segunda-feira, 18 de maio de 2015

Nunca soube escrever, nunca pode saber escrever


Tem o ato da escrita incontável encanto. Talvez fruto de mágica poção, quem sabe produto de feitiçarias desconhecidas, com certeza uma das mais belas metafísicas do Universo. Para além disso, é escrever uma lição de humildade. Por certo umas das mais profundas que pode alguém experimentar, a deviam todos sentir, nem que por momentos breves e logo esquecidos. É esta sugestão especialmente destinada aos que proporções desajustadas de ego têm, com supremo respeito meu à herança de traços de personalidade.
Por fruto de mero acaso epistémico surge-nos nas vísceras entranhado o interesse por se começar a dar, com maior ênfase que até então, certo tipo de sequência a determinadas letras e palavras. Coisa engraçada, mais bonita do que parece, mais fabulosa do que quer parecer, isto porque é o próprio processo de escrever a coisa mais humilde do mundo. Com grande entusiasmo se começa. Escrevem-se umas coisas banais a princípio, de seguida outras que no próprio entendimento assim não se pensam, vai o interesse alargando, vão as capacidades crescendo, vai o ego ganhando volume no natural e devido acompanhamento que merecem estas transformações. Mais se vai escrevendo e mais gosto se vai tendo por escrever, raciocínio este tão certo como a aritmética de dez e dez vinte serem. Pessoas de beleza nunca vista, lugares da Terra recheados por estrelas, um cão contador de histórias. Todas estas existências consequência de uma imaginação que fértil se julga. É o dia inteiro passado com um lápis cada vez mais pequeno na mão ou com os dedos no teclado, na máquina de escrever no caso de não haver preferência por inovações da tecnologia. O que interessa é escrever.
Mais se escreve mais gosto se vai tendo por outras leituras, esta mais uma conclusão matemática de entendimento óbvio. Sente-se neste momento o homem chefe de todas as coisas do céu. Muito se lê, todos os dias todas as horas e a todas as horas de todos os dias. Pelas mãos nos passam todos os livros do mundo, bons e muito bons, maus e muito maus, apenas extremos que meios termos não existem nas coisas da literatura. É neste exato ponto que começa o ego a descrever uma trajetória descendente no que às próprias dimensões diz respeito. Cada vez mais pequeno, diminui todos os dias e a todas as horas, diminui com cada palavra lida que escrita por mão alheia. Diminuição do ego sinónimo de aumento da angústia, assim é e assim tem que ser, foi a Natureza construída de forma perfeita, tende o homem para a insignificância. Na cabeceira cada vez mais livros em monte, quase ao teto chegam, muito se vai lendo. Quanto mais leituras feitas menor vai o ego ficando e maior peso vai a angústia ganhando, que evoluem estas coisas de acordo com uma natural lei de proporção. O pedaço agradável do sofrimento surge quando se começa a angústia a transformar em humildade. Acontece isto no momento em que não mais é o ego que uma criatura com vários tons de invisível, apunhalada pela genialidade intocável de terceiros. Continua então o processo de criação escrita a ocorrer, desta vez deslizando por caminhos calmos. O mesmo destino tem o desejo de leitura, ambos tornados infinitos no íntimo de cada um. Quando se completou a transformação de angústia em humildade, sente o homem as mais sinceras certezas possíveis, vindas estas acompanhadas pela mais alegre expressão de conformação. Nunca soube escrever, nunca pode saber escrever.
Gonçalo Naves




Foto tirada daqui :http://www.alunosonline.com.br/portugues/poemas-literatura-portuguesa.html

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