quinta-feira, 26 de março de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Meu querido José

Escrevo-lhe ao entardecer deste lusco fusco pardacento. Prepare-se para o inevitável, jovem moço das literárias andanças! Não lhe envio nesta missiva as partes em falta do meu testamentário. Relaxe. O dia, ou a noite, há-de de chegar.
Por agora, um longo poema de jaez sinfónica que surgiu há uns anos, após um concerto de Smetana em Praga.
Estou parco e nublado nas palavras, pois para além do tempo que é tão opaco, sigo amanhã para a Irlanda, formidável ilha dos nossos irmãos gaélicos.
Um terno abraço deste
Seu

Gonçalo Viana de Sousa




Smetana

Uma pequena gota, ínfima, pequena,
De um rochedo distante e sossegado
Num bosque onde a noite é serena
Onde os violinos têm um som encantado.

A mesma gota vezes sem conta,
Suave, serena, simples, singela
Sussurrando promessas de grandeza
Esperando do vento felicidade.

O rio nasce e corre correndo
Por entre as fragas de terras
Falando de paz, calando as guerras
Num grande e estridente crescendo!

Os pássaros, o chilreio
O sonho, o vago, o devaneio.
A terra e a água, beleza.
O dom do moldava sendo mais,
Muito mais que natureza.

Uma pequena gota, ínfima, pequena,
De um rochedo distante e sossegado
Num bosque onde a noite é serena
Onde os violinos têm um som encantado.

Pássaros, pedras, deuses e ninfas,
Sonhos e silêncios, medos e amores,
Tudo corre nas tuas águas iniciais,
Quando és infante e pequeno
E brilhas, com teu cristalino odor.

Corres e nasces e fundas cidades!
Praga como um desejo, um suspiro,
E todos os mitos desse país tão longínquo,
A minha Creta, o rio,
O meu minotauro, a floresta negra!


Uma pequena gota, ínfima, pequena,
De um rochedo distante e sossegado
Num bosque onde a noite é serena
Onde os violinos têm um som encantado.

Sob essa montanha onde nasces
Belo e fresco, deuses e feiticeiros
Dragões e cavaleiros,
Druidas e bruxas,
Lutaram pelo teu oiro de música
E de metáforas fundacionais.

Romântico filho de Beethoven e
Talvez dos modernos do século
De Bizet, Berlioz e Mendelssohn.
Pai de histórias e de países menino!

Quero ter uma pátria feita de música,
Em que a sua fundação seja eslava, e não greco-romana,
Judaico-cristão, basta disso! Basta!
Quero ir para lá dos Alpes, e ficar entre os Cárpatos,
O Reno e o Danúbio!
Quero ser eu em plenitude, uma pátria líquida,
Moldava, sou-me!

Uma pequena gota, ínfima, pequena,
De um rochedo distante e sossegado
Num bosque onde a noite é serena
Onde os violinos têm um som encantado

Com a força dos bosques,
Da floresta negra, das fadas e dos nibelungos
Que ainda agora surgiram por entre os meus cabelos,
Desço a montanha saltando, dançando e cantando,
De laço no cabelo, de cesto no braço,
Olhando o céu e a lua alta,
Escutando o vento e as histórias dos antigos.
Napoleão morreu, a Áustria oprime e os
Impérios caem, como o medo,
Como a fome, como a injustiça.

A minha luz cristalina atrai os pirilampos
Na aldeia, as casas caiadas e o gado no curral.

O dia nasce e o sol brilha porque existe!
Vejo como um danado que ainda não tinha nascido e
Que haveria de não nascer, longe, na terra
Dos que nunca foram aquilo que poderiam ter sido.
Agora não interessa.

Sou o moldava, as casas na aldeia caiadas de luz.
É dia de festa, é dia da festa eslava, uma qualquer, não interessa!
Só preciso dessa festa para fazer sentido e continuar a
Fazer parte deste poema sinfónico!
Por que porra fui falar dos que não nasceram aqui?
Quase me ia perdendo! MERDA!

Sou o moldava, as casas na aldeia caiadas de luz.
O povo em festa, celebrando a pátria que nasce
E que sou eu, a pátria menino,
A mátria menina,
Sacio a sede de paz e justiça,
Igualdade e fraternidade!
Sou a revolução líquida deste povo
Que é e será o meu.

Continuo a viagem até Praga,
Mesmo que Praga não exista,
Mesmo que pátria seja um lugar-símbolo
Não de alcance diáfano, mas latitudes interiores,
Que palpitem pátria e fervor sentimental, racional,
Não bélico ou extremado!

Salpico, salto, corro, voo, viajo no tempo e no vento,
Ultrapasso obstáculos e escuridões,
Desfaço as sombras, corrompo a corrupção,
Rasgo falsos ídolos e bandeiras,
Grito em plenos pulmões liberdade…

Desfaço-me em água e pátria

Uma pequena gota, ínfima, pequena,
Que agora cresceu e cresceu
De um rochedo distante e sossegado
Num bosque onde a noite é serena
Onde os violinos têm um som encantado
Porque eu sou o Moldava!
Porque eu sou Moldava!
Pai de filhos por nascer
De uma nova pátria a nascer!
Moldava!
Moldava!
Moldava!
Eu sou Moldava!
E isso será ecoado e cantado
Pelos quatro cantos da europa por descobrir
Pelos povos que lutam e gritam: pão
Pelos povos que gritam e lutam: água
Pelos povos que gritam: liberdade
Pelos povos que gritam: justiça
Por todos que acreditam na igualdade!
MOLDAVA! EU! EU!EU! MOLDAVA!
Uma pequena gota, serena, sussurrante, sossegada
Serena, sossegada, sussurrante,
Serena, sossegada, sussurrante,
Serena, serena, Smetana,
Moldava….










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