terça-feira, 24 de março de 2015

É do borogodó: SOBRE UM POEMA

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
* Nota de falecimento. Nesta terça-feira, morreu o poeta Herberto Helder, aos 84 anos. O poeta que nasceu em 1930 no Funchal morreu em casa, Cascais. Fez questão de se manter no anonimato, por isso não dava entrevistas, desejando ser conhecido por sua poesia. Leia a notícia no link do Diário de Notícias – Morreu o poeta Herberto Hélder.
*Escolhido pela Penélope Martins, nossa conexão com o Brasil! 

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