quinta-feira, 19 de março de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações




Meu querido José

Envio-lhe a sétima e última parte do meu definitivo testamentário. Imagino que já deve estar todo eufórico por não ter recebido nem a quinta ou sexta partes. Tenha calma, jovem frenético das alturas românticas! Já o tinha avisado que comigo não adianta tentar engavetamentos, nem em épocas nem em textos. Faça o que quiser com o texto, mas não espere ordem onde só se pode aguardar pelo caos e pelo mistério. Não espere harmonia onde só existe humanidade e paroxismo.
Antes de terminar esta missiva, devo-lhe, em nome da nossa amizade, dar-lhe umas quantas informações em relação a estes textos. Papa John, como já lhe tinha dito, é americano, mas de continente, não de país. Seu verdadeiro nome era João Rubinato e foi actor e músico nesse grande país de Terra Brasilis, diria meu primo Jobim. Talvez este nome de João Rubinato nada lhe diga, mas posso afiançar-lhe que foi um dos grandes nomes do samba do povo livre ao longo do século vinte, bem antes de meu primo. Pois bem, este João Rubinato, ao qual apelidei de Papa John, era o famosíssimo Adoniran Barbosa. Se nunca ouviu música alguma dele, aconselho-lhe a escutar o Samba do Arnesto, o Samba Italiano e a Saudosa Maloca. Procure nessas maluquices virtuais, pois acredito que não devem faltar álbuns e fotografias e outras coisas que tal.
Quanto a meu primo Jobim e à Elis Regina, ficará para outra altura o relato de como os conheci e de como descobri que o Tom era meu primo.
Ora bem, jovem das alturas profundas (este oximoro foi exímio, diga lá?), quanto às outras partes, um dia destes envio-lhas, para poder tentar entender o porquê de tal volte-face, ou talvez não haja volte-face algum. Foi a realidade a tecer a sua meada com laivos de sangue e ficção tropical.
Sei que vai querer saber o nome daquela que parece ter sido fundacional para a minha vivência. Não lho digo, pois veria até nisso estranhos sagrados segredos amadores de alguém que não teve como destino escrever, mas sim viajar.
Muito agradeço a sua visita no domingo passado e o seu presente, que era escusado.
Receba este texto, meu querido José, e não dê às asas da imaginação, atenha-se às palavras e sorria.
Um abrrraço do Efrraim, que muito lhe agrrrradece os doces. Uma Marrravilha!
Outro do
Seu

Gonçalo V. de Sousa.




(7ª e última parte) - Change Partners

Abri os olhos e senti o teu perfume no meu corpo, nos suaves lençóis de linho. A brisa soprava pela janela do hotel que se espraiava até ao azul infinito do Atlântico. Os teus cabelos tinham aquele aroma fresco e primaveril dos lírios e das rosas, ainda que a maresia e todo o tropicalismo do Rio de Janeiro e de Copacabana navegassem no teu corpo.
Ali estavas tu, verdadeiramente amável, náufraga em suaves segredos amorosos. Ali estavas tu, na minha cama, encostada ao meu peito, abraçada ao meu pescoço. Tudo parecia tão certo e, ao mesmo tempo, tão assustadoramente irreal. Os teus cabelos loiros derramados pela minha cama como um despojo de guerra, o teu vestido branco, elegante, intrigante, maravilhoso, sobre o chaise-longue. O teu corpo nu e quente, os íntimos pequenos pêlos eriçados, as tuas pernas entrelaçadas nas minhas. Foi assim que acordei nessa manhã de quinze de Março de 1968, no dia em que completava vinte e dois anos.
Depois de duas semanas irreais e quase novelescas, tinha-te nos meus braços, tinha o teu sorriso todo só para mim, todo só para mim, só para mim, doirada senhora dos cabelos e dos pensamentos perfeitos.
Saio da cama sem fazer algum barulho que incomode o teu sono sem mácula, sem que a tua respiração calma e suave se dissolva na brisa da manhã. Vou até à varanda da suíte que Papa John reservara para mim. A manhã clara e luminosa de um sol olímpico que banha Copacabana e os morros e o Redentor. As praias espreguiçando-se languidamente ao longo do Calçadão, enquanto alguns turistas e veraneantes aproveitam as últimas águas de Março. (Mais tarde, esta minha expressão iria inspirar meu primo a escrever uma música que ficaria imortalizada no dueto com a Elis Regina.) Que mais poderia eu, jovem, com bons padrinhos, sem problemas, e com a mulher da minha vida partilhando a cama, e talvez a vida, pedir aos deuses? Tudo era bom e belo e justo e tudo fazia sentido. Agora sim, tudo parecia fazer sentido.
Da varanda olhava para dentro do quarto e quando as cortinas faziam balão com a suave brisa que acariciava aquela manhã, vislumbrava-te deitada e adormecida. O teu corpo delicado, moreno do Sol dos trópicos, exalando aromas a coco e a abacaxi. As tuas pernas perfeitas, os teus braços perfeitos, o teu rosto, linhas de versos escritos por indizíveis e inenarráveis anjos de cetim que guardam os tesouros celestes e as coisas inefáveis. Os teus lábios adormecidos eram os suspiros que embalavam aquela manhã tão irreal e tão verdadeira. Naquele momento, acreditei que era possível sermos melhores do que as pessoas de papel. E fomos, dourada senhora minha. E fomos.
Mandei subir um moço com o mata-bicho. Frutas, sucos, pão, geleias e flores, muitas rosas e lírios e camélias e tulipas roxas.
Tu continuavas dormindo como uma promessa de vida no meu coração, diria meu primo poucos anos depois estas palavras que vagueavam pelo silêncio dos meus pensamentos.
A brisa do Atlântico chegava ao leito em suaves e doces quietações. Fosforescências líquidas.
O Sol começava a nascer na varanda do quarto, avançando até à nossa cama. O Sol crescendo por entre os teus pequenos e delicados pés, subindo pelas tuas pernas, tranquilizando a tua pele sensível e perfumada.

