segunda-feira, 2 de março de 2015

O Vento dos Outros

A beleza quando a conseguimos transmitir é algo de transcendente, e que nos leva para além das paisagens pois integra-nos nestas, ultrapassa a imaginação pois faz-nos fechar os olhos e transporta-nos para lá, envolvendo-nos nestas durante a noite como um saco de cama nos envolve numa tenda. Eis como me apetece resumir primeiramente este livro sem índice, porque, para que é que precisaríamos de um numa viagem!!! O rumo desta viagem da Costa Rica à Patagónia é mais do que a descrição da mesma, é a soma de aprendizagens que variam entre as descobertas, os caminhos que se cruzam, a fuga ao turístico e comum, as despedidas, frustrações, acidentes, romances e reencontros.

A autora, Raquel Ochoa, é para além de escritora de viagens e de biografias, romancista e nota-se uma clara influencia destes vários estilos uns nos outros, neste seu primeiro livro, daí ser tão diferente e fluido o mesmo, esbatendo-se todos estes estilos nesta fusão, como se a autora na altura estivesse ainda a explorar o que queria ser, não optando por nenhum estilo, sai assim e bem do trilho natural que poderia assumir um comum livro e/ou crónica de viagens. A viagem que é descrita neste livro, foi realizada quando tinha de 24 para 25 anos, ou seja, entre finais de 2004 e os primeiros meses de 2005 e mesmo escrito o livro nessa altura, não se nota, dez anos depois muitas diferenças, se visitarmos hoje os locais, entre o que descreve e o que é descrito então. Fruto de uma geração que transitou de um milénio para o outro, a autora soube captar, sem no entanto deixar de se perder – e fazer-nos perder a nós – algumas vezes, o espírito e a essência do que é viajar hoje pelos quatro países que descreve no seu relato, a saber: Costa Rica, Peru, Chile e Argentina.


A sabedoria que partilha connosco, não só dela mas dos múltiplos personagens e ambientes com que se cruza, faz-nos entrosar facilmente com o espírito do livro, que mais do que um livro que quer que nós viajemos, torna-se num livro que quer que nós compreendamos os outros, sejam esses outros, povos, países, paisagens, personagens humanos e/ou animais. E isso é algo que se esculpe pela força do vento ao longo de toda a obra, ao ponto de mais para o final do livro se fundir o escultor com a esculpida: Sustida no ar, com os pés desequilibrados caindo em frente, frio cortante contra o rosto com chapadas repentinas, rezava para que aquela força não diminuísse de repente, largando-me indefesa para dentro daquele buraco azul-escuro. Planava, os braços faziam força para continuarem rectos, todo o corpo debruçado no vazio tinha de se manter firme para não ser projectado para trás, tal era a pujança com que recebia directamente aquela corrente de ar viva, aquela chicotada permanente de vento, que sem resguardo me trespassava o espírito. Foi esse o momento em que por fim entendi o ónus espiritual do vento dos outros... Lateralmente suspensa, leve e frágil como mais um aglomerado de poeira.


A força da natureza que nos descreve, seja esta da urbanidade ou da natureza pelo qual caminha, ou dos animais e humanos com quem se cruza e que misturada com os diversos apontamentos históricos e autobiográficos, nos faz concentrar em muitos momentos no livro em várias experiências que variam entre o romance, polvilhado de riquíssimas experiências pessoais e de terceiros, a descrição histórica e geográfica de uma região, país e/ou povo e a pura descrição da viagem propriamente dita, deste modo posso descrever que a autora escreveu este livro aceitando a natureza rítmica do mundo.


Como a próxima semana é a segunda 2.ª feira de Março, e analiso/critico livros sobre maçonaria, esoterismo, teologia e religião, escolhi analisar um livro/romance sobre religiões, o que escolhi foi A Viagem de Théo de Catherine Clément.

Saudações a todos os leitores e boas leituras,

.'.Sandro Figueiredo Pires.'.

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