sexta-feira, 13 de março de 2015

Primeiro Parágrafo: Desamparo, Inês Pedrosa


 
1. Vista panorâmica
 
 
UM SILÊNCIO EM BRUTO, COMO SE O TORNO DO MUNDO não tivesse ainda começado a rodar. Manchas estáticas de verde, pomares interrompidos por casas brancas, amarelas, algumas - poucas - com pórticos em ferro lavrado, escadarias flanqueadas por leões ou jarrões de pedra, dois andares e pátios onde ao fim-de-semana estacionarão automóveis urbanos. Nem os cães ladram debaixo da canícula. Os pássaros desistiram de voar. Na aldeia de Arrifes, concelho de Lagar, milenar dote de princesas e rainhas, nada se move. A carrinha do Centro Social já fez o seu turno, pelas nove da manhã, com duas mulheres de bata azul, para ajudar os velhos que vivem sós a levantarem-se, lavarem-se, vestirem-se, dar-lhes o pequeno-almoço. Voltará a meio da tarde com o jantar. Há outra carrinha que os leva para o Centro do dia, onde podem ver televisão, jogar às cartas ou fazer ginástica. A maior parte deles não quer ir. Dizem que a companhia dos outros velhos os cansa.
 
*in Desamparo, Inês Pedrosa

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