triste dos meus pensamentos e por isso tu tão infinita. Contei à minha mãe esta tristeza na esperança de compreensão e riu-se ela gozando-me, oh rapazinho isso não é nada vai lá estudar que tens ponto amanhã, virei as costas e fui embora, triste, cabisbaixo, os passos cada vez mais envergonhados e o chão cada vez mais longe.
E assim andei durante semanas e meses e anos que se arrastaram num tormento tão infeliz, eu tão bom, tão bonito tão simpático tão boa pessoa e afinal de contas tão desgraçado, eu o melhor de todos mas sem passar de um vazio patético derivado às saudades que tenho tuas, tu que nem existes, tu que nem podes existir. Multipliquei-me em pensamentos e apenas tu a preenchê-los, nós um só para sempre apesar de tu nunca presente, eu quase defunto no sofrimento dessa ausência tão sentida.
Nestes anos que me fugiram todos os dias eu a imaginar-te a figura e a ação, onde estará ela alguém me diga por favor, talvez deslizando na calçada a fim de espalhar o tal encanto por todo o sítio, quem sabe entrando num restaurante e desde logo todos os empregados na devida vénia e a acorrerem no objetivo de aconchegarem a cadeira à madame, deitada a ler um livro e os personagens tão contentes e tão vivos por estarem a ser lidos por ti, tu tão bonita, tu nunca minha.
Mas com o tempo eu a aprender e então a transformar-te em figura presente, pelo braço dado contigo rua fora, sentados na cama partilhando histórias que pouco interessam mas se bem virmos são essas as melhores isto porque com o desinteresse das palavras mais tempo sobra para o cruzamento de olhares. Eu contado-te os meus tormentos já ultrapassados e tu a escutares com atenção e no seguimento a dares-te como culpada desses sofrimentos, nós os dois agora finalmente juntos, eu homem como sempre e apenas físico, tu perfeita e só imaginação, nós a tendermos para a eternidade e por isso o mundo tão minúsculo.

Gonçalo Naves


Imagem tirada daqui: http://super.abril.com.br/blogs/cultura/tag/ilustracao/

Sem comentários:

Publicar um comentário