segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial

Para lermos este livro precisamos de antes demais ser estudiosos e/ou no mínimo interessados nas áreas de ciência política, relações internacionais e sociologia, não sendo um livro fácil é um livro muito interessante e polémico mas que na globalidade está muito longe das criticas fáceis que lhe fizeram, com certeza efetuadas, por quem nunca se deu ao trabalho de o ler. Por isso irei me afastar destas e irei olhar para o livro como um produto de uma forma de pensar, que tem como resultados algumas estranhas e retorcidas teorias/hipóteses e outras muito interessantes e positivas.

Quem o escreve, o já falecido professor de ciência política, Samuel Phillips Huntington, foi um conceituado professor de ciência política da Universidade de Colúmbia – no qual foi diretor do seu reputadissimo Instituto de Estudos de Guerra e Paz – e, a partir de 1963, professor da Universidade de Harvard acumulou estas três atividades académicas com duas outras prestigiadas, a primeira como co-fundador e co-director até 1977, da respeitada e influente revista – de relações internacionais e de política interna americana – Foreign Policy, a segunda, a partir de 1975, como membro eleito – aliás são todos eleitos pelos seus pares – da American Academy of Arts and Sciences ou seja a Academia de Letras dos E.U.A.. Desta maneira vemos que era um influente e sólido académico mas que não era alguém neutral nem muito menos pacifico, foi consultor do U.S. Department of State – o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos E.U.A. – e era conotado com os democratas – nos E.U.A. os democratas vão desde o socialismo democrático ao liberalismo social e económico – embora fosse o que podemos dizer um democrata conservador nos assuntos da política externa, foi já com esta visão que colaborou entre 1977 e 1978, com a administração de Jimmy Carter, onde foi o Coordenador do National Security Council – é um gabinete de conselheiros em várias áreas ligadas aos negócios estrangeiros, serviços secretos, defesa, segurança interna e externa que estão sob a égide do Executive Office of the President of the United States – para as áreas do Planeamento de Segurança. Já no final da sua vida foi um critico feroz das administrações de George H. W. Bush e de Bill Clinton, não sem antes passar, nos anos 80, por um controverso cargo de conselheiro de segurança do governo do apartheid da Africa do Sul, liderado por P.W.Botha, embora podemos dizer em sua defesa que tivesse aconselhado reformas neste sistema e aconselhado ao gabinete governante medidas de segurança que pudessem lidar com a mudança do sistema de apartheid, com que então se pensava acabar e o qual não se concretizou, para outro mais inclusivo e democrático.

O livro serve, e o autor assume-o no Prefácio, para fundamentar um artigo que este tinha publicado no verão de 1993 – ou seja três anos antes – na revista Foreign Affairs intitulado The Clash of civilizations?. E aqui ficamos com a grande dúvida se o livro serve para fundamentar uma teoria já existente, qual a credibilidade cientifica do mesmo? Bem isso não lhe retira o mérito ou o demérito das analises que faz e da fundamentação que usa mas perpassa por todo o livro esta teoria o que lhe retira alguma credibilidade. Para além de que algumas fundamentações históricas são incompletas e muito dirigidas para o objectivo final que é provar que existe um choque de civilizações e que tal irá influenciar o futuro da ordem mundial.

Mas vejamos o livro foi escrito em 1996 e de entre toda a especulação que tem um livro com essa data, existem quase 19 anos depois, um conjunto de analises que se tornaram certeiras, irei referir três que me parecem as mais certeiras: primeiro sobre uma provável guerra na Ucrânia que oporia a Rússiaestado-núcleo da chamada por este civilização Ortodoxa – e a civilização Ocidental; segundo o papel dos chamados países dilacerados acertando não só na evolução negativa da Rússia, como da provável islamização da Turquia, como e por fim da aproximação e reforços dos laços entre os E.U.A. e o México; em terceiro lugar acerta completamente na ameaça islâmica – e no choque que esta civilização faz com todas as outras – que então tinha apenas esboçado algumas pequenas e tímidas ameaças. Mas erra em muitas outras análises e apercebo-me que se este não tentasse forçar tanto a sua teoria do tal choque de civilizações talvez as suas analises fossem bem mais certeiras!!!

No final vemos que o autor não defende que este choque seja algo de inevitável, aliás o seu ultimo capitulo, intitulado A civilização como um bem comum, defende apenas que uma ordem internacional assente em civilizações será a mais segura salvaguarda contra uma guerra mundial e até dá alguns exemplos de como poderemos superar as diferenças entre estas e quais os valores que todas estas comungam. Por isso e até pode ser, que todo o seu livro seja um exercício um bocado forçado num determinado sentido, mas está longe de ser um incendiário irresponsável que muitos dos seus críticos que leram o seu livro lhe atribuem de forma, essa sim, irresponsável e incendiária.

Como a próxima semana é a primeira 2.ª feira de Março, e analiso/critico livros de romance, poesia, viagens e best sellers, escolhi analisar um livro de viagens, o que escolhi foi O Vento dos Outros de Raquel Ochoa.

Saudações a todos os leitores e boas leituras,

.'.Sandro Figueiredo Pires.'.

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