quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sou um colecionador de sonhos

Sou-o pela razão de não ter visto modo de encontrar outro ofício para o qual tivesse a minha genética herdado habilitação. Acontece que, para trabalhos do físico, tenho grande lacuna de forças e vontades. Só de lhes dirigir o pensamento, que também por si é fraco, mas já lá iremos, sinto-me dez vezes desgostoso, outras dez paralisado e sem meio de saber o que fazer. Quando tenho infelicidades desse tipo, salvo-me na única acomodação que tenho no mundo, podendo vós tratá-la por Senhora Doutora Cama, que também ela merece distinção pelo sossego que me empresta.
Para as coisas do pensamento, ou da inteligência, se for essa a preferência de vocabulário, sou uma tristeza duplicada. Nas Matemáticas tenho desempenhos ridículos, péssimos, os piores no mundo. Falando sincero, nem contar sei, facto esse que tantos trocos me tem subtraído em tudo o que é mercearias e negócios de bairro. Nos outros saberes da cabeça, Línguas e Histórias e coisas das Filosofias, sou um género de nevoeiro absurdo, incontrolável na expansão, que na proporção do tempo se vai estendendo sobre os pensares dos outros e, para grande desassossego, acaba por lhes queimar a paciência para o diálogo que ousam ter comigo. Isto porque, de todas as vezes que falo, querendo-me fazer de grande sabedor e teórico dos maiores, acabo acabado, empurrado contra o chão, sangrando de vergonha e salivando como se fosse minha a saliva de todos os seres do mundo, reunida na tentativa de me afogar. Está aqui então explicado o meu desastre doloroso que, atuando como entidade implacável, vai murchando tudo o que na minha volta tente florir.
Porém, sou um colecionador de sonhos. Pela rua vagueio, meio curvado meio direito, dois meios que perfazem um zero. Recolho sonhos de toda a espécie, brancos e pretos, do dia e da noite, do espírito e da carne. Estão eles quase sempre perdidos nos entrefolhos da calçada, bem escondidinhos e de difícil acesso, esquecidos pelos homens que em tempos lhes deram início. O que vale é que tenho em minha conta o material necessário para a colheita. Uma foice um género de pá e um íman de sonhos, sendo os dois primeiros herança de família e este último um instrumento imaginário, produto da minha ausência de cérebro, tão maléfica para os saberes mas tão benéfica para estas coisas de sonhos.
Assim me vou entretendo com este divertimento, não me importando com chuvas e frios, velórios e nascenças, trabalhos e obrigações. Enchem-me estes sonhos o nada que me rouba o tudo de todas as coisas que não sei fazer, e por isso sou tão feliz.

Gonçalo Naves

                           Foto tirada daqui: http://olhares.sapo.pt/retratos_de_lisboa_2_foto543883.html


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