domingo, 12 de abril de 2015

Era aquele o homem que não se conseguia ouvir.


Era aquele o homem bom que não conseguia escutar as palavras que a própria boca cuspia. Devia-se isso a causa incerta, deficiência nos tímpanos ou desfasamento entre espetros de audição e de voz. Imagine-se então os dizeres dele. Baboseiras, histórias de credo, bajulo para cá e para lá, tantas letras desperdiçadas e sempre o próprio como único personagem. Já várias vezes sozinho falava ele, sou eu isto, fiz eu aquilo, acolá estive, tantas boas palavras que podia delicadamente libertar mas afinal só cuspidelas desta triste categoria. E assim viveu e falou, assim quase sozinho andou e assim continuou, a si próprio igual, cada dia o mesmo homem que nos anteriores.
Teve então esse homem a bênção de se conseguir ouvir. Por um momento escutou-se mas mais não foi preciso que a brevidade desse instante. Arregalou-se-lhe a espinha, franziu-se o nariz que então tão cerrado e seus olhos viraram desilusão escorrendo que nem cascata. A fim de sobreviver à dureza desse choque teve ele que apoiar o traseiro no chão, outra forma e tinham-lhe as tonturas tomado partido da fraqueza. Nesse impasse mais de meia hora ficou, manápulas amparando o peso vindo dos olhos e quase a vergonha a enterrá-lo, quase o cérebro a virar poço cheio de desgosto, quase o coração a cessar atividade.
Tomou finalmente o homem bom decisão resoluta; para sempre se calou e para o mesmo sempre os companheiros escutou. E assim viveu em harmonia antes nunca experimentada o tempo que lhe restou.

Gonçalo Naves

Foto tirada daqui: http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.pt/2013/11/esquizofrenia-e-egocentria.html 

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