terça-feira, 28 de abril de 2015

É do borogodó: panela de cozido (a teimosia de Maria)

Teimo ser tua Maria mesmo que eu não carregue com esta sina o nome cravado na certidão. Diz lá outra coisa, não importa, teimo ser tua Maria, um ventre amplo onde se multiplicam ilusões açucaradas para multidões ensandecidas.

Deito-me na cama e do meu umbigo brota uma imensa árvore. Ganha céu, jequitibá. Floreia nuvens, ipê. Margeia a serra, manacá. A copa imensa estende abertos braços que acolhem teu regresso, figueira. Encorpadas de satisfação chovem folhas, sibipiruna.

desenho em nanquim – José Elffer

A primeira mensagem, as linhas formais, o vocabulário rebuscado que derramava uma timidez sedutora, eu respondi sem saber. Mas, confesso, senti vibrar algo inusitado ali, naquele fraco instante em que não éramos mais do que bilhetes vagos e menos do que os velhos carimbos postais. Faltava um pedaço, mas havia todo o resto.

Teimo ser tua Maria mesmo que as linhas tenham se desintegrado antes de constituir tua caligrafia. Antes do sim, antes do não.

Paira no teto do quarto uma teia de aranha cuja trama fina é indecifrável. O pequeno inseto que ali ficou atrelado, tramas de linhas, esperou ser devorado por uma aranha imensa, linda de tão feroz; mas a aranha nunca veio ter com ele o encontro prometido. O inseto morreu desgostoso daquela insignificância. Ficou chorando dias e dias ali no canto da parede e das lágrimas dele brotaram manchinhas escuras de bolor. Um dia veio o vento, a chuva, o aguaceiro e nunca mais se ouviu falar deles.

Respondi para que tuas aflições fossem diluídas nas minhas. Entreguei uma alma antiga, daquelas empoeiradas que não temem as vicissitudes da vida (que é efêmera, sobretudo).
Cresci num terreiro de chão batido e bem varrido por vassourinhas de palha de milho. No canto norte uma fartura de arruda, no canto sul capim cidreira. Despiu-se em mim fagulha de fogueira, atabaques e preces silenciosas. Os profetas, os deuses, os bárbaros, os pagãos (principalmente os pagãos), todos eles foram me habitar.

É preciso saber agradar para fazer um bom cozido. Saber da colheita, saber do preparo, saber do sabor. Saber da honestidade que a simplicidade nos impõe. Inhame, aipim, maxixe, couve-manteiga, moranga e batata doce e baroa.

Teimei ser tua Maria porque eu sabia que poderia ser tua simplesmente e eu saberia a hora de cada pequeno broto, cada raiz, as folhas verdes espessas que podem tudo suportar. As saudades se escondem na panela de ferro, cozinham em fogo brando.

Sonhei fadas prenhas, elefantes brancos e pequenos príncipes indianos enrolados em finas sedas. Camaleões se embrenhavam nos travesseiros, faziam amor entre as plumas. Ouvi chiados de fêmeas em gozo. Vi libélulas arrasarem voo em duo. Toquei em mim uma valsa elegante, estendi as cordas do violão e degustei lembranças eréteis.

Uivei pedindo abrigo à Lua tantas eram as nuances da minha ode onírica, mas o Tempo veio – com a faca nos dentes e os olhos flamejantes de labaredas gélidas azuis – e sem dizer nada que me consolasse, ceifou minha alegria.

Emaranhei-me nas teias das palavras gravadas no espaço e ali morri sem nunca ter sido por tua gana devorada. Morri no desgosto da semelhança que era avessa. Morri no fel que não se conhece das travessuras adolescentes. Extinguiram-se em mim tuas promessas vazias.
Insisti ser tua Maria na nuvem grossa de areia que turvava minhas retinas.

Caiu o sereno, passou o vento, as calhas cantaram. A rua se espelhou úmida nas miracemas vulgares que hoje mais parecem brilhantes únicos, verdadeiros.

Penélope Martins

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