quarta-feira, 27 de maio de 2015

Bateu-me ontem à porta o meu filho

 Há mais de um ano que não o via, nem meia dúzia de telefonemas desde então. Deixou o cabelo crescer demasiado, cobre-lhe agora os olhos e as orelhas. A barba por fazer, um mau aspeto tristíssimo, toda a pele parecendo a de um mendigo. Vinha triste, cansado, o corpo a ocupar-me toda a largura da porta. Na mão direita uma mala, outra a rasto pelo braço esquerdo, as costas a aguentarem uma espécie de mochila pesada o demais para o obrigar a andar meio curvado. Notei-lhe lágrimas a quererem despontar face abaixo, bem forte se aguentou, todos os músculos em contração a fim de evitarem esse tormento. Nisto surgiram-lhe das costas uma mulher e dois miúdos. Era a mulher a minha nora, dele esposa, eram os miúdos os meus netos, deles filhos. Tristes vinham, mais ainda que o pai, a mãe a disfarçar a tristeza com um género de lenço cobrindo a cara, os filhos com o olhar fechado nos mosaicos da entrada. Não correram os miúdos a fim de abraços, cada um deles com metade do corpo escondido na figura da mãe

Mãe fui despedido e o banco ficou-nos com a casa, não temos para onde ir, há uma semana que dormimos na rua, não temos dinheiro

A mulher com a cara completamente coberta pelo lenço, os cabelos numa vergonha, já não loiros, já não fortes, os ossos a carregarem excessiva saliência pelo tronco fora. Os dedos a tremerem, voltou a esconder-se nos costados do meu filho, o meu filho a aguentar tudo

Podemos ficar aqui mãe, prometo que por pouco tempo, vou arranjar trabalho, prometo mãe

E neste ponto eu a pensar como me havia de governar a partir de então. Vivo com a pensão miserável do meu falecido marido, uma ninharia que para nada dá, ai cala-te boca, que o tenha o céu que fora esse dinheiro nenhum tenho. Ainda assim apenas quarenta contos sendo que vinte deles ficam para a renda e outros dez para a água e gás, luz não existe neste sítio, sobram-me outros dez para as comidas, mal uma pessoa com isso se alimenta, quanto mais cinco. Ainda assim eu

Oh meu rico filho claro que podem ficar, entrem entrem, ponham aí as coisas

Eles a entrarem e eu novamente a pensar. Tenho um quarto pequeníssimo com uma cama pequeníssima e uma cómoda encostada à parede e um tapete minúsculo estendido aos pés da cama, só se ficarem os miúdos no chão da sala e eles os dois no corredor de entrada, espera que não dá o corredor para os dois e a sala espaço para três não tem. Ai Senhor ajude-me que não sei como vamos fazer isto

Bem sabia que não havia espaço para todos, arrumaram-se primeiro os dois miúdos na sala, estendi-lhes um colchão velhíssimo e coberto por uma camada de sujidade e um lençol cheio de buracos que antes o meu, tentaram depois o meu filho e a mulher aconchegarem-se no corredor de entrada, não houve espaço, mal um se ajeitava quanto mais dois. Lá ficou a minha nora, dormiu no chão, tapou-se com o tapete que descansava aos pés da cama, faltava espaço para o meu filho. Disse-me ele que não me incomodasse que já estavam a mulher e os miúdos arrumados, ele havia de se arranjar

Eu arranjo-me mãe, nem que seja à porta do prédio

Nem pensar, filho meu não dorme sem teto

De maneiras que quarenta e um anos passados voltou o meu filho a dormir junto comigo, nós os dois na mesma cama, quarenta anos se passaram e o passado revivido, quarenta anos e quase tudo igual

Gonçalo Naves



Foto tirada daqui: http://www.crato.org/chapadadoararipe/2011/05/04/plano-de-dilma-para-erradicar-pobreza-tem-16-milhoes-de-brasileiros-como-alvo/

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