Ligo o gira discos.

Acordo-te com um beijo pausado, enquanto as gaivotas voam alto e o cheiro a maresia se ergue por entre as cortinas brancas do hotel. Tu sorris e beijas-me e o tempo parece não existir. As palavras não existem. Mas os teus lábios existem. Mas os teus beijos existem.
Gasto eras olhando, observando, vislumbrando, de forma embasbacada e infantil, o teu rosto. O teu sorriso de dentes perfeitos. Os teus lábios que sussurram suspiros bruxuleantes, misteriosos, mágicos, eternos, deliciosos. Tu sorris e não existe dor nem no presente nem no futuro que seria o presente desta manhã. Hoje, essa dor continua a não existir, porque gravei a sangue o teu sorriso e as tuas palavras.
Beijo-te o corpo nu e enlaço as tuas nas minhas mãos. O elegante verniz esbranquiçado dos teus majestosos dedos é um pormenor de retábulo. Acaricio-te os cabelos com promessas de manhãs suaves e justas. Prometo-te o Verão e as coisas belas em cada carícia, em cada toque capaz de arrepiar o mais teimoso e subtil pequenino pêlo do teu regaço. Abraças-me com a vulcânica força que rege as vagas e as neblinas, enquanto o Sol nos cobre as costas e os pés e a brisa do mar se guia pelo ritmo da música.

Que aquela manhã, triunfal, ecoe no silêncio do anonimato. Para sempre. E que faça lembrar o Sol e a luz dos dias fartos, frescos e líquidos, de beijos sedosos e maravilhosos. (Meu primo iria aproveitar a métrica e o sabor desta última frase para uma sua famosíssima canção intitulada Chega de Saudade).

Passaram mais de quarenta anos e onde nos encontramos agora, que o mundo continuou e as ondas cumpriram as suas promessas de espuma?
Tivemos medo de responder ao futuro e às incertezas, agarrando-nos ao presente que é constante. Fizemos daquela manhã um continuum ad aeternum.
Não interessa o que veio depois, meu amor de manhãs doiradas e perfumadas. O que veio depois é nada, madona minha das palavras por escrever.
O que veio antes ou depois, não interessa absolutamente nada. Interessa sim, aquele quarto naquela manhã em Copacabana, num hotel que selou o meu destino de viagens para ti. Só para ti.
Tudo o que permanece é o teu sorriso e o meu corpo e o teu corpo sendo um, como uma comunhão de passarinhos brancos a voarem para os picos mais altos das montanhas inacessíveis. 

O teu corpo no meu corpo.

«Porque fazes tudo isto por mim, Gonçalo?», perguntavas-me. «És tu a resposta para o meu futuro e para tudo o que venha a fazer. Digo-te isto e ainda não sei o propósito do que está a acontecer ou do que vai suceder.» «Porquê eu?» «A música selou-nos sem que o soubéssemos. Não me arrependo de nada.» E tu respondeste «Nem eu. Parece que estamos vivendo sonhos, Gonçalo. Träume.» «Sonhos ou não, dourada senhora dos meus pensamentos perfeitos, temo-nos.» Ao dizeres sonhos em alemão, com o teu sotaque límpido de horas de aulas sobre essa magna língua de príncipes e valquírias e dragões e cavaleiros, estremeci.
Beijei-te novamente e abracei-te com toda a força do mundo. Beijei-te os dedos e os braços. Peguei em ti ao colo, dançámos e sorrimos e nada mais interessava. Fizemos amor ao som da música que o gira discos repetiu vezes sem conta. Amamo-nos como deuses e como demónios, de forma sagrada e profana, de forma literária e real. Amamo-nos como humanos, finitos e mortais e, por conta disso mesmo, eternos e imortais.
Que adianta sequer sussurrar o teu nome, tão presente na minha memória e em todos os aspectos da vida? Não, o nome não interessa nada.
Mas não saiamos daquele quarto de hotel. Deixemos a brisa entrar, só mais uma vez. Deixemos o sol iluminar e aquecer aquela manhã azul. Deixemos o teu sorriso, o teu rosto, o teu olhar, os teus lábios fazerem parte de mim, sempre.

Hoje, quarenta e sete anos depois, precisamente à mesma hora que acordaste, volto a abrir a porta daquele quarto. Não sei se o que escrevi corresponderá à verdadeira realidade do papel. Sei que corresponde à minha. A realidade do sangue.

Mordes-me o ouvido e sussurras-me Won’t you change partners and then, enquanto eu te olho nos olhos e te segredo You may never want to change partners again.

A música selou-nos. O testamento termina aqui.






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