sábado, 21 de março de 2015

Sublinhei no «Desamparo» de Inês Pedrosa


(...) "Faltavam-lhe amigos que lhe recordassem que ninguém vive em função de outrem; podemos, por exemplo, morrer a tentar salvar alguém, mas fazemo-lo em função dos valores que estabelecemos para a nossa vida. Atiramo-nos ao mar para salvar um filho ou um desconhecido de morrer afogado porque não seríamos capazes de viver em paz se não o tivéssemos feito. Não se trata de uma lei geral: há aqueles que se sacrificariam para salvar os seus torturadores, e aqueles que nem pela carne da sua carne se imolariam. A moral pública interfere nestas decisões mais do que gostamos de acreditar, sobretudo neste século XXI em que o individualismo se tornou o cavaleiro-mor da inteligência e a liberdade enche as bocas como uma nova especiaria à disposição de todos. Até meados do século XIX, a morte de uma criança era um acontecimento banal; ainda hoje o é, aliás, na maior parte do mundo. A omnipresença das imagens cria uma rotina de compaixão diferida, uma imitação de mágoa que alivia as consciências modernas."

*in Desamparo, Inês Pedrosa.
ed. Dom Quixote

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