domingo, 15 de março de 2015

A menina com brincos de dragão



A menina com brincos de dragão, de ANA CRISTINA DIAS, Acrílico s/tela, 90X90cm


O céu do meu país a cada anoitecer, antes de se vestir de um negro povoado de estrelas, lantejoulas, brilhos, pós, poeiras, pensamentos nómadas, tuaregues em solo lunar; antes da festa de cada noite, depois do sol se retirar e enquanto as cigarras ainda cantam, é lilás de cor, quase vinho, um brinde, uma saudação, um lilás perfeito de amores-perfeitos, frágeis e curiosamente comestíveis.
Depois fechado na noite, no céu negro, cego, deslumbrado, se procurares com cuidado, com atenção e paciência.
Que a paciência é uma espécie de esperança.
E a esperança, dizem, uma virtude.
É possível.
Quase impossível.
Podes ter a sorte de encontrar um dragão.
No céu do meu país os dragões voam como gaivotas embaladas pelo vento.
Consegues imaginar o valor, a valentia, a força?
A doçura do vento para conseguir, sem baloiço nem rede, embalar dragões numa elegância de libelinhas.
Dragões enormes e azuis, os corpos de um azul tão escuro que se confundem com o negro do céu, dragões que esbaforidos lançam chamas, efémeras fogueiras que por segundos ofuscam o brilho das estrelas.
Fogos efervescentes que lembram estrelas cadentes.
E quando uma pessoa, um habitante, um viajante, dois olhos de propósito ou por acaso no céu, se cruzam com uma estrela assim, nesse mágico acender e apagar de lâmpada de tecto, nesse paradoxo de trovão silencioso, atreve-se a pedir um desejo, uma alegria, um motivo para sorrir.
E sem saber, sequer suspeitar, pede um desejo sobre um espirro de fogo de um dragão, não sobre uma estrela cadente, uma estrela que perdeu um dente, uma das cinco pontas.
Exemplo ou razão porque é tão difícil encontrar um dragão.
É que não é suficiente ver, é preciso crer, deixar-se encantar, quase sonhar.
É preciso vontade.
E se a culpa é da vontade, as conquistas também.
Assim, pediu o habitante, o viajante, um desejo e em guarda esperou.
Esperou.
Esperou.
Uma espera cheia de esperança que não foi mais do que uma esperança cheia de espera.
Esperou sem desejo nenhum se concretizar porque um dragão não é uma estrela na ponta de uma varinha a fazer magia.
A magia do dragão é sobreviver.
Cuidado com o que desejas, não vás queimar o coração, é o aviso do dragão, é que, se não consegues ser feliz com o que tens, também não vais conseguir ser feliz com o que não tens.
Derivado do diz que dizem, por saberem, os sábios dragões, que quem tudo quer tudo perde.
Porque tudo tiveram e tudo perderam.
Porque foram monarcas da côncava abóbada celeste e em consequência do chão, redondo e côncavo também, o que só eles sabiam, até que fustigados por todo o tipo de caçadores.
De maus contadores de histórias e de contadores de histórias maus.
Sem súbditos nem trono, encontraram, conseguiram encontrar, exílio e paz no céu do meu país, talvez porque o meu país não aparece no mapa.
Eu ainda não.
Eu nunca encontrei um dragão.
O meu dragão, alado, emplumado, com hálito de fogo, circula, talvez perdido, gaivota, barco à deriva, pelo céu do meu país à espera do brilho dos meus olhos.
Eu sei que espera.
O dragão do meu desejo espera.
Sei, porque já conheço o meu desejo, o meu sorriso, a minha vontade.
O meu desejo voa, do fundo da rua ao fundo da rua, como se fizesse piscinas, de olhos postos na minha janela.
E ontem deixou uma caixa-caixinha na minha caixa do correio.
E na caixa-caixinha um par de brincos.
Ouro da minha fortuna.
Eu afortunada.
Enfiei os brincos, nos lóbulos já furados e vazios, como se o meu corpo apenas à espera.
E os brincos dois dragões a voar sobre os meus ombros, dois dragões a fazer fogo-de-artifício para mim, para os meus olhos, dois dragões que vou passear pelas ruas da noite até encontrar a boca.
Só uma boca me interessa.
Só uma boca é capaz, a do tal rapaz, tem o talento, consegue incendiar o meu coração.

Raquel Serejo Martins
Este texto, esta small SONG, teve como ponto de partida o quadro supra, trabalho da pintora Ana Cristina Dias.
Mais trabalhos em: http://eu-e-a-pintura.blogspot.pt/.

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