quarta-feira, 11 de março de 2015

É do borogodó: "Malagueta, Perús e Bacanaço"

“Apoiaram, baixaram as cristas. Bateram perna, então, desde o Alto da Pompeia até os começos das Perdizes. Ali jogou Bacanaço, jogo miúdo, de que vieram duzentos cruzeiros apenas, que o parceirinho se apavorou e parou de estalo. Tomaram, então, as alamedas que descem para a Barra Funda. Vasculharam.

– Ô…

Braços no ar. Cobras do joguinho e tacos muito falados eram saudados assim pelos cantos que percorriam.

Mas era uma noite de sábado e houve outros lados por onde passaram, apequenados e tristes.

Vaivém gostoso dos chinelos bons de pessoas sentadas balançavam-se nas calçadas, descansando.

Com suas ruas limpas e iluminadas e carros de preço e namorados namorando-se, roupas todo dia domingueiras – aquela gente bem dormida, bem vestida e tranquila dos lados bons das residências da Água Branca e dos começos das Perdizes. Moços passavam sorrindo, fortes e limpos, nos bate-papos da noite quente. Quando em quando, saltitava o bulício dos meninos com patins, bicicletas, brinquedos caros e coloridos.

Aqueles viviam. Malagueta, Perus e Bacanaço, ali desencontrados. O movimento e o rumor os machucava, os tocava dali. Não pertenciam àquela gente banhada e distraída, ali se embaraçavam. Eram três vagabundos, viradores, sem eira, nem beira. (…)”

– João Antônio Ferreira Filho

*trecho selecionado por Penélope Martins da obra "Malagueta, Perus e Bacanaço"

Na fotografia, João Antônio aparece ao lado de Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Maurício do Valle,
nas filmagens de “O Jogo da Vida”, adaptação do seu livro "Malagueta, Perus e Bacanaço" para televisão.


Nascido em 1937, filho de uma família de pequenos comerciantes do subúrbio de São Paulo, João Antônio trabalhou em empregos mal remunerados antes de lançar seu primeiro livro de contos, Malagueta, Perus e Bacanaço, em 1963, que lhe rendeu sucesso imediato de público e crítica, além de prêmios:  Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos), Prêmio Fábio Prado e o Prêmio Prefeitura Municipal de São Paulo.

A história da feitura deste livro mereceria um romance. Os originais da obra foram destruídos em 1960 no incêndio da casa da família do escritor, que deixou a ele e sua família só com a roupa do corpo. João Antônio refugiou-se então numa cabine da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e reescreveu todos os contos, de memória.

Depois do sucesso literário, João Antônio trabalhou no Jornal do Brasil, na Revista Realidade, Manchete e Pasquim.

Faleceu no Rio de Janeiro, em 1996.


